sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O Rio

Não lembro na verdade quando compus este poema, sequer me recordo do ano. Posso apostar que deve ter sido entre os anos de 2005 e 2006 que o redigi, motivado pelos grandes contrastes sociais que vivemos neste país e concentrados, em metáfora poética, no Rio de Janeiro. Espero que você se deleite nas águas deste rio de palavras urinadas ao vento e possa refletir, através de seus contrastes, sobre as populações ribeirinhas que dele - ou à margem dele - sobrevivem.


O Rio
2005-2006


Um rio nasce no caos
Brota do caos profundo
Em suas águas, suas naus
Em suas naus, o mundo
O rio navega e vive
O rio enxerga imagens
O rio, veloz, desce livre
Rasga fundo suas margens
As naus encalham nas rochas
Interrompida a viagem
E olha, e vê cedo demais
E pára o curso das águas
A contemplar o que crê
As belezas fluviais
De um lado, na margem, um cais
E nele, homens demais
O rio observa, vê
Palácios, indústrias, dinheiro
A sede dos empresários
Mais a fome dos banqueiros
O rio encalha e vê
À margem o bel-paraíso
Ele, o rio, sem demora
Admira os animais
E toda a fauna e toda a flora
E tudo o que for preciso
O rio se livra das pedras
Consegue seguir viagem
Apreciando as gaivotas
Lembrando da paisagem
Que vira em sua rota
O rio se engrandece
Do mundo que aparece
Desce abaixo a montanha
Contente como quem ganha
Um afago de menina
O rio com suas águas
Flui nas rochas e imagina
Sua viagem, suas margens
Como as gaivotas do cais
Livres tal como eram
Nos palácios, nas indústrias, no dinheiro
Banqueiros, empresários e animais
Mas rios por vezes erram
O erro os leva a mudar
Seu rumo, seu pensamento
Seu destino, tanto faz
O rio se desespera
Quando vê os animais
No seio de sua viagem
O outro lado, a outra margem,
Outros tipos de animais
Bichos em sofrimento
Lixos em desalento
Podres e pobres demais
A margem oposta ao palácio,
Muitas vilas de madeira
Do lado oposto aos banqueiros,
Gente rude sem salário
Bem longe dos empresários,
Explorados sem dinheiro
O rio, entre seus lados
Nasce desnorteado
Ou curva-se à beleza
Do império da riqueza
Ou vira-se com pena
Da pobreza e da miséria
O rio se desmerece
O rio se descontenta
De ter deixado a nascente
Sua casa, seu refúgio
Abrigo não mais presente
O rio se entristece
Do mundo que enlouquece
O rio só sente agora
As vidas e suas sombras
As almas que chocam o rio
Ele, o rio, se assombra
O rio pensa, seu peito chora
Seu leito chama
Seu curso implora
O rio entende
O quanto é gente
De repente perde-se a esmo
O rio ria, agora chora
O rio foge de si mesmo
Sem rumo, sem rota, sem nada
O rio sofre e se entrega
Navega o rio sem sorte
Sem forças, com medo, sem meta
O rio se lança sem norte
O rio avança, o rio corre
O rio se cansa...
E morre.



Léo Rossetti

Um comentário:

Para quem sabe urinar, um pingo é letra!
Alivie o estresse e urine suas idéias no seu comentário!