segunda-feira, 8 de março de 2010

Ser-Mulher: o pão e o vinho de Deus

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"E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado em favor de vós." (Lucas 22:19-20)
Um grão caído na terra começa a germinar e é observado em seu crescimento por algumas mulheres que estão coletando na área: aí temos, provavelmente, a base da transformação [...] O homem não é o principal produtor. [...] O homem mantinha sua importância pelo significado que a carne tinha, pela sua relativa raridade até. [Porém] nas sociedades agrícolas, a mulher era quem semeava, colhia e preparava os alimentos, ficando os homens fora da produção direta. (Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/revolucaoneolitica.htm)

Não poderia abrir o mês de março senão por meio do assunto que mais enaltece esta época do ano: as mulheres! Elas que, contempladas com um dia em sua homenagem, luzem para o restante do mês sua energia, força, garra e gana.

O 8 de março é um dia de homenagem, sim, momento de parabenizar, congratular e mandar aquelas mensagenzinhas e correntes de e-mail, orkut etc. Mas o que me proponho no SAI NA URINA é mais que isso; é refletir sobre o significado do ser-mulher hoje, a partir dos referenciais que transformaram um simples dia do ano num marco referencial da luta dos direitos delas, as nossas musas.

Em primeiro lugar, eu não sou a pessoa mais apropriada para falar do significado do ser-mulher, posto que não sou uma delas. Porém, apesar do meu lugar de não-conforto, o que pretendo é refletir sobre o gênero feminino, o significado de se sentir mulher na nossa sociedade; é, portanto, uma reflexão a partir de um viés coletivo, e não individual.

E por que refletir coletivamente sobre gênero? Esta tarefa faz sentido porque, especificamente hoje, penso que não cabe o limite das flores, do rosa, das mensagens de congratulação. Hoje, refletir sobre o gênero feminino é trazer à memória toda uma história esquecida, uma história de vitória, uma história perdida nos caminhos da História. O senso comum costuma relegar o passado remoto feminino ao subjugo das mulheres ao papel masculino. Contudo, as mulheres foram protagonistas de uma das maiores revoluções da história humana: a revolução neolítica. Nesta época, eram elas as responsáveis diretas pela alimentação, pela seleção de sementes, pela domesticação dos animais, tarefas nada "femininas" por assim dizer. O uso da força muitas vezes era necessário, da força bruta mesmo! Nesta época, ou pouco antes, não existia a noção de deus-homem, mas da grande Deusa, a Grande Mãe, aquela que vem da terra, a que provê o pão - esse alimento tão precioso que, se hoje representa o corpo do Deus Criador, dAquele que se fez homem, representou outrora o produto de criação da mulher, aquela que se fez deusa.
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Sim, se hoje se come o pão, o Corpo do Filho do Homem, foi a mulher que o pariu, que o pensou, que o idealizou. Não por menos foi este o alimento escolhido pelo Deus Pai, talvez, para retificar a ideia de "Deus-Pai", e aproximá-la de "Deusa-Mãe". Ou, de outra forma, por que não escolheu o trovão, a chuva, as estrelas ou qualquer outro elemento da natureza para ser a representação do divino? Afinal não eram essas as representações do masculino, desde a "pré-história"?

Nas civilizações antigas, a figura masculina sempre foi ligada aos céus, ao passo que a feminina esteve ligada à terra (à exceção do Egito Antigo, cuja severidade do deserto, da terra, remetia ao masculino; e os céus, as bênçãos da chuva, do sereno, do orvalho, que traziam frescor, refrigério e acalanto, remetiam ao feminino). Por isso, ouso dizer que, se o pão e o vinho representam Deus, é porque Ele reconhece nesses elementos o quanto de Mulher existe no trigo e na uva, o quanto de Mulher há em Deus, ou o quanto de Deus há na Mulher! Assim, o próprio Deus enaltece essa figura emblemática, quase divina, suprema, magestática.

Contudo, a Mulher - que o próprio Deus escolheu para Lhe representar (pão e vinho, trigo e uva, agricultura, revolução neolítica), foi subjugada em nome desse próprio Deus durante séculos e séculos! Recentemente, há cerca de um século, movimentos feministas iniciaram a luta pelos direitos das mulheres. Suas manifestações por melhorias nas condições de trabalho; suas lutas pelo direito de expressão; as reivindicações de direitos sexuais; a emancipação em relação ao patriarcalismo; enfim, todas essas batalhas vem fazendo jus ao dia 8 de março, motivo desta postagem.

Minha reflexão, portanto, e como foi dito no início, não é sobre ser-mulher individualmente, mas no coletivo. Apesar de tanto se ter lutado, brigado e reivindicado, a desgraça patriarcal ainda prevalece na nossa sociedade machista, homofóbica, sexista. Se a mulher conseguiu o seu espaço, o feminino ainda permanece subjugado. Ser mulher é nobre; ser feminino é fraco. Ser mulher é nobre, mas mulherzinha ainda é ofensa; ser mulher é nobre; mas não para as travestis, que são ridicularizadas, inclusive por outras mulheres; ser mulher é nobre; se ela couber no universo feminino de passividade; ser mulher é nobre, se ela gostar de homem; ser mulher é nobre, se ela for Eva, pecadora, culpada, auxiliar, costela; ser mulher é nobre, mas ainda falta muito para que o feminino alcance a nobreza. Porque não adianta a sociedade "aceitar" o espaço da mulher nas múltiplas esferas, se nos meandros das relações humanas desta mesma sociedade, o que diz respeito ao gênero feminino ainda é visto sob o olhar de uma sub-categoria.

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E é nesse sentido que eu quis atrever-me a falar sobre o significado de ser-mulher no coletivo. Coletivamente, homens e mulheres perecem diante do sexismo; homens e mulheres são vítimas do machismo; homens e mulheres são promotores e/ou alvo de preconceitos de gênero; homens e mulheres permanecem inertes ao verem a criadora do Pão e do Vinho se tornar mais um número sem concordância na boca de milhares de foliões no carnaval do Rio de Janeiro: uma mulé, duas mulé, três mulé. Ou, em outros casos, reduzidas a cachorras, éguas e afins.

Contudo, não tenho propriedade para dizer que são erradas essas manifestações legítimas (posto que algumas vem das próprias mulheres, que dançam e cantam e vibram e...). A banalidade é também expressão da liberdade, faz parte. Mas, ao invés de condená-la, tentemos ir além dela: neste dia tão especial, que é o 8 de março, resgatemos a Mulher-Deus, tanto aquela que é pão e vinho, a agricultora, a criadora, a protagonista, a revolucionária; quanto aquela que é o próprio Deus, macho e fêmea em sua essência, Deus Pai e Deusa Mãe.

Esforcemo-nos no sentido de dar o primeiro passo para firmar o feminino no seu merecido altar de nobreza; e assim, faremos um mundo muito mais igualitário, onde homens e mulheres poderão dele gozar sob as barbas (ou os seios) de Quem livremente os criou.

2 comentários:

  1. Preciso dizer que o texto está fantástico? Parabéns Léo, pela inspiração e sensibilidade sempre presentes nessa tua alma abençoada por nosso Deus Pai-Mãe.

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  2. Léo,

    deixei um comentário, não sei se no seu e-mail, ou se na lista! Mas, faço aqui também, o texto está belíssimo, parabéns!

    Renato

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