domingo, 5 de dezembro de 2010

IX Concurso de Poesias de Duque de Caxias


Por mais um ano resolvi me inscrever no Concurso de Poesias de Duque de Caxias, minha cidade. Há alguns anos eu tive a honra de participar de algumas edições e ser premiado em duas delas: em 1998 recebi Menção Honrosa com o poema "Sábado Molhado", que ainda heid e publicar aqui no blog. Em 2002 fui tomado de surpresa quando, já sem mais esperança, me tomei sendo prestigiado com o 1º lugar com o poema "Veneno". Esse dia foi muito especial porque os poemas eram anunciados em ordem decrescente de premiação, e quando chegou a vez de declamarem o 1º lugar, não restava nem mais um cadinho de esperança. E não é que eu comecei a gritar quando ouvi o "Moço, aí tem comida? Que boa a sua vida..." !? Minha mãe, também presente, não conseguiu conter as lágrimas; como nunca consegue, diga-se. "Veneno" está publicado aqui no blog, na seção "Urinoterapia".

Pois bem, esse ano resolvi concorrer mais uma vez com dois poemas: "Coisa Preta" e "Eu, Ateu". Na semana da premiação a Secretaria de Cultura me ligou duas vezes dizendo que eu tinha sido classificado para a final do concurso. E eu, mais envolto em participar do evento que disputar um prêmio, não criei grandes expectativas, salvo para convocar uma sorte de amigos e familiares, os quais fizeram uma acalourada torcida no Teatro Municipal Raul Cortez.

A despeito da organização do evento e da apresentação da cerimônia que, ao meu ver, deixaram a desejar (digo isto porque sou expectador e participante de outras edições... eu posso falar!), minha noite foi fechada com chave de ouro porque, após oito anos, novamente recebi a premiação de 1º colocado. A poesia escolhida foi "Eu, Ateu", que é uma das "Poesias Urinadas" do Sai na Urina.

Aproveito aqui a oportunidade de agradecer a todos e todas que me apoiaram, divulgaram, deram força, torceram e me prestigiaram. Que a poesia da vida jamais desapareça do coração e da mente de vocês. Em especial, à minha amiga linda Adriana Rolin, à Lídia, ao meu querido Marcos Lord, à Carlinha e ao Alex, ao Renan, à minha tia Kátia e à minha amada idolatrada Salve-Salve mãe, Selma, que é mãe pra todas as horas. E, claro, ao Gustavinho da Estrela que quase não chega e teve que enfrentar, além do trânsito, da ferrovia e do relógio, o meu mau humor! Last but not least, aos atores do CPT DC, meus queridos amigos, que declamaram as poesias da noite. Uma agradecimento especial ao Alex Fabiani, que declamou com maestria "Eu, Ateu". Muito obrigado por tudo!


Então, com vocês...



*** Eu, Ateu ***



Vejam também aqui a matéria da Secretaria Municipal de Cultura no site da Prefeitura

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Saga de Manuel Congo e Marianna Crioula: os Heróis da Resistência

E como eu não paro nunca, mais uma vez me meti numa dessas mijadas que, de tão sufocadas, saem com gosto e alívio incomensuráveis. O mijo da vez está dando muito prazer. Trata-se dos ensaios e da preparação para o espetáculo A Saga de Manuel Congo e Marianna Crioula: Os Heróis da Resistência. É com muita alegria que integro o elenco desta peça, que será apresentada neste final de semana no Rio de Janeiro em comemoração ao Dia da Consciência Negra. Quem gosta de Cultura, História, Africanidades e Léo Rossetti não pode ficar perder essa. Se quiser saber mais sobre este casal, não se limite às palavras que seguirão a introdução desta postagem; vá nos assistir! É de graça; custa menos que uma tarde sedentária em cima do sofá da sua casa!


COMEMORAÇÃO DO DIA 20 DE NOVEMBRO - DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA RJ

A SAGA DE MANUEL CONGO E MARIANNA CRIOULA
OS HERÓIS DA RESISTÊNCIA
(A GRANDE CORUJA BRANCA)

Uma homenagem mais do que justa!

Em face à Comemoração do dia 20 de Novembro, o dia da Consciência Negra no Estado do Rio de Janeiro, a Companhia Nossa Senhora do Teatro encenam o Espetáculo inédito “A saga de Manuel Congo e Marianna Crioula, os heróis da resistência”. A encenação conta com a presença de 20 atores profissionais e 50 alunos atores da Oficina Escola de Teatro que fica na Estação de trens Central do Brasil com apoio da SUPERVIA e CEDINE, além dos músicos percussionistas e dançarinos. A montagem com belíssimo figurino, narra a trajetória heróica dos grandes vultos da maior rebelião já promovida no Estado do Rio de Janeiro por Manuel Congo e Marianna Crioula, onde em 1839 formaram um Quilombo no Vale do Paraíba do Sul, exatamente em Paty do Alferes, Estado do Rio de Janeiro e lá abrigaram cerca de mais de 300 escravos fugitivos.

Manuel Congo determinava as ações e a Marianna Crioula, sua companheira, coube a difícil missão de conseguir as armas de fogo, armas brancas, alimento e água para a escapada e inevitável embate futuro, o que fez com a ajuda de outras escravas. No mesmo ano o embate entre senhores de engenho e os escravos aconteceu, sendo parte deles capturados, julgados e condenados, sendo que há ai algumas curiosidades: Mariana Crioula capturada gritava a frase histórica: MORRER SIM, ENTREGAR-SE JAMAIS! Porém foi inocentada por um pedido de alta clemência de sua dona, a Senhora de engenho Francisca Elisa Xavier. Já Manuel Congo foi condenado a pena de morte, enforcado, decapitado e ficou sem sepultamento. Conta ainda a história, que a partir desta data a sua companheira de luta, a escrava Marianna Crioula voltando aos afazeres da antiga fazenda da Freguesia, hoje Aldeia de Arcozelo, enlouqueceu, dizendo estar vendo Manuel Congo pela fazenda como rei coroado, e também diziam os outros escravos capturados vê-lo. O tempo passa e Marianna Crioula morre, diz a lenda que ela torna-se uma grande coruja branca que passa a agourar toda aquela região fazendo com que ali nada prospere e nem se crie, dando seus vôos rasantes e piando alto CONGO! CONGO! Ela assusta o vilarejo! Os moradores locais se curvam e respondem: “Marianna Crioula, Coruja branca, seu sangue não estanca! Esta coruja está na região até os dias de hoje!

Em 01 de junho de 2010, os deputados e vereadores do Estado do Rio de Janeiro, decretam por unanimidade que Manuel Congo e Marianna Crioula recebam o título de heróis do Estado do Rio de Janeiro. A companhia nossa Senhora do Teatro foi a mesma que montou em 2008 “O auto da Escrava Anastácia” para a comemoração dos 120 anos da abolição da escravatura.
“Usar o veículo do teatro para entreter e acima de tudo informar e formar novos cidadãos, não é questão apenas estratégica, é porque de fato o teatro brasileiro deve exercer esta função: a de também educar, socializar, humanizar, registrando sua história e ser um acalentador de almas”. (Ricardo Andrade Vassíllievitch)


Local de apresentações:
· Estação de trens Central do Brasil (gare da Central) sexta feira dia 19 de novembro às 12:00 h (meio dia).
· Praça Onze no busto de Zumbi dos Palmares – Sábado dia 20 às 08:30 h
· Espaço Cultural Sylvio Monteiro em Nova Iguaçu – Domingo dia 21 às 19:00 h

Pesquisa, Texto e direção teatral: Ricardo Andrade Vassíllievitch
Produção e Encenação: Companhia Nossa Senhora do Teatro
Duração do espetáculo: 40 minutos
Gênero: Drama
Entrada Franca.
Classificação livre.
Contatos: (21) 3773 – 8375 ou (21) 9714-4940 (Ricardo Andrade Vassíllievitch)

Site www.nossasenhoradoteatro.com

E-mail: nossasenhoradoteatro@gmail.com


Fernanda Torres e Léo Rossetti como:
Senhora Francisca Elisa Xavier e Capitão Mor Manuel Francisco Xavier


Urine conosco! Ajude a divulgar o nosso espetáculo!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Editora Metanoia esquenta o fim do ano com lançamentos imperdíveis!

O fim de ano será mais quente que o de costume! Pelo menos é o que a Metanoia Editora está prometendo com o lançamento de mais dois livros em novembro. São eles: "Pode a Bíblia Incluir?", de Márcio Retamero; e "O Dragão que Habita em Nós", de Derval Dasílio. Um terceiro livro é esperado para o mês de dezembro: "Jeito Calladinni de Voar", de Alexandre Calladini.

A Metanoia é uma editora nova no mercado e, às vésperas de completar seu primeiro aniversário já conta com publicações polêmicas, audaciosas e comprometidas com os Direitos Humanos. Um dos destaques de suas puiblicações é o foco na Inclusão, sobretudo no que se refere à literatura LGBT. Também tem destaque livros de caráter teológico que procuram romper com paradigmas conservadores, a exemplo do famoso "Banquete dos Excluídos", também de Márcio Retamero, e que foi lançado em dezembro passado.

O Sai na Urina é parceiro da Metanoia Editora e indica toda a sua literatura para os seguidores que acompanham este blog mijão.

Então é isso! Não percam os lançamentos de fim de ano da Metanoia Editora. Pegue uma caneta e anote o cronograma de lançamentos:

Dia 10/11 - "Pode a Bíblia Incluir? Por um Olhar Inclusivo sobre as Sagradas Escrituras", de Márcio Retamero. Local: Centro Cultural da Justiça Federal (RJ) - Av. Rio Branco, 241. Horário: 19 horas.

Dia 12/11 - "O Dragão que Habita em Nós: Conversas sobre Religião e Vida de Fé", de Derval Dasílio. Local: Museu da República (Livraria) - Rua do Catete, 153 - Catete (RJ). Horário: 18 às 21h.

Dia 04/12 - "Jeito Calladinni de Voar: Diário de um Comissário de Voo", de Alexandre Calladinni. Local e horário (a definir).

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Afinal, que diz a lei contra a homofobia?

Entre a extensa lista de citações do filósofo grego Aristóteles, uma é essencial para que todo este texto faça sentido: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Ser gay não é o único motivo que me faz acreditar que o projeto de lei substitutivo 122, de 2006, adiciona a discriminação aos homossexuais a lista de crimes da lei º 7.716 seja benéfico para toda a sociedade. O que me faz acreditar neste projeto é seu texto, claro, conciso e objetivo.

Ao contrário do que vociferam pastores evangélicos Brasil a fora, como Silas Malafaia e o senador Magno Malta (PR/ES), a PL122 não torna os gays uma ‘categoria intocável’. A discriminação por orientação sexual (homo/bi/trans e hetero) passa a incorporar o texto de uma lei já existente, que pune o preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero e sexo. Aprovada a modificação, a lei ganha o texto ‘orientação sexual e identidade de gênero’ como complemento.

A lei, que já cita uma extensa lista de crimes contra estas fatias da sociedade, adiciona ainda impedir ou proibir o acesso a qualquer estabelecimento, negar ou impedir o acesso ao sistema educacional, recusar ou impedir a compra ou aluguel de imóveis ou impedir participação em processos seletivos ou promoções profissionais para as pessoas negras, brancas, evangélicas, budistas, mulheres, nordestinos, gaúchos, índios, homens heterossexuais, mulheres homossexuais, travestis, transexuais… pra TODO MUNDO! Ou seja, a lei não cria artifícios para beneficiar apenas os gays, mas para dar mais garantias de defesa de seus direitos para toda a sociedade, da qual a comunidade gay está inserida.

O único artigo que cita diretamente novos direitos constituídos a homossexuais é o oitavo, que torna crime “proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãos”, deixando claro que os direitos são de TODOS, e não apenas de um grupo seleto de pessoas.

Mas e a liberdade de expressão?

O ponto mais criticado por evangélicos, especificamente, é a perda da liberdade de expressão. Ora, onde um deputado em sã consciência faria um projeto desta magnitude e não estudaria a fundo a constituição para evitar incompatibilidades? A PL122 apenas torna crime atos VIOLENTOS contra a moral e honra de homossexuais, o que não muda em nada o comportamento das igrejas neo-pentecostais em relação a crítica. Uma igreja pode dizer que ser gay é pecado? Pode. Assim como pode dizer que ser prostituta é pecado, ser promiscuo é pecado, ser qualquer coisa é pecado. A igreja pode dizer que gays podem deixar o comportamento homossexual de lado e entrar para a vida em comunhão com Jesus Cristo? Pode, claro! Tudo isso é permitido, se há homossexuais descontentes com sua orientação sexual, eles devem procurar um jeito de ser felizes, ou aceitando sua sexualidade ou tentando outro caminho, como a igreja, por exemplo.

Agora, uma igreja pode falar que negros são sujos, são uma sub-raça e que merecem voltar a condição de escravos? Pode dizer que mulheres são seres inferiores, que não podem trabalhar e estudar, e que devem ser propriedade dos maridos? Pode dizer que pessoas com deficiência física são incapazes e por isto devem ser afastadas do convívio social por não serem ‘normais’? Não, não podem. Da mesma forma, que igrejas não poderão dizer (mesmo porque é mentira) que ser gay é uma doença mental, que tem tratamento, que uma pessoa gay nunca poderá ser feliz e que tem de se ‘regenerar’. Isto é uma violência contra a moral e a honra dos homossexuais, e este tipo de conduta ofensiva será passiva de punição assim que a lei for aprovada.

O que a PL 122 faz é incluir. Ela não cria um ‘império Gay’, como quer inadvertidamente propagar um ou outro parlapatão no Senado. A PL 122 não deixa os homossexuais nem acima, nem abaixo da lei. Deixa dentro da lei. Quem prega contra a lei tem medo de perder o direito de ofender, de humilhar, de destruir seu objeto de ódio. Quem prega contra a PL 122 quer disseminar a intolerância. E tudo que nossa sociedade precisa hoje é aprender respeito e tolerância, e descobrir de uma vez por todas que é a pluralidade que torna nossas breves existências em algo tão extraordinário.

William De Lucca Martinez

Jornalista

@delucca / deluccamartinez@hotmail.com

Fonte: http://peganomeu.wordpress.com/2010/04/12/afinal-que-diz-a-lei-contra-a-homofobia/


sábado, 2 de outubro de 2010

Não voto em evangélico!

Daqui a algumas horas decidiremos o futuro político do nosso país. Neste domingo, 03 de outubro de 2010, cerca de 135 milhões de brasileiros e brasileiras se destinarão às suas respectivas zonas de meretrício eleitoral. E eu não farei diferente. Irei lá dar a minha apertadinha. Meter o dedo, por assim dizer. E meu critério que há tempos venho professando pelas minhas redes sociais é não votar em evangélico.

E vocês, leitores e leitoras, não fazem ideia do tamanho da polêmica que criei quando ousei postar isso no subtítulo do MSN e no status do orkut. Através do MSN, dois ex-alunos e um colega (ou ex-colega) de teatro vieram me criticar, posto que são evangélicos. Um amigo gay surpreendentemente me abordou por este mensageiro dizendo estar estupefato com minha simples frase. Apenas um único amigo, também do teatro, viu a frase de maneira positiva. Pelo orkut choveram críticas, e todas elas muito pouco originais pois caíam sobre a mesma assertiva: isto é preconceito.

Por isso decidi escrever esta postagem. Não em tom de satisfação, porque a essa altura da vida não preciso bater cabeça pra nenhum mentor político. O voto de cabresto já se passou há muito! Minhas convicções políticas não precisam se explicar; o mundo que se contente em aceitá-las ou não aceitá-las. Escrevo em tom de resposta, quiçá de provocação.

Não vou aqui fazer a linha "politicamente correto", não. Quer achar que a frase é preconceituosa!? Que ache! Que seja preconceituosa, então. Mas o galhardão do meu voto, esse grupinho evangelouco não vai ter mesmo. E tenho muitos motivos para não dar o meu voto para os "irmãos" em Cristo. Quais sejam, são criticáveis. Mas não pretendo mudá-los até a hora de votar, para a infelicidade dos crentes.

Primeiramente, antes que me perguntem por que diabos eu não voto em evangélico, eu reformularei a pergunta: Por que eu devo votar em evangélico? Por que são bonzinhos? Será isso? Por que possuem bons valores? Talvez os bons valores em reais que se amontoam nos cofres não confiados ao fisco, que a cada dia engordam mais com as somas de dízimos e ofertas de um povo que barganha o pão de cada dia, de um povo até inocente em sua fé, ingênuo na vida espiritual. Por que eu devo votar em evangélico? É preciso mesmo ser evangélico para ser leal, honesto, bom caráter, digno? Eu não vejo, a princípio, nenhum motivo que me leve à necessidade de votar exclusivamente em evangélico. Não vejo nada neste povo que mereça a exclusividade do meu voto. Então, antes de qualquer coisa, não desacredito nos bons valores evangelicais e sei que existem excelentes pessoas que são evangélicas. Mas acredito que existem também excelentes pessoas umbandistas, ateias, budistas, bahai's, agnósticas, católicas, hindus, xintoístas etc.

O meu problema não é o evangélico em si (na verdade, é também! rs rs rs... mas não para esta questão, em outro momento falo sobre isso! ), mas o evangélico candidato. O político evangélico. Aí, ao meu ver, está a desgraça. A desgraça política, esclareça-se. Porque acredito que a Graça do Senhor é pra todos e todas. Até para o evangélico. Certa vez me perguntaram: "e se você não souber que o candidato é evangélico!?". Bom, neste caso eu acho ótimo. E, na minha consciência, não estarei votando em evangélico. Portanto estou sendo coerente, assim como o(a) candidato(a), que usou da coerência e do bom senso e não declarou publicamente a sua fé.

E qual o problema em declarar a fé evangélica? Bom, em se tratando de política, um problema grande! Não tenho base teórica para provar isto, mas desafio aos que discordarem que me provem cientificamente se estou errado: evangélicos tem tesão em votar em outros evangélicos. Eu me pergunto: "Senhor, por que!? Tu deste o cérebro, o que estão fazendo com ele? Perdoai, Senhor, porque eles não sabem o que fazem". E a coisa é tão alarmante que se torna óbvio votar em outro evangélico. Dia desses eu vi numa igreja supermeganeopentecostal aqui perto de casa um banner de três metros de altura de um candidato ao lado daquele pastor da toalhinha... (aliás, que toalha imunda e fedorenta deve ser, não? higiene zero!). No banner, o pastor pedia votos para o dito cujo. Mas como assim? Se por muito menos o próprio Jesus desceu o barraco em Jerusalém, imagina se o Homem volta e encontra essa politicagem em Sua Casa!

O argumento dos fiéis é que precisam eleger pessoas de Deus pro Congresso. Bom, tudo bem. Mas assim... por que o Marcelo Crivella, por exemplo, que é acusado de crime contra o Sistema Financeiro e falsidade ideológica é considerado "de Deus" e o Zé das Couves, mandingueiro lá do interior do Ceará, não é? A gente nasce com uma etiqueta dizendo Made by God? E, se a princípio Ele é o Criador, por acaso não criou o Marcelo Crivella, o Zé das Couves, você, eu, e todos os que habitam este planeta!? Que história é essa que Fulano é de Deus!? Posso supor então que há quem não seja de Deus... e que, por acaso - apenas por acaso - é alguém que não faz parte da coligação partidária do pastor-candidato. Hummmm... muito suspeito!

Olha, pra ser bastante sincero eu acho que os evangélicos podem se candidatar. É direito! Mas os de boa índole, que não participam deste jogo sujo da política e agem mediante os interesses da coletividade (e não de uma classe restrita de cidadãos do Reino de Deus), sinceramente não deveriam sequer manifestar publicamente (em programas eleitorais, em santinhos, em folhetos) que pertencem a uma determinada religião. Se a religião é pessoal, e se o projeto é para todos, qual a razão para dizer que é cristão ou cristã, da igreja tal ou qual? Com certeza não é para ganhar pontinhos no Céu; há interesse político aí! Pra mim isto é muito claro...


Não vou mais titubear e serei breve. Quero finalizar esta postagem ainda hoje! Os dois últimos e maiores motivos que me levam a não votar em evangélicos são:


* tcham * tcham * tcham * tcham *


Evangélicos querem "converter" o Congresso inteiro! Evangélicos acham que a missão deles é converter o mundo! Evangélicos acham que pregar o Evangelho é "conseguir almas" para Deus, como se a tarefa de "converter" lhes coubesse, e não a Deus. Acaso não é Cristo quem escolhe os seus? Mas o medo do inferno é tão grande que é preciso registrar uma a uma as almas que foram "convertidas" ao Senhor. E, se assim é, convém colocar nas pautas políticas, nos assuntos do Povo, nas leis e nas cadeiras do Plenário pessoas que também comunguem deste ideal, pessoas que também busquem dominar o mundo... "em Cristo"! E nisto a laicidade do Estado vai por água abaixo... O Estado Brasileiro é laico. Ou pelo menos deveria ser. E eu me recuso a votar em pessoas entendem a laicidade do Estado como o estado diabólico do Estado. Estado laico não significa que o Estado é do diabo. Apenas não é de Deus. E não tem que ser mesmo. De nenhum deus. E tenho certeza Ele entende muito bem que religião não deve se assentar sobre a Casa de Leis. E quer saber? Acho que Ele prefere assim. Tanta desgraça já se fez quando a religião se assentou sobre a Lei!


Por fim, ainda há um motivo bem razoável para não votar em evangélico: as propostas políticas não me contemplam. Não se engane! Porque os evangélicos-candidatos não estão se enganando. Eles estão muito bem articulados e possuem claramente um projeto de poder que se articula diretamente com as propostas defendidas ou repudiadas por eles. Por exemplo, a questão do casamento homossexual é um tema que vem despertando a ira dos religiosos. nos debates políticos. Segundo eles, esta união abalaria a "família", como se homossexuais não tivessem e não formassem famílias. Como se existisse apenas um modelo de família, aquela do comercial de margarina que não existe há muito no Brasil. Ou você realmente acha que a família brasileira é assim, todos brancos, louros, reunidos em torno de uma mesa farta, pai e mãe, dois filhos limpos e sorridentes, em uma casa incrivelmente asseada e a felicidade estampada em cada olhar?


Ora, ora... a família margarina dos evangélicos é a minoria no Brasil. Nós, brasileiros, somos da família dos sem pais, onde os filhos são criados pelas avós, ou são deixados nas ruas para aprenderem a ser malabaristas nos sinais de trânsito e a ser palhaços na estrada da vida. A família brasileira é aquela chefiada por mulheres, porque o homem "cabeça" da casa abandonou a família, se é que um dia a conheceu. A família brasileira mal tem o que comer, mal tem o que vestir, e se arranja sem cerimônia de casamento. Nossa família é a família do jeitinho, que se equilibra entre as regras estabelecidas pra poder sobreviver. E ninguém usa a Bíblia pra poder dizer que a poligamia é bíblica ou que a liderança feminina da família não está na Lei de Moisés, sendo, portanto, uma abominação. Mas quando se trata da união de dois homens ou duas mulheres, imediatamente lembram do Livro Sagrado, quando, na verdade, não deveriam lembrar, já que a união não é religiosa, mas civil.



A crítica à descriminalização do aborto é outro prato cheio dos evangélicos-candidatos, e é também algo que também não me contempla. Não porque eu não seja mulher, mas porque não contempla meu modo de pensar a vida. Vejo malediscência quando este debate chega à mídia através destes programas religiosos de TV, atacando pessoas que são "a favor do aborto". Ora, a questão não é ser a favor ou contra o aborto, mas a favor ou contra descriminalizar a atitude de mulheres que recorrem a esta prática. Quem não faz aborto continuará não fazendo. Assim como quem não gosta de cigarro não passa a gostar simplesmente porque é lícito. Mas se a mulher precisar fazer este procedimento, que não recorra a clínicas clandestinas que lucram milhões com a ilegalidade. A ideia da descriminalização do aborto é simplesmente controlar uma prática que já existe. Não se trata de incentivar! Trata-se de impedir a morte de milhares de mulheres. Mas sabe por que isto não é relevante para os evangélicos? Porque mulher e lixo se confundem deste que o mundo é mundo. Para a grande maioria dos religiosos, lugar de mulher é abaixo do homem. E não se surpreendam: se homem pudesse engravidar, o aborto não apenas estaria descriminalizado, mas já seria obrigatório.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Um outro Rio mostra a voz nas urnas

Na reta final das Eleições 2010, tentei reler no SAI NA URINA o texto que publiquei sobre as Eleições 2008. Incrivelmente não achei aqui. Lembrei que eu o publiquei primeiramente no site da Comunidade Betel, mas também lá não achei. Por fim localizei-o no blog Igreja Inclusiva. Trata-se de um texto de minha autoria sobre as eleições municipais de dois anos atrás. Mas, desde então, percebia-se meu temor em relação a um candidato específico que, de eleição em eleição, vem mostrando seus cachos de ovelha que disfarçam, por baixo dela, a pele e o corpo de lobo voraz. Vale a pena reler!

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Um outro Rio mostra a voz nas urnas

http://www.blogdacomunicacao.com.br/wp-content/uploads/2010/08/eleicoes2008.jpg

Se tem um cronista para o qual eu tiraria o chapéu, não poderia citar outro nome senão Lima Barreto. Há quem o tome por cronista e interprete suas crônicas escritas no início do século XX como um amálgama entre História e Literatura, misturando, nos meandros do texto, situações de cunho ora jornalístico, ora ficcional. Eu penso um pouco diferente. Acho mesmo que a grande paixão de Lima Barreto era a História, e não pensem que digo isto com alguma parcialidade, porque para tanto não há qualquer motivo.

Um dos livros de Lima Barreto – obra póstuma publicada em 1923 – chamava-se “Os Bruzundangas”, uma coletânea de crônicas onde, dizem alguns, o escritor relataria, lançando mão de um belíssimo recurso literário, um país fictício, o que alguns intelectuais mais dados às Letras dizem hoje ser metáfora do nosso encantado e maravilhoso Brasil. Mas eis um segredo! O país dos bruzundangas existia, sim! Como existe ainda hoje, escondidinho em um canto qualquer do nosso planeta. Não é literatura, não. É relato histórico de cabo a rabo.

Infelizmente Lima Barreto não sobreviveu para presenciar a trajetória da Bruzundanga sobre a qual escrevera. Este era o nome da nação dos bruzundangas. O país ficou famoso porque, ao longo de sua história, seus cidadãos foram desatrelados da cultura do voto. É bem verdade que podemos atribuir isto ao fato de a Bruzundanga ter passado por duas grandes ditaduras. A primeira, sob a liderança do chamado “Pai dos Miseráveis”, o famoso Manda-Chuva G. Túlio Wargas. Dada uma trégua democrática, a Bruzundanga foi tomada por um surto ditatorial militar, cujos expoentes formavam um grupinho muito pouco coeso de milicos torturadores. De forma tal que a Bruzundanga formou gerações de quase-cidadãos, que desacreditaram em sua capacidade de influenciar os caminhos pelos quais o país caminharia. A confiança na classe dos Manda-Chuvas foi sendo perdida, na medida em que este grupo acostumou toda a gente bruzundanga a servir de muleta para a corja manca da política charlatã. Uma elite fétida, podre e capenga, que embutiu na classe média a esperança de estar um dia ostentando muletas de cedro, muito embora só possa, atualmente, cravar sobre os menos favorecidos um bastão de compensado barato, supervalorizado com altas taxas de juros nas Casas Bahia, e comprado em suaves e intermináveis prestações em crediário. Assim é a classe média bruzundanga: emergentes da pobreza e candidatos à elite.

Pois bem, a Bruzundanga atual é um país democrático, politicamente organizado, e ostenta o título de República Federativa da Bruzundanga. De quatro em quatro anos, os bruzundangas elegem seu presidente. Da mesma forma, mas com um hiato de dois anos, acontecem as eleições municipais, e qual não foi minha surpresa ao ver que as eleições bruzundangas aconteceram no início de outubro, assim como no Brasil! Oxalá não termos no nosso país a corrupção que encontramos lá, na sociedade dos bruzundangas. Uma corrupção de caráter, que vai desde o cidadão que fura a fila do banco até o presidente que fura... fura tanta coisa! O pior mesmo é quando tem um furo de reportagem, e aí a quadrilha política aparece, cínica como um bando de lobos que, disfarçados de cordeiros, fazem um banquete com alguns milhões de porquinhos. Aqui no Brasil não tem esse conto de fadas, não. A realidade nos conforta. Mas lá... tem até manda-chuvas pagando mensalões para os seus afilhados-colaboradores.

Um das cidades mais lindas da Bruzundanga – o Rio Dijaneiro – já foi capital do país, e vivenciou há algumas semanas as suas eleições municipais. E um grave perigo se instaurou no cenário dijaneirense. A ameaça surgiu de um grupo soberbo e enganador, detentor de status e prestígio, principalmente – no caso da Bruzundanga – por representar uma vertente religiosa deturpada e decaída, o IURD (Instituto Universal dos Reis-Deuses), que muito faz lembrar os personagens de Lima Barreto. Em suas crônicas, eles vivem na República dos Doutores – apelido dado ao país – cuja estrutura de poder bolina nossa dignidade e desvenda uma cultura política marcada pelo clientelismo e pelo favor. Nela, ser “doutor” significava não um título acadêmico, mas o passaporte para a promoção social, política e financeira. No IURD a diretriz caminha de maneira muito similar, com seus reis-deuses pregando aos quatro ventos uma teologia da prosperidade, o toma-lá-dá-cá divinal. Os fiéis-seguidores outorgam pra si o título de eleitos, e para os outros, o rótulo dos condenados.

Mas até então a concupiscência limitava-se ao âmbito religioso, resguardada pela liberdade de fé propagada na Constituição Bruzundanga. Porém, nesse ínterim, a classe média do IURD – os aspirantes a “doutores” – elegeu seu representante, para que este fizesse valer seus interesses mesquinhos e hipócritas no âmbito político da cidade do Rio Dijaneiro. Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir durante os meses de campanha política, onde toda a nação bruzundanga o identificava por um signo numérico. Aqui há sabedoria. Aquele que tiver entendimento calcule o número deste político, pois é número de um bispo. Ora, este número é dez.

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O homem não podia ser originário da Bruzundanga, devia ser estrangeiro. Estrangeiro, sim. Não posso afirmar de surgiu o dito bispo – embora o tenha visto emergir do mar com dez chifres, dez diademas e uma faixa onde se lia: Cree Wella é dez – muito menos quem pariu o torpe verme. Mas imagino que seja estrangeiro, não apenas por seu nome e sobrenome, mas porque nunca se havia visto na Bruzundanga tamanha alegoria político-religiosa concentrada nas mãos de um único homem.

Seja de onde for, o fato é que a besta apareceu na política nacional, vestido de cordeiro, fazendo programas de tevê, anunciando aos povos a Terra Prometida, a Fazenda Canaã. E de cordeiro, passou a pastor, e de pastor virou lobo, e de lobo ascendeu ao status de rei-deus, e de rei-deus ganhou passaporte fácil para o Senado. Não satisfeito, o bispo quis alçar vôos ainda mais altos, candidatando-se à prefeitura da cidade para representar os interesses de seus súditos-religiosos. A conspiração era audaz, a estratégia era ousada, e o projeto, ambicioso: transformar o Rio Dijaneiro na cidade de Cree Wella. A idéia diretriz incluía mudar o nome da cidade Bruzundanga, que passaria a se chamar “Creewellândia”, e nela reinariam todas as suas idéias, que foram pensadas há muito em secretas reuniões bispais com os demais reis-deuses. E nos concílios, feitos às custas dos impostos dizimais dos súditos-fiéis, os reis-deuses receberam o aval da candidatura do bispo, respaldados pela promessa da vitória, oriunda de algum ser que eles disseram ser Deus. Certos da vitória nas urnas, deram início à campanha política.

Eu posso imaginar que nem todos os candidatos à prefeitura do Rio Dijaneiro eram exemplos de competência, ética e respeito à diversidade, mas nunca se vira um discurso tão segregador quanto o do candidato Cree Wella. Eu não sei o que o bispo pensou quando imaginou a criação da Creewellândia. Sua cidade virtual não condizia com a realidade da Bruzundanga: um país formado por bruzungangas, mas também por bruzundecas, bruzundocas, bruzundivas, bruzundíssimas, bruzundelas... O Rio Dijaneiro também sempre foi cheio dessa gente diferente, plural, mista, e tão cidadã quanto os bruzundangas – muito embora marcada por lutas sangrentas e muitas, muitas injustiças sociais – motivo pelo qual a pretensão de uma Creewellândia livre de todas esses agentes era, além da institucionalização do preconceito, a utopia de concretizar as idéias de uma vertente religiosa que caminha na contramão dos avanços sociais! O cúmulo da esquizofrenia: como negar a existência de um povo que não nega a sua identidade? Como lidar com um mundo em transformação utilizando um discurso tão arcaico, preconceituoso e mentiroso?

Das duas uma: se o Criador prometeu a vitória ao bispo, ou Deus enganou o profeta candidato ou o candidato era falso profeta, porque na disputa eleitoral Cree Wella foi infeliz. Aliás, sempre foi e deve sê-lo até hoje. Porque nenhuma candidatura, ou postura política, ou convicção religiosa, ou consciência crítica, pode ficar às margens das mudanças do mundo. Creewellândia seria uma cidade irreal, pois segregaria as diferenças, a pluralidade, as diversidades, a bruzundangalidade que sempre fez deste país a segunda nação mais hospitaleira do mundo (só perdendo para o Brasil, logicamente); seria uma cidade pobre, porque as idéias provenientes da corja putrefeita do Instituto Universal dos Reis-Deuses não têm consistência, senão por utilizarem com uma certa coerência um discurso do “quem-dá-mais”, fundamentado numa base lógica – que existe na matemática financeira – mas não no Evangelho pregado pelo Cristo, o Deus encarnado, o humilde carpinteiro, dois mil anos atrás; seria, ainda, uma cidade triste, porque retrocederia décadas, quando ainda as minorias da Bruzundanga sofriam impunemente as dores da violência e as amarguras do silêncio, e não tinham a alegria dos direitos conquistados através de suas lutas históricas por justiça social. E foi na esperança de que a cidade do Rio Dijaneiro não fosse transformada numa cidade irreal, pobre e triste, que a população dijaneirense – cansada do vício do clientelismo bruzundanga e convicta de que preceitos religiosos não devem jamais alçar vôo a ponto de impedir direitos civis – mostrou sua voz nas urnas nas últimas eleições municipais, impedindo o bispo Cree Wella de proclamar suas inverdades falaciosas no segundo turno das eleições, que acontecerá nas próximas semanas, restando-lhe apenas a euforia de ser, durante os dias de campanha, alvo da histeria coletiva de seus súditos-fiéis. E à população do Rio Dijaneiro, resta a esperança de que o prefeito eleito no segundo turno represente com ética, competência e justiça, os interesses de toda a comunidade dijaneirense, que inclui bruzundangas, bruzundecas, bruzundocas, bruzundelas, bruzundíssimas...

Eu queria mesmo é que Lima Barreto escrevesse crônicas sobre as eleições no Brasil de hoje, mas aqui, crônica mesmo ficou minha dor de ouvido, de tanto ouvir fogos, “jingles”, refrões animados e numerosos aglomerados humanos gritando uma melodia contagiante entoada para algum candidato às vésperas das eleições. Fora isso, sem muita polêmica. Houve um disse-me-disse aqui, um candidato impugnado acolá, outra que foi eleita na cadeia, mas nada que ultrapassasse a ordem natural das coisas no Brasil, pois pra tudo aqui dá-se um jeitinho. Na Cidade Maravilhosa, o pleito correu, como se deve imaginar, às mil maravilhas. Houve quem dissesse que algum candidato desqualificado à prefeitura ousasse desafiar a população com algum discurso vazio, preconceituoso e fundamentalista. Porém, em se tratando dessa gente, é melhor nem citarmos o nome. Já diziam os sábios: a palavra tem poder. Se o povo lhes dá corda, mais aumenta a sua fama.
Perdoem-me o equívoco, mais apropriado é dizer: a sua infâmia.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Toda mulher é meio Eliza Samudio (por Jean Wyllys)


O desaparecimento de Eliza Samudio, a moça que teve um filho com o goleiro e capitão do Flamengo, Bruno, e que, agora, é dada como morta pela polícia que investiga o caso; este desaparecimento e sua cobertura por parte da mídia chamaram a minha atenção não por ser o tal do Bruno aquele apontado como o principal responsável pelo sumiço da moça (meu interesse por futebol não chega ao ponto de eu saber quem é o capitão do Flamengo), mas, sim, pelo fato de a internet, desde o momento em que a polícia levantou a hipótese de Eliza ter sido assassinada pelo goleiro, vir sendo invadida por comentários machistas que buscam desqualificar a vítima para, assim, “justificar” o crime que lhe tirou a vida. Como homem homossexual solidário às mulheres, eu me interessei pela repercussão do caso Eliza Samudio por perceber, nos comentários que lhe acusam de “Maria Chuteira”, “puta” e “atriz pornô”, entre outros mimos, não só aquela violência ordinária, construída ao longo dos anos em que uma menina se transforma em mulher e aprende a se tornar vítima, ou aquela violência mortal que, por exemplo, pôs fim à vida de Eliza, mas, principalmente, por perceber aquela violência sistemática dirigida contra todas as mulheres e que se expressa primeiramente na linguagem. É claro que a grande maioria destes xingamentos que objetivam desqualificar a vítima para “justificar” ou “explicar” a barbárie que lhe abatera partiu de homens, alguns deles fanáticos por futebol ou pelo Flamengo, mas muitos vieram também de outras mulheres, o que mostra que a dominação masculina é eficaz também por fazer, de muitas mulheres, machistas de plantão e inimigas de si mesmas. Depois de demorada e criteriosa investigação acerca do desaparecimento de Eliza, as polícias de Minas Gerais e do Rio concluíram que ela fora assassinada cruel e covardemente e divulgaram detalhes sórdidos e estarrecedores: a moça frágil teria apanhado ao ponto de pedir clemência aos seus algozes e, depois, estrangulada sob o olhar impassível de Bruno, goleiro do Flamengo, que, segundo a polícia, não só é o mentor deste crime hediondo como, após a conclusão do mesmo, sentou-se para beber cerveja e para falar de futebol. Estes detalhes me levaram às lágrimas e me tiraram o sono (Queria eu ser um super-homem para mudar o curso da história e salvar Eliza das mãos dos criminosos!), mas, a outros homens e mulheres, a divulgação dos detalhes sórdidos só serviu de estímulo para que continuassem a difamar a vítima na esperança de proteger não só um ídolo do futebol (e pensar que, na Escola do Flamengo, os futuros atletas idolatravam este tal de Bruno me dá arrepios!), mas, sobretudo, proteger o direito do macho sobre o corpo da mulher; sobre sua vida e sua morte. Indícios desta cumplicidade apareceram no fato divulgado pela imprensa de que os policiais e carcereiros da delegacia onde Bruno fora presa passaram a noite conversando amigavelmente com o acusado sobre futebol e viagens. Onde já se viu uma coisas destas? Será que esses policiais também concordam que “Maria Chuteira” que engravida de jogador rico e, depois, cobra-lhe uma pensão merece apanhar até morrer e, por fim, ser desossada e atirada aos cães? Será que eles disseram isto para o goleiro? Daí para Bruno ser inocentado é um pulo! O assassinato de Eliza Samudio – principalmente por ser, o acusado de ter planejado este crime, rico e famoso porque capitão de um time de futebol popular – traz à luz, de alguma maneira, as violências semelhantes a que são submetidas outras mulheres, e que, embora sabidas, não se tornam públicas. Mulheres que, como ela, eram cheias das esperanças e ilusões que povoam a alma, qualquer alma. Toda mulher é meio Eliza Samudio! Como homem solidário às mulheres (até porque tenho uma mãe, duas irmãs e muitas amigas que eu amo), eu espero pelo dia em que a notícia do assassinato brutal de uma mulher não sirva para que machistas e misóginos esmiúcem os detalhes de sua vida íntima com o intuito de desqualificá-la e, assim, “justificar” sua morte, mas, sim, que sirva de libelo contra a covardia da besta humana que praticou e/ou idealizou o crime.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Pichação que é um ataque

Quem acompanha o Sai na Urina sabe que recentemente enviei uma reportagem para o Jornal O Globo com a foto de uma pichação de um muro aqui perto de casa. A pichação foi realizada por fundamentalistas religiosos com o objetivo de demonizar as pessoas que realizam oferendas e/ou acendem velas para seus santos, seus deuses e/ou seus orixás. E não é que publicaram a matéria!? Sim, publicada no Caderno Baixada, do dia 14.08.2010:

Pois então estou compartilhando com vocês mais uma participação minha na sessão Eu-Repórter, do Jornal o Globo. A tempo, se você leu a matéria anterior aqui no Sai na Urina, faça a linha blasé e ignore meu erro de ortografia quando escrevi "pixação" (com 'x') em vez de "pichação" (com 'ch'). Ninguém é perfeito, não é? Mancada de vez em quando faz bem. E não vou alterar a ortografia, não. Foi por uma boa causa. Deixa lá estar como está; é história!

Enfim, estou compartilhando com você o exercício da minha cidadania - ou xisdadania - que pegou carona no erro ortográfico para corrigir os erros morais do fundamentalismo religioso. A resposta da Prefeitura já era esperada: passou a bola para o Governo do Estado. Mas poluição visual não seria problema da prefeitura!? Ou não é esse o motivo que faz com que os estabelecimentos tenham padrões em suas placas, tal como outdoors e outros cartazes? Ou ainda, acaso tivesse no local a presença de uma autoridade municipal - como um guarda da prefeitura - atitudes de vandalismo como esta não poderiam ser evitadas!?

Como sempre, a prefeitura age com inércia. Literal ou metaforicamente, aquele terreno não era de responsabilidade dessa Casa. O problema é sempre do outro, não é? É por essas e outras que Duque de Caxias está a porcaria que está; a cidade não passa de um latão de lixo gigante que, de reforma em reforma, muda apenas as cores da lata. O que realmente permanece é a essência do chorume.

Vejam a reportagem publicada e a resposta oficial da prefeitura:


Se você for assinante do Jornal O Globo, veja a matéria diretamente no site clicando aqui.

sábado, 7 de agosto de 2010

Vandalismo e Intolerância em nome de Deus

Há tempos que penso em fotografar esta imagem e mandar para a imprensa! Hoje decidi enviar para a coluna Eu-Repórter, do Jornal O Globo... e sinceramente espero que publiquem. Trata-se de um muro pixado nas imediações da Avenida Presidente Kennedy, em Duque de Caxias, precisamente na passarela que dá acesso ao cemitério do Corte-Oito. Observem com atenção:


A presente pixação é um exemplo claro tanto da falta de limites dos evangélicos fundamentalistas quanto da inércia da prefeitura em zelar pelo patrimônio público!

O pixador ignora completamente que estamos em um país democrático e insinua que as possíveis velas colocadas naquele local por pessoas de religiões afro-brasileiras são destinadas ao diabo. É o descaramento da intolerância religiosa neste país, uma vergonha para a democracia brasileira, e o cúmulo da falta de respeito com a religião alheia!

Mas se o pixador fez uma pergunta, no mínimo ele aguarda uma resposta; e eu responderei: as velas se destinam a algum ser no plano espiritual que possa trazer luz ao espírito de porco que suja a cidade, e à prefeitura que ignora a imundície e o preconceito, deixando os seus cidadãos de bem à mercê da poluição visual, da discriminação e do desrespeito com a cidade e com a liberdade religiosa de seus moradores.

Não obstante, gostaria de provocar terminando esta postagem com uma contra-pergunta direcionada ao autor da 'obra-prima' do muro do Corte-Oito:

"Se seu Deus foi aquele que se fez homem e enquanto homem viveu como pobre, em quem se inspiram seus pastores e bispos ao lotarem os cofres de suas igrejas?"

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Sim, Jean Wyllys para Deputado Federal!

Não é a primeira vez que o Sai na Urina publica postagens relativas a política e a políticos. De Zito a Babu, os políticos anunciados eram sempre alvo de críticas e oposição.

Desta vez farei diferente. Minha menção à política - aqui partidariamente falando - é de apoio ao candidato Jean Wyllys, que está estreando neste meio através do PSOL, partido que tive a honra de colaborar para que nascesse.

Não sou favorável a proselitismo partidário, mas quando o que está em jogo são destinos de uma nação, é preciso que deixemos de lado nossa ingenuidade. E quando eu digo nação, não me refiro à projeção ufanista do Estado Brasileiro, mas à nação, ou às nações, que existe(m) dentro deste país... É preciso estarmos cientes de que a nossa tão amada NAÇÃO BRASILEIRA é formada de muitas outras nações, que infelizmente não são reconhecidas em seus direitos, a não ser pelo reconhecimento das obrigações tributárias, que é quando todos os cidadãos se tornam números de CPF, identificados pela quantia que devem entregar anualmente à boca do Leão.

Meu voto neste ano é para Jean Wyllys. Que tal apostar nesta ideia?
Conheça melhor este candidato através do site:
www.jeanwyllys5005.com.br
Valeu pela força!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pare de Reclamar!

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Minha amiga Fátima me mandou por e-mail e eu não resisti! Tive que divulgar no SAI NA URINA. Portanto, dedico esta postagem a todos aqueles que, sem ter o que fazer, resolvem atormentar a vida dos outros com a chatice de um ego ressentido e vitimizado. Espero que gostem! E se não gostarem, o azar é de vocês; vou fazer uma lista com os nomes dos que não gostarem e encaminharei ao 'Djalmão'!




Tá vendo? Conforme a gente vai conhecendo os problemas dos outros, percebemos que o nosso nem é assim, um problemãããão...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sem Pecado entre o Leblon e o Vidigal

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Ele fica na expectativa da data esperada. À tarde, sai mais cedo do trabalho e planeja comprar o presente que possa agradar a quem lhe quer bem. Sai às ruas e às compras e em meio à indecisão que é só sua, escolhe o agrado para felicitar sua caríssima-metade.

Vai pra casa, e como sempre se distrai em meio à liberdade que sua casa lhe confere. Brinca com o cão, que é seu filho, descansa e dorme. Quando acorda, faz uma leve refeição e se prepara para sair. No banheiro, antes do banho, faz os preparativos do limite da barba e de todas as demais regiões que apenas os mais instruídos sabem identificar a respectiva necessidade. Se banha e perfuma. Extrai os pelos que sobrepujam em seu corpo, porque assim bem lhe agrada.

Apressado, atrasado, sai de casa e abastece o carro e esquece o vinho. Na estrada, sente o estresse do trânsito e do tempo que em cada minuto se torna mais curto. O celular toca e ele atende. Justifica. Depois de quinze minutos, o celular é tocado, mas no outro extremo da linha. Explica. Segue. Desorienta-se depois do Rebouças.

Na marca de outros quinze minutos de tolerância ele chega. Telefona e espera. Abre a porta do carro e recebe uma mochila e uma sacola laranja. Neste momento, percebe que deveria ter levado o presente que comprara à tarde, mas este teria ainda que esperar dois dias para receber seu devido destino.

Dali partem para um restaurante. Conversam, conversam, conversam. Erram o caminho. Vão e voltam, dão um giro pela cidade e se reencontram no caminho de volta e chegam. No carro, ele recebe de presente a sacola e descobre que o presente era o resultado de um desejo manifesto em um desses passeios a Petrópolis em algum feriado religioso. Ali se beijam.

No restaurante, numa famosa rua das Laranjeiras, gozam das delícias da culinária japonesa, com um certo medo de parecerem alheios ao lugar. Percebem que o cupom do desconto era quase desnecessário, e arcam com a despesa sem o abatimento de dois reais da promoção do estabelecimento.

Fartos e satisfeitos, rumam à Avenida Niemeyer, e descobrem que o Vidigal é parte do Leblon e vice-versa. E que, embora separados pela denominação de bairros diferentes que possuem, são dois lados extremamente opostos da mesma moeda. E assim, depois de racionalizarem as diferenças sociais de um lugar e de outro, entram onde não existe pecado.

Lá, banham-se, escaldados por jatos de água quente que apimentam aquilo que o perfume da sacola laranja já prenunciara. O chuveiro quente logo se conflita com a cerveja gelada com a qual decidem brindar a data que para ambos é tão significativa.

Ao chegarem ao altar do desejo, deliciam-se com os filmes que não cabem em seu universo, senão para se rirem das cenas que para eles são tão obtusas. A hora avança e eles percebem que não há mais nada o que perceber, e decidem não mais adiar o que ambos os corpos desejavam. E se amam compulsivamente.

A madrugada cai sobre seus olhos e eles não percebem o dia que invade aquele lugar sem pecado com cheiro de chuva. O frio pede o calor do vapor d'água e então ambos resolvem desfrutar e relaxar na quente saleta apropriada para tal. E então um maldito telefone toca pra dizer que o tempo acabou.

Dali partem para o mirante e fotografam a paisagem como registro do dia que marcou para ambos os dois anos de sua história.

E a vida seguiu ao longo do dia, como se a manhã do Vidigal ou do Leblon não tivesse acontecido, como se aquele dia - sendo o mais atípico dos dias - brincasse de ser fantasia e eternizasse a noite anterior nas lembranças dos arquivos secretos guardados na memória e no coração.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Deus e o diabo na terra dos candangos

Deus e o diabo na terra dos candangos:
O debate sobre o Estatuto das Famílias na CCJ da Câmara Federal
Por: Ricardo Pinheiro




Um debate bastante polarizado dominou o clima da audiência pública sobre o Estatuto das Famílias na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) na quarta-feira passada, 12/05/2010, em Brasília, reconhecida pela cultura local como a terra dos Candangos. O Estatuto engloba diversos projetos de lei (PL 674/07 e 2285/07, entre outros) e, em alguns deles, existe a regulamentação da união entre pessoas do mesmo sexo e da adoção feita por esses casais.


Críticos e defensores da união civil de homossexuais colocaram seus argumentos diante do plenário lotado, onde evangélicos contrários à união de pessoas do mesmo sexo estavam em maioria.


Para tentar chegar a um acordo, o presidente da CCJ e relator do Estatuto das Famílias, deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), disse que diante de tantas diferenças e dúvidas, vai tentar encontrar um meio termo. Hã? “Meio termo”? Não me peçam pra imaginar o que poderá sair desse estatuto franksteinizado...


Para o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Toni Reis, não se trata de casamento, mas sim de garantir direitos civis. "Envolve essa questão da herança, de planos de saúde, de adoção. Nós queremos nem menos nem mais, queremos direitos iguais. Nós não queremos é o casamento, nesse momento não é a nossa pretensão. O que nós queremos são os direitos civis".


Toni Reis citou declarações das organizações das Nações Unidas (ONU) e dos Estados Americanos (OEA) para defender o direito ao reconhecimento da união civil e da adoção entre pessoas do mesmo sexo. Ele destacou que o Governo Lula também apoia a reivindicação e mencionou o programa Brasil sem Homofobia, coordenado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. "O Brasil é um Estado laico e queremos o que a Constituição preconiza, direitos civis", argumentou.


O pastor da Assembleia de Deus, Silas Malafaia questionou se outros comportamentos poderiam, futuramente, virar lei. "Então vamos liberar relações com cachorro, vamos liberar com cadáveres, isso também não é um comportamento?" O pastor foi muito aplaudido durante sua exposição. Malafaia afirmou que conceder os diretos civis é a porta para depois aprovarem o casamento. Ele defendeu que a família é o homem, a mulher e a prole, sendo que a própria Constituição defende esse desenho familiar.


Na mesma linha crítica, o pastor da Igreja Assembleia de Deus, Abner Ferreira afirmou que o Estatuto das Famílias seria, na verdade, o Estatuto da Desconstrução da Família. Segundo ele, ao admitir a união de pessoas do mesmo sexo, a proposta pretende destruir o padrão da família natural, em vez de protegê-la. Ele disse que todas as outras formas de família são incompletas e que toda manobra contrária à família natural deve ser rejeitada.


A vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, Maria Berenice Dias, afirmou que o fato de a Constituição proteger a união entre homem e mulher não significa que uniões homoafetivas também não possam ter direitos na esfera civil.


Ela avaliou que o debate foi para a esfera ideológica. "Estou sentindo nesse espaço um clima de muito medo, de muito revanchismo, pouco técnico, pouco científico, pouco preparado”, observou. “As pessoas estão se deixando dominar por posições religiosas muito ferrenhas, e confesso que não sei porque têm medo que simplesmente se assegure direitos aos homossexuais, se assegure a crianças terem um lar", acrescentou.


Maria Berenice Dias citou decisão recente do Superior Tribunal de Justiça, que reconheceu a adoção feita por duas mulheres, e afirmou que a união homoafetiva não ameaça a família. "Argentina, Uruguai, México e Canadá são alguns dos países que reconhecem essas uniões. Quem conhece esses lugares sabe que, por lá, a família vai muito bem, obrigada", disse.


No sítio da Câmara Federal [Agência Câmara de Notícias] do dia 12 de maio de 2010 é possível ver como o assunto mexe com os ânimos da fé de muitos – isso mesmo, a coisa está sendo reduzida à esfera religiosa! -, pois os comentários postados pelos internautas reproduzem o quantitativo de opiniões sob a mesma vertente ideológica. Os mais recentes comentários diziam, entre outras coisas:


“Uma coisa é respeitar o homossexual e não ter preconceitos quanto à sua opção sexual, assim como fazemos com os fumantes no tocante à opção de fumar, ninguém deve discriminá-los. Outra coisa é dizer que o fumo faz bem à saúde. Respeitar as opções não quer dizer que todas as opções sejam iguais. A opção de não fumar é melhor que a de fumar e a opção heterossexual é melhor que a homossexual”, assina Bruno.


“Definitivamente essa proposta de regulamentar a união de homossexuais é uma desonra aos preceitos da palavra de Deus para o homem e a mulher pois contraria e se opõe à santidade do nosso Deus”, assina Robervanda.


Um tal de Vanderlei foi mais tirânico, pois disse: “Vivemos na democracia. Em outras palavras, a maioria do povo governa ou decide como deve ser o governo. As minorias devem acatar o que a maioria determinar. Este é o princípio básico da democracia. Existem países que não existe a democracia. Será que lá é melhor?”.


Daí, pergunto: vivemos num país ideal no qual as pessoas são respeitadas por aquilo que são ou vivemos num país do “ainda-não” em que se é necessário lutar com as armas da cidadania plena para o respeito à dignidade da pessoa humana? Sim, pois é preciso avisar aos desavisados que homossexualidade não é “opção”, ou seja, não é escolha de ninguém em sã consciência psíquica sofrer diante de um padrão heterossexista, o ter que passar por esse achincalhe ou, para os que se curvam ao letrismo dos dogmas de natureza moral e tirânica, o padecer pela escravidão ao medo da danação eterna!


Os debates, obviamente, ainda não levaram a muitos passos dado o abismo entre as posições suscitadas. De qualquer forma, ficam aqui as implicações sobre o cenário dos fatos que se discute em nosso Parlamento. Vale a pena ficar calado e permitir que a omissão seja a chave para abrir as portas do retrocesso no campo das relações sociais e jurídicas existentes? Ou será que alguém duvida das manobras articuladas pelos segmentos fundamentalistas religiosos junto aos seus pares eleitos graças aos seus “e$forço$” eleitoreiros?


Na semana passada assistimos chocados ao acinte da malta dos perversos transfigurados em defensores da família [a família na obsolescência do entendimento deles!], comparando comportamentos qualificados como doenças ou distúrbios psíquicos pela OMS e as orientações sexuais. Sim, a disseminação do mal foi tão acintosa e certa de impunidade que ousou verborragiar a estupidez sem máscara alguma: gays e pedófilos, gays e necrófilos, gays e zoófilos foram assemelhados na cara dura diante de uma Comissão de Constituição e Justiça! A arrogância de um deles, aplaudida pela maioria ortodoxa religiosa ali presente, foi tanta que deu seu recado às lideranças partidárias, trazendo o debate para o contexto político das eleições presidenciais:



"Eu ouvi os homossexuais fazerem aqui pronunciamentos dizendo que o presidente os indicou para a ONU, que o presidente os apoia totalmente, então nós evangélicos, que representamos 25% da população, temos que pensar muito bem em quem vamos votar para presidente da República", avisou do alto de sua insolência o suposto porta-voz de ¼ do eleitorado nacional.


Que ninguém me entenda mal, tenho lá minhas convicções de ordem religiosa, as quais me inspiram à coexistência pacífica com todos os meus confrades [de todos os credos ou não], mas justamente porque amo os princípios pacificadores que são a essência da Igreja [aqui entendida não como termo com referência a qualquer institucionalização, mas apenas como categoria dos que são "chamados para fora" [1] do arbítrio dos deuses “Poder” e “Glória”], é que não engulo os ideais ensimesmados e absolutistas da "igreja evangélica". Sim, não engulo porque não reconheço nela – nem de longe, nem como sombra ou sereno – as marcas amorosas e portanto revolucionárias daquele que se diz o seu “inspirador”, conforme leio nos Evangelhos. Creio que somente quando o que está aí passar por uma desconstrução é que a Igreja terá chance de renascer no Brasil.


Entretanto, à vista daquilo a que todos assistimos na CCJ da Câmara, cabe-me a retórica da pergunta inspirada numa das letras do saudoso profeta cantador Renato Russo: "Que país é este?". Que país é este que nega direitos aos seus cidadãos, que faz do mais nobre Palácio das Leis neste solo um palco para “panem et circenses”, conforme nos inspiram os versos das Sátiras de Juvenal? Que país é este que transforma um debate sério num solilóquio moral-religioso desses “diabólós” [2] que fazem da fé uma bandeira política?


É pra se pensar, prezados cidadãos de bem e consortes amantes da democracia. Porque parado nem mesmo os modelos tradicionais de família em sociedade não ficam mais! Não me lembro neste instante, mas acho que o nome que se dá a isso é evolução natural das coisas. É, deve ser isso. Evolução natural. Na próxima audiência pública, não poderemos esquecer de levar isso para os “diabos-acusadores” quando emergirem lá no centro da terra dos Candangos.



Por ora, à lei e ao amor! Xô, Satanases [3]!


___________________________

(*) Texto adaptado da reportagem de Daniele Lessa no sítio da Câmara Federal, “Religiosos, juristas e ongs divergem sobre união civil gay”, de 12/05/2010.

[1] Do original grego "ekklésia", ou seja, os "chamados para fora".

[2] Do original grego, “acusador” ou “acusadores”, "opositor", "o que lança através ou por intermédio de". Diabo.

[3] Do original grego, Satan, ou seja, "adversário".

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Viado virou vírgula!

Na última quinta-feira eu estava caminhando perto de casa, rumo ao trabalho. Perto de onde moro, costumam os rapazes jogar partidas de futebol nos campos improvisados que são as ruas caxienses. Neste dia eu precisei atravessar um desses campos e me chamou a atenção quando um dos guris exclamou: "Para a bola, viado! O moço tá passando". Que 'viado' fosse troféu usado nas partidas de futebol para se xingar o juiz, o zagueiro ou o goleiro, não é novidade. Mas esse novo 'viado' soou diferente. Ou, antes, se 'viado' viesse depois de 'moço', estaria no plano da lógica entender que a bola da vez seria o maldito do pedestre que atravessou a partida, seja porque eles querem xingar a esmo o chato que atrapalhou a pelada, seja porque eles de fato acreditam que o filho da puta que adentrou o jogo de futebol é, de fato, 'viado'; neste caso: eu.

Mas os rapazes utilizaram 'viado' como quem diz, 'parceiro', 'companheiro', 'rapaz'. Dizer 'Para a bola, viado!', naquele contexto, era o mesmo que: 'Para a bola, rapaz!', 'Para a bola, parceiro' ou uma série de desígnios que poderíamos ainda, se quiséssemos, enumerar: 'sangue', 'fera', 'brother' etc.

Isso é bastante significante se considerarmos a história da homofobia no nosso país. Trata-se de uma mudança de paradigma e uma evolução da semântica do termo 'viado'. Parece que o tempo se encarregou de transformar o que era negativo em positivo. O tom pejorativo, de segunda classe, de subcategoria, de gente inferior, foi ressignificado nas partidas de pelada no alvorecer do século XXI, nas ruas de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, região relativamente pobre do Brasil. E não me consta que algum daqueles moleques que se divertiam fosse homossexual, ou aparentasse sê-lo (também como haveria de me constar? Acaso a aparência ou a atividade esportiva de uma pessoa pode designar a sua orientação sexual?).

O fato é que hoje em dia 'viado' virou vírgula na boca dos heterossexuais. Amigos, colegas de bar, parceiros de chopp e de peladas, todos não poupam esforços ao se referirem uns aos outros como 'viado', atribuindo um sentido positivo à palavra. A tempo, saliento que, quando digo sentido 'positivo' não estou querendo dizer que ser homossexual é per se algo negativo mas, antes, que a intenção do comunicante ao proferir o termo não é jocosa, de escárnio ou de humilhação. Não é, portanto, negativa. E hoje esse sentido positivo de 'viado' merece ser levado em conta. Não, não estou me enganando quanto à atribuição de negatividade à palavra nos dias de hoje. Sei que ainda assistimos, em contextos variados, garotos sendo chamados de 'viado', sem que haja intenção de elogiar ou estabelecer relação de parceria: a ideia é ferir, mesmo. A escola, a igreja e a família ainda tem o estigma do animal chifrudo e saltitante, aquele bichinho que virou sinônimo de ser inferior.

Por outro lado, se hoje se vê e ouve 'viado' por todos os lados, positivamente, o mesmo não se pode dizer da palavra 'bicha', por exemplo. À exceção das relações que se estabelecem entre a população LGBT ou entre esta e uma raríssima casta de heterossexuais não-homofóbicos, a palavra 'bicha' ainda não alcançou, em nenhum tipo de relação informal, a merecida ressignificação. Se existe uma explicação para o tal feito? Logicamente há. Se porventura você não percebeu, o 'viado' é masculino; a 'bicha' é feminina. A questão de gênero perpassa os debates em torno da diversidade sexual. Não é mero acaso. Está para nascer o dia em que o feminino seja usado pelos heterossexuais em partida de futebol como elogio, como sinônimo de amizade, de coleguismo.

Fenômeno semelhante se observa ao se xingar um indivíduo quando a ira acomete aquele que profere o xingamento, inclusive, quando o alvo do xingamento é um juiz de futebol e o ofensor é um torcedor. Não são poucas as vezes em que já ouvi em jogos, torneios, copas do mundo, amigos irados xingando o árbitro de 'filha da puta'. Observem: 'filha', no feminino. Podem alguns gramáticos explicarem o fenômeno como simples erro de concordância nominal; ou linguistas dizerem que é mais fácil 'filha' concordar com 'puta', do que 'filho', no masculino. Eu, porém, que não sou nem gramático nem linguista, procuro pautar minha explicação na minha área de formação, que é a História. E ela me mostra, através das experiências ocorridas no passado, que o presente é resultado desse pretérito preconceituoso que construímos, que a homofobia tem raízes na formação desta sociedade patriarcal, que o sexismo vem sendo construído através dos paradigmas da heteronormatividade e do machismo, e que muitas barreiras foram colocadas abaixo justamente porque a 'sociedade do presente' questionou as bases da 'sociedade do passado'.

E é com esperança na História que espero, um dia, passar no meio de uma partida de futebol e ser chamado de 'bicha', sem que haja nesta palavra o sentido negativo e humilhador que possui hoje, um sentido perverso e homofóbico, um título vexatório imputado forçosamente a muitos LGBTs (e também a não-LGBTs), título este ostentado nas marcas roxas dos olhos constrangidos de muitos homossexuais, privados publicamente do direito de ser quem verdadeiramente são.

terça-feira, 30 de março de 2010

Nem tudo que é Dourado reluz: uma reflexão sobre a final do BBB10

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias

Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht

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Deixei para escrever este texto às vésperas da última eliminação do Big Brother Brasil 10, não por mero acaso. Daqui a algumas horas teremos o resultado do vencedor do reality show, e a vitória de Marcelo Dourado no jogo é, praticamente, inevitável. E não estou sendo pessimista. É com pesar que escrevo este texto, e não deixo para escrevê-lo amanhã para que a certeza do que falo seja evidenciada quando o resultado do programa, daqui a algumas horas, anunciar o vencedor.

Particularmente não sou acompanhante assíduo do Big Brother, cujos personagens tomei ciência há pouco. Mas é possível identificar no jogo algumas semelhanças e paralelos com outras edições anteriores. Entre as semelhanças, a que mais me chama atenção é uma característica específica: que o vencedor do programa, via de regra, seja uma vítima! Uma vítima forjada nas ilhas de edição, diga-se, mas ainda assim uma vítima. Alguém que merece ser, de alguma forma, recompensado, de maneira que a justiça seja feita, pelas próprias mãos (dos expectadores). Lembro-me de algumas poucas edições e em todas elas a vítima surge: no primeiro Big Brother, o participante Kléber-Bambam foi recompensado por sua ingenuidade, sua característica principal Um ar um tanto pueril que faria jus aos mais clássicos textos de Rousseau. Na segunda edição, o caubói mereceu o título porque era vítima dos demais, no sentido de ser roceiro, caipira, do interior. Justiça fosse feita, e o boiadeiro recebesse o troféu merecido. A edição que contou com Dhomini, outro dos vencedores, guarda semelhanças com o atual Big Brother, e veremos depois por quê. Seu estilo cafajeste cativou os milhares de brasileiros que lhe recompensaram por ser uma pessoa boa, apesar de seu instinto mulherengo. Ganhou o “apesar”. O mesmo se deu com a participante de Mangaratiba/RJ, a vítima da sociedade que teve a chance de ingressar no jogo devido a um sorteio, sem análise de perfil. Pobre, representava grande parte da população, principalmente da população feminina, já que a vencedora era mulher, e nenhuma outra mulher havia ganhado o prêmio milionário até então. Com Jean Willys a história se repete, e o professor homossexual assumido precisou ser recompensado pelos dias difíceis que passou em sua vida, em sua trajetória de sucesso e superação. Jean era professor, instruído, inteligente e articulado. Seu baluarte não era sua homossexualidade; antes, sua história de vida, de sucesso.

Vocês podem me perguntar por que estou dissecando as outras edições do Big Brother, por que abri o texto com o poema de Bertold Brecht, e o que toda essa história de vitimização tem a ver com a atual edição do Big Brother.O caso é que a vítima, nesta edição, e ao que tudo indica, é Marcelo Dourado. Mas vítima do quê?

Em primeiro lugar, vítima do próprio jogo. O participante saiu noutra edição do programa e agora teve mais uma chance de mostrar o seu valor, fosse ele qual fosse. Em segundo lugar, “vítima” de uma corrente de pensamento crescente a favor da diversidade e da aceitação do outro. Esta edição do programa trouxe propositadamente às telas alguns guetos sociais, em cujos perfis os participantes do jogo eram obrigados a se enquadrar. Cada identidade foi suprimida em função do rótulo de Sarado, Colorido, Belo, Ligado etc. O público que recebe este tipo de informação pré-formatada não vê outra coisa no grupo dos sarados senão pessoas saradas e as julga por isso; no grupo dos coloridos senão coloridas, e sobre suas cores tecem seu julgamento; e assim por diante. Não se enxerga para além do rótulo. E nesse país que ostenta 198 mortes de homossexuais ao ano – mortos simplesmente porque eram homossexuais - não é de se estranhar que um grupo de coloridos cause estranheza demasiada.

A princípio imaginei que a intenção da emissora fosse politicamente correta ao abordar a diversidade. Ingenuidade a minha acreditar em imparcialidade de uma emissora que censura o beijo entre dois rapazes, escrito para acontecer em uma de suas telenovelas. Uma emissora em cujas novelas os atores negros servem apenas para desempenhar o papel de bandido ou de palhaço. Se de palhaço, ou porque o é em sentido figurado, isto é, como sub-personagem, dominado, auxiliar, quase sem aparições, quase sempre o estereótipo do pobre, empregado(a), pedreiro, escravo; ou mesmo no sentido literal, isto é, personagem cuja atuação não passa de comédia digestiva, o faz-me-rir fácil, o ridículo, o raso. Não, a Rede Globo não é imparcial. A intenção da emissora, de fato, é duvidosa quanto à distribuição dos grupos no Big Brother. Mas isto é briga de cachorro grande! Voltemos ao raciocínio anterior e expliquemos o que afinal o Big Brother tem a ver com Bertold Brecht.

Pois bem, como Brecht evidencia no clássico poema reproduzido na introdução deste texto, as grandes vitórias da humanidade nunca foram, e nunca serão vitórias alcançadas na solidão do próprio ser. Ao contrário, o dramaturgo e poeta denuncia a presença dos comuns, dos menores, daqueles anônimos cujos nomes não ganham as páginas dos livros de História, e sobre eles repousa o louro das conquistas dos grandes e famosos líderes; muitos dos quais, fizeram mais destruir do que construir.

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A vitória de Marcelo Dourado do Big Brother será comparável à vitória desses grandes líderes lembrados por Bertold Brecht. E não pensem que estou elogiando o participante, elevando-o ao pódio dos maiores nomes da história ocidental, porque não estou. Minha comparação consiste em refletir menos sobre a atuação de Dourado - que ao meu ver é mais um número - que sobre a contribuição dos anônimos na vitória do seu representante. Dourado é mais um na multidão. Não posso creditar a ele os méritos de sua vitória. Se tivesse que congratular, as saudações seriam dadas aos milhões de brasileiros que resolveram fazer justiça com as próprias mãos, recompensando sua mais recente vítima do jogo de realidade. Porém, que justiça é essa, afinal? Será uma espécie de contrapartida ou resposta em relação à vitória não muito bem tragada do homossexual Jean Willys, há algumas edições passadas? Ou será que os brasileiros resolveram presentear o participante ora eliminado, dando a ele a oportunidade (e a garantia) de permanecer no jogo? Meu palpite é que ambas as alternativas fazem sentido, porém um outro dado vem reforçar ainda mais a minha hipótese: Marcelo Dourado é porta-voz dos milhões de brasileiros cúmplices dos 198 assassinatos de homossexuais registrados em 2009. São esses milhões de brasileiros os que realmente saem do jogo como vencedores, e projetam em seu anti-herói a oportunidade de trazer a sociedade brasileira à “retidão”, ao “caminho correto”, ao “prumo”. Nossa sociedade é patriarcal e sexista, homofóbica e machista, heteronormativa e racista. Estas características estão implícitas em nossa estrutura. E, porque estão em nossa estrutura, não desaparecem num piscar de olhos, sobretudo quando os olhos não se piscam diante da televisão. Nosso preconceito estava adormecido, quieto e manso, mas ao simples anúncio de ruído – que era a presença ameaçadora dos coloridos – ele acorda, e aí faz-se necessário provar que o leão adormecido ainda vive, que o cajado do pai-de-família ainda machuca, e que lugar de bicha é embaixo da terra. Esta, a terra, não pode ser ameaçada em sua eternidade pelo mal que vem em cores. Explica-se, a partir da lógica acima, o medo e a aversão pela diferença, pelo amor entre iguais, pelos coloridos, pela força das mulheres. É isto o que se chama HOMOFOBIA, que em sua raiz é alimentada pela misoginia (isto é, o horror ao que é feminino).

Ao contrário do que muitos pensam, a homofobia não aparece apenas nos casos de violência física e morte, como evidenciaram os 198 assassinados em 2009. Na grande maioria das vezes, ela se firma nas atitudes despretensiosas e cotidianas, porque ela passa a ser legítima, justificada, de direito. O problema é que a legitimidade, a justiça e o direito não são isonômicos, nem bilaterais, nem equânimes. E seria um enorme equívoco trazer Brecht ao texto apenas para retratar Marcelo Dourado, quando se pode fazer mais que isso. Brecht mostrava a relação entre líderes e liderados, criticando – nas entrelinhas – o líder de sua época, Adolf Hitler, bem como os milhares de alemães que o apoiaram. O poema de Brecht não é conformista. Em outras palavras, o que se espera com ele não é que entoemos cânticos porque o povo brasileiro conseguiu eleger seu totem ao posto de “Grande Irmão”, mas antes, inspirar outros muitos brasileiros que lutam contra o que este “Grande Irmão” representa, outros muitos que brigam por justiça de fato, por direitos iguais, por isonomia, pelo direito à vida e à liberdade, pela cidadania plena, geral e irrestrita.

Marcelo Dourado poderá ostentar o título de “Big Brother”. Que seja o big brother vencedor; todavia, não meu. Não posso chamar de “brothers” pessoas com as quais não possuo o mínimo de afinidade, empatia, sintonia. Dourado de fato não é meu irmão; Não compartilho de suas ideias, discordo de seu modo de ver o mundo e as pessoas, repudio os símbolos nazistas tatuados em seu braço, disfarçados pela origem oriental na Antiguidade. Acho que ninguém nascido depois da década de 1930 tenha legitimidade para ostentar a suástica, por mais que sua origem seja bem longe e bem anterior aos campos de concentração da Alemanha. Isto é, para mim, no mínimo, falta de ética. Não tenho motivos para acreditar que ele seja, de fato, um “Grande Irmão”. Aqueles a quem tenho por irmãos sabem que é feio e covarde bater em mulheres; que respeito é discordar sem apontar e julgar; que AIDS não dá em poste, mas em seres humanos: homossexuais, bissexuais e heterossexuais. Meus brothers não são agentes da ignorância, mas pivôs do respeito, do conhecimento e do amor ao próximo. Por fim, Marcelo Dourado, mesmo ganhando o reality show da Rede Globo, não pode ser meu irmão; não bebemos da mesma fonte, não temos os mesmos gostos, nem os mesmos hábitos e nem a mesma educação, não descansamos sobre a mesma consciência e não sentamos juntos na mesma mesa. Até mesmo porque, cá entre nós, não suporto arrotos durante as refeições; a minha alma respira elegância, e o meu espírito, definitivamente, não é o de porco.