sexta-feira, 16 de abril de 2010

Viado virou vírgula!

Na última quinta-feira eu estava caminhando perto de casa, rumo ao trabalho. Perto de onde moro, costumam os rapazes jogar partidas de futebol nos campos improvisados que são as ruas caxienses. Neste dia eu precisei atravessar um desses campos e me chamou a atenção quando um dos guris exclamou: "Para a bola, viado! O moço tá passando". Que 'viado' fosse troféu usado nas partidas de futebol para se xingar o juiz, o zagueiro ou o goleiro, não é novidade. Mas esse novo 'viado' soou diferente. Ou, antes, se 'viado' viesse depois de 'moço', estaria no plano da lógica entender que a bola da vez seria o maldito do pedestre que atravessou a partida, seja porque eles querem xingar a esmo o chato que atrapalhou a pelada, seja porque eles de fato acreditam que o filho da puta que adentrou o jogo de futebol é, de fato, 'viado'; neste caso: eu.

Mas os rapazes utilizaram 'viado' como quem diz, 'parceiro', 'companheiro', 'rapaz'. Dizer 'Para a bola, viado!', naquele contexto, era o mesmo que: 'Para a bola, rapaz!', 'Para a bola, parceiro' ou uma série de desígnios que poderíamos ainda, se quiséssemos, enumerar: 'sangue', 'fera', 'brother' etc.

Isso é bastante significante se considerarmos a história da homofobia no nosso país. Trata-se de uma mudança de paradigma e uma evolução da semântica do termo 'viado'. Parece que o tempo se encarregou de transformar o que era negativo em positivo. O tom pejorativo, de segunda classe, de subcategoria, de gente inferior, foi ressignificado nas partidas de pelada no alvorecer do século XXI, nas ruas de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, região relativamente pobre do Brasil. E não me consta que algum daqueles moleques que se divertiam fosse homossexual, ou aparentasse sê-lo (também como haveria de me constar? Acaso a aparência ou a atividade esportiva de uma pessoa pode designar a sua orientação sexual?).

O fato é que hoje em dia 'viado' virou vírgula na boca dos heterossexuais. Amigos, colegas de bar, parceiros de chopp e de peladas, todos não poupam esforços ao se referirem uns aos outros como 'viado', atribuindo um sentido positivo à palavra. A tempo, saliento que, quando digo sentido 'positivo' não estou querendo dizer que ser homossexual é per se algo negativo mas, antes, que a intenção do comunicante ao proferir o termo não é jocosa, de escárnio ou de humilhação. Não é, portanto, negativa. E hoje esse sentido positivo de 'viado' merece ser levado em conta. Não, não estou me enganando quanto à atribuição de negatividade à palavra nos dias de hoje. Sei que ainda assistimos, em contextos variados, garotos sendo chamados de 'viado', sem que haja intenção de elogiar ou estabelecer relação de parceria: a ideia é ferir, mesmo. A escola, a igreja e a família ainda tem o estigma do animal chifrudo e saltitante, aquele bichinho que virou sinônimo de ser inferior.

Por outro lado, se hoje se vê e ouve 'viado' por todos os lados, positivamente, o mesmo não se pode dizer da palavra 'bicha', por exemplo. À exceção das relações que se estabelecem entre a população LGBT ou entre esta e uma raríssima casta de heterossexuais não-homofóbicos, a palavra 'bicha' ainda não alcançou, em nenhum tipo de relação informal, a merecida ressignificação. Se existe uma explicação para o tal feito? Logicamente há. Se porventura você não percebeu, o 'viado' é masculino; a 'bicha' é feminina. A questão de gênero perpassa os debates em torno da diversidade sexual. Não é mero acaso. Está para nascer o dia em que o feminino seja usado pelos heterossexuais em partida de futebol como elogio, como sinônimo de amizade, de coleguismo.

Fenômeno semelhante se observa ao se xingar um indivíduo quando a ira acomete aquele que profere o xingamento, inclusive, quando o alvo do xingamento é um juiz de futebol e o ofensor é um torcedor. Não são poucas as vezes em que já ouvi em jogos, torneios, copas do mundo, amigos irados xingando o árbitro de 'filha da puta'. Observem: 'filha', no feminino. Podem alguns gramáticos explicarem o fenômeno como simples erro de concordância nominal; ou linguistas dizerem que é mais fácil 'filha' concordar com 'puta', do que 'filho', no masculino. Eu, porém, que não sou nem gramático nem linguista, procuro pautar minha explicação na minha área de formação, que é a História. E ela me mostra, através das experiências ocorridas no passado, que o presente é resultado desse pretérito preconceituoso que construímos, que a homofobia tem raízes na formação desta sociedade patriarcal, que o sexismo vem sendo construído através dos paradigmas da heteronormatividade e do machismo, e que muitas barreiras foram colocadas abaixo justamente porque a 'sociedade do presente' questionou as bases da 'sociedade do passado'.

E é com esperança na História que espero, um dia, passar no meio de uma partida de futebol e ser chamado de 'bicha', sem que haja nesta palavra o sentido negativo e humilhador que possui hoje, um sentido perverso e homofóbico, um título vexatório imputado forçosamente a muitos LGBTs (e também a não-LGBTs), título este ostentado nas marcas roxas dos olhos constrangidos de muitos homossexuais, privados publicamente do direito de ser quem verdadeiramente são.

terça-feira, 30 de março de 2010

Nem tudo que é Dourado reluz: uma reflexão sobre a final do BBB10

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias

Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht

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Deixei para escrever este texto às vésperas da última eliminação do Big Brother Brasil 10, não por mero acaso. Daqui a algumas horas teremos o resultado do vencedor do reality show, e a vitória de Marcelo Dourado no jogo é, praticamente, inevitável. E não estou sendo pessimista. É com pesar que escrevo este texto, e não deixo para escrevê-lo amanhã para que a certeza do que falo seja evidenciada quando o resultado do programa, daqui a algumas horas, anunciar o vencedor.

Particularmente não sou acompanhante assíduo do Big Brother, cujos personagens tomei ciência há pouco. Mas é possível identificar no jogo algumas semelhanças e paralelos com outras edições anteriores. Entre as semelhanças, a que mais me chama atenção é uma característica específica: que o vencedor do programa, via de regra, seja uma vítima! Uma vítima forjada nas ilhas de edição, diga-se, mas ainda assim uma vítima. Alguém que merece ser, de alguma forma, recompensado, de maneira que a justiça seja feita, pelas próprias mãos (dos expectadores). Lembro-me de algumas poucas edições e em todas elas a vítima surge: no primeiro Big Brother, o participante Kléber-Bambam foi recompensado por sua ingenuidade, sua característica principal Um ar um tanto pueril que faria jus aos mais clássicos textos de Rousseau. Na segunda edição, o caubói mereceu o título porque era vítima dos demais, no sentido de ser roceiro, caipira, do interior. Justiça fosse feita, e o boiadeiro recebesse o troféu merecido. A edição que contou com Dhomini, outro dos vencedores, guarda semelhanças com o atual Big Brother, e veremos depois por quê. Seu estilo cafajeste cativou os milhares de brasileiros que lhe recompensaram por ser uma pessoa boa, apesar de seu instinto mulherengo. Ganhou o “apesar”. O mesmo se deu com a participante de Mangaratiba/RJ, a vítima da sociedade que teve a chance de ingressar no jogo devido a um sorteio, sem análise de perfil. Pobre, representava grande parte da população, principalmente da população feminina, já que a vencedora era mulher, e nenhuma outra mulher havia ganhado o prêmio milionário até então. Com Jean Willys a história se repete, e o professor homossexual assumido precisou ser recompensado pelos dias difíceis que passou em sua vida, em sua trajetória de sucesso e superação. Jean era professor, instruído, inteligente e articulado. Seu baluarte não era sua homossexualidade; antes, sua história de vida, de sucesso.

Vocês podem me perguntar por que estou dissecando as outras edições do Big Brother, por que abri o texto com o poema de Bertold Brecht, e o que toda essa história de vitimização tem a ver com a atual edição do Big Brother.O caso é que a vítima, nesta edição, e ao que tudo indica, é Marcelo Dourado. Mas vítima do quê?

Em primeiro lugar, vítima do próprio jogo. O participante saiu noutra edição do programa e agora teve mais uma chance de mostrar o seu valor, fosse ele qual fosse. Em segundo lugar, “vítima” de uma corrente de pensamento crescente a favor da diversidade e da aceitação do outro. Esta edição do programa trouxe propositadamente às telas alguns guetos sociais, em cujos perfis os participantes do jogo eram obrigados a se enquadrar. Cada identidade foi suprimida em função do rótulo de Sarado, Colorido, Belo, Ligado etc. O público que recebe este tipo de informação pré-formatada não vê outra coisa no grupo dos sarados senão pessoas saradas e as julga por isso; no grupo dos coloridos senão coloridas, e sobre suas cores tecem seu julgamento; e assim por diante. Não se enxerga para além do rótulo. E nesse país que ostenta 198 mortes de homossexuais ao ano – mortos simplesmente porque eram homossexuais - não é de se estranhar que um grupo de coloridos cause estranheza demasiada.

A princípio imaginei que a intenção da emissora fosse politicamente correta ao abordar a diversidade. Ingenuidade a minha acreditar em imparcialidade de uma emissora que censura o beijo entre dois rapazes, escrito para acontecer em uma de suas telenovelas. Uma emissora em cujas novelas os atores negros servem apenas para desempenhar o papel de bandido ou de palhaço. Se de palhaço, ou porque o é em sentido figurado, isto é, como sub-personagem, dominado, auxiliar, quase sem aparições, quase sempre o estereótipo do pobre, empregado(a), pedreiro, escravo; ou mesmo no sentido literal, isto é, personagem cuja atuação não passa de comédia digestiva, o faz-me-rir fácil, o ridículo, o raso. Não, a Rede Globo não é imparcial. A intenção da emissora, de fato, é duvidosa quanto à distribuição dos grupos no Big Brother. Mas isto é briga de cachorro grande! Voltemos ao raciocínio anterior e expliquemos o que afinal o Big Brother tem a ver com Bertold Brecht.

Pois bem, como Brecht evidencia no clássico poema reproduzido na introdução deste texto, as grandes vitórias da humanidade nunca foram, e nunca serão vitórias alcançadas na solidão do próprio ser. Ao contrário, o dramaturgo e poeta denuncia a presença dos comuns, dos menores, daqueles anônimos cujos nomes não ganham as páginas dos livros de História, e sobre eles repousa o louro das conquistas dos grandes e famosos líderes; muitos dos quais, fizeram mais destruir do que construir.

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A vitória de Marcelo Dourado do Big Brother será comparável à vitória desses grandes líderes lembrados por Bertold Brecht. E não pensem que estou elogiando o participante, elevando-o ao pódio dos maiores nomes da história ocidental, porque não estou. Minha comparação consiste em refletir menos sobre a atuação de Dourado - que ao meu ver é mais um número - que sobre a contribuição dos anônimos na vitória do seu representante. Dourado é mais um na multidão. Não posso creditar a ele os méritos de sua vitória. Se tivesse que congratular, as saudações seriam dadas aos milhões de brasileiros que resolveram fazer justiça com as próprias mãos, recompensando sua mais recente vítima do jogo de realidade. Porém, que justiça é essa, afinal? Será uma espécie de contrapartida ou resposta em relação à vitória não muito bem tragada do homossexual Jean Willys, há algumas edições passadas? Ou será que os brasileiros resolveram presentear o participante ora eliminado, dando a ele a oportunidade (e a garantia) de permanecer no jogo? Meu palpite é que ambas as alternativas fazem sentido, porém um outro dado vem reforçar ainda mais a minha hipótese: Marcelo Dourado é porta-voz dos milhões de brasileiros cúmplices dos 198 assassinatos de homossexuais registrados em 2009. São esses milhões de brasileiros os que realmente saem do jogo como vencedores, e projetam em seu anti-herói a oportunidade de trazer a sociedade brasileira à “retidão”, ao “caminho correto”, ao “prumo”. Nossa sociedade é patriarcal e sexista, homofóbica e machista, heteronormativa e racista. Estas características estão implícitas em nossa estrutura. E, porque estão em nossa estrutura, não desaparecem num piscar de olhos, sobretudo quando os olhos não se piscam diante da televisão. Nosso preconceito estava adormecido, quieto e manso, mas ao simples anúncio de ruído – que era a presença ameaçadora dos coloridos – ele acorda, e aí faz-se necessário provar que o leão adormecido ainda vive, que o cajado do pai-de-família ainda machuca, e que lugar de bicha é embaixo da terra. Esta, a terra, não pode ser ameaçada em sua eternidade pelo mal que vem em cores. Explica-se, a partir da lógica acima, o medo e a aversão pela diferença, pelo amor entre iguais, pelos coloridos, pela força das mulheres. É isto o que se chama HOMOFOBIA, que em sua raiz é alimentada pela misoginia (isto é, o horror ao que é feminino).

Ao contrário do que muitos pensam, a homofobia não aparece apenas nos casos de violência física e morte, como evidenciaram os 198 assassinados em 2009. Na grande maioria das vezes, ela se firma nas atitudes despretensiosas e cotidianas, porque ela passa a ser legítima, justificada, de direito. O problema é que a legitimidade, a justiça e o direito não são isonômicos, nem bilaterais, nem equânimes. E seria um enorme equívoco trazer Brecht ao texto apenas para retratar Marcelo Dourado, quando se pode fazer mais que isso. Brecht mostrava a relação entre líderes e liderados, criticando – nas entrelinhas – o líder de sua época, Adolf Hitler, bem como os milhares de alemães que o apoiaram. O poema de Brecht não é conformista. Em outras palavras, o que se espera com ele não é que entoemos cânticos porque o povo brasileiro conseguiu eleger seu totem ao posto de “Grande Irmão”, mas antes, inspirar outros muitos brasileiros que lutam contra o que este “Grande Irmão” representa, outros muitos que brigam por justiça de fato, por direitos iguais, por isonomia, pelo direito à vida e à liberdade, pela cidadania plena, geral e irrestrita.

Marcelo Dourado poderá ostentar o título de “Big Brother”. Que seja o big brother vencedor; todavia, não meu. Não posso chamar de “brothers” pessoas com as quais não possuo o mínimo de afinidade, empatia, sintonia. Dourado de fato não é meu irmão; Não compartilho de suas ideias, discordo de seu modo de ver o mundo e as pessoas, repudio os símbolos nazistas tatuados em seu braço, disfarçados pela origem oriental na Antiguidade. Acho que ninguém nascido depois da década de 1930 tenha legitimidade para ostentar a suástica, por mais que sua origem seja bem longe e bem anterior aos campos de concentração da Alemanha. Isto é, para mim, no mínimo, falta de ética. Não tenho motivos para acreditar que ele seja, de fato, um “Grande Irmão”. Aqueles a quem tenho por irmãos sabem que é feio e covarde bater em mulheres; que respeito é discordar sem apontar e julgar; que AIDS não dá em poste, mas em seres humanos: homossexuais, bissexuais e heterossexuais. Meus brothers não são agentes da ignorância, mas pivôs do respeito, do conhecimento e do amor ao próximo. Por fim, Marcelo Dourado, mesmo ganhando o reality show da Rede Globo, não pode ser meu irmão; não bebemos da mesma fonte, não temos os mesmos gostos, nem os mesmos hábitos e nem a mesma educação, não descansamos sobre a mesma consciência e não sentamos juntos na mesma mesa. Até mesmo porque, cá entre nós, não suporto arrotos durante as refeições; a minha alma respira elegância, e o meu espírito, definitivamente, não é o de porco.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ser-Mulher: o pão e o vinho de Deus

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"E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado em favor de vós." (Lucas 22:19-20)
Um grão caído na terra começa a germinar e é observado em seu crescimento por algumas mulheres que estão coletando na área: aí temos, provavelmente, a base da transformação [...] O homem não é o principal produtor. [...] O homem mantinha sua importância pelo significado que a carne tinha, pela sua relativa raridade até. [Porém] nas sociedades agrícolas, a mulher era quem semeava, colhia e preparava os alimentos, ficando os homens fora da produção direta. (Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/revolucaoneolitica.htm)

Não poderia abrir o mês de março senão por meio do assunto que mais enaltece esta época do ano: as mulheres! Elas que, contempladas com um dia em sua homenagem, luzem para o restante do mês sua energia, força, garra e gana.

O 8 de março é um dia de homenagem, sim, momento de parabenizar, congratular e mandar aquelas mensagenzinhas e correntes de e-mail, orkut etc. Mas o que me proponho no SAI NA URINA é mais que isso; é refletir sobre o significado do ser-mulher hoje, a partir dos referenciais que transformaram um simples dia do ano num marco referencial da luta dos direitos delas, as nossas musas.

Em primeiro lugar, eu não sou a pessoa mais apropriada para falar do significado do ser-mulher, posto que não sou uma delas. Porém, apesar do meu lugar de não-conforto, o que pretendo é refletir sobre o gênero feminino, o significado de se sentir mulher na nossa sociedade; é, portanto, uma reflexão a partir de um viés coletivo, e não individual.

E por que refletir coletivamente sobre gênero? Esta tarefa faz sentido porque, especificamente hoje, penso que não cabe o limite das flores, do rosa, das mensagens de congratulação. Hoje, refletir sobre o gênero feminino é trazer à memória toda uma história esquecida, uma história de vitória, uma história perdida nos caminhos da História. O senso comum costuma relegar o passado remoto feminino ao subjugo das mulheres ao papel masculino. Contudo, as mulheres foram protagonistas de uma das maiores revoluções da história humana: a revolução neolítica. Nesta época, eram elas as responsáveis diretas pela alimentação, pela seleção de sementes, pela domesticação dos animais, tarefas nada "femininas" por assim dizer. O uso da força muitas vezes era necessário, da força bruta mesmo! Nesta época, ou pouco antes, não existia a noção de deus-homem, mas da grande Deusa, a Grande Mãe, aquela que vem da terra, a que provê o pão - esse alimento tão precioso que, se hoje representa o corpo do Deus Criador, dAquele que se fez homem, representou outrora o produto de criação da mulher, aquela que se fez deusa.
http://www.pavonerisorse.it/scuole_circolo/cosa_studiamo/cibo/immagini/neolitico.gif
Sim, se hoje se come o pão, o Corpo do Filho do Homem, foi a mulher que o pariu, que o pensou, que o idealizou. Não por menos foi este o alimento escolhido pelo Deus Pai, talvez, para retificar a ideia de "Deus-Pai", e aproximá-la de "Deusa-Mãe". Ou, de outra forma, por que não escolheu o trovão, a chuva, as estrelas ou qualquer outro elemento da natureza para ser a representação do divino? Afinal não eram essas as representações do masculino, desde a "pré-história"?

Nas civilizações antigas, a figura masculina sempre foi ligada aos céus, ao passo que a feminina esteve ligada à terra (à exceção do Egito Antigo, cuja severidade do deserto, da terra, remetia ao masculino; e os céus, as bênçãos da chuva, do sereno, do orvalho, que traziam frescor, refrigério e acalanto, remetiam ao feminino). Por isso, ouso dizer que, se o pão e o vinho representam Deus, é porque Ele reconhece nesses elementos o quanto de Mulher existe no trigo e na uva, o quanto de Mulher há em Deus, ou o quanto de Deus há na Mulher! Assim, o próprio Deus enaltece essa figura emblemática, quase divina, suprema, magestática.

Contudo, a Mulher - que o próprio Deus escolheu para Lhe representar (pão e vinho, trigo e uva, agricultura, revolução neolítica), foi subjugada em nome desse próprio Deus durante séculos e séculos! Recentemente, há cerca de um século, movimentos feministas iniciaram a luta pelos direitos das mulheres. Suas manifestações por melhorias nas condições de trabalho; suas lutas pelo direito de expressão; as reivindicações de direitos sexuais; a emancipação em relação ao patriarcalismo; enfim, todas essas batalhas vem fazendo jus ao dia 8 de março, motivo desta postagem.

Minha reflexão, portanto, e como foi dito no início, não é sobre ser-mulher individualmente, mas no coletivo. Apesar de tanto se ter lutado, brigado e reivindicado, a desgraça patriarcal ainda prevalece na nossa sociedade machista, homofóbica, sexista. Se a mulher conseguiu o seu espaço, o feminino ainda permanece subjugado. Ser mulher é nobre; ser feminino é fraco. Ser mulher é nobre, mas mulherzinha ainda é ofensa; ser mulher é nobre; mas não para as travestis, que são ridicularizadas, inclusive por outras mulheres; ser mulher é nobre; se ela couber no universo feminino de passividade; ser mulher é nobre, se ela gostar de homem; ser mulher é nobre, se ela for Eva, pecadora, culpada, auxiliar, costela; ser mulher é nobre, mas ainda falta muito para que o feminino alcance a nobreza. Porque não adianta a sociedade "aceitar" o espaço da mulher nas múltiplas esferas, se nos meandros das relações humanas desta mesma sociedade, o que diz respeito ao gênero feminino ainda é visto sob o olhar de uma sub-categoria.

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E é nesse sentido que eu quis atrever-me a falar sobre o significado de ser-mulher no coletivo. Coletivamente, homens e mulheres perecem diante do sexismo; homens e mulheres são vítimas do machismo; homens e mulheres são promotores e/ou alvo de preconceitos de gênero; homens e mulheres permanecem inertes ao verem a criadora do Pão e do Vinho se tornar mais um número sem concordância na boca de milhares de foliões no carnaval do Rio de Janeiro: uma mulé, duas mulé, três mulé. Ou, em outros casos, reduzidas a cachorras, éguas e afins.

Contudo, não tenho propriedade para dizer que são erradas essas manifestações legítimas (posto que algumas vem das próprias mulheres, que dançam e cantam e vibram e...). A banalidade é também expressão da liberdade, faz parte. Mas, ao invés de condená-la, tentemos ir além dela: neste dia tão especial, que é o 8 de março, resgatemos a Mulher-Deus, tanto aquela que é pão e vinho, a agricultora, a criadora, a protagonista, a revolucionária; quanto aquela que é o próprio Deus, macho e fêmea em sua essência, Deus Pai e Deusa Mãe.

Esforcemo-nos no sentido de dar o primeiro passo para firmar o feminino no seu merecido altar de nobreza; e assim, faremos um mundo muito mais igualitário, onde homens e mulheres poderão dele gozar sob as barbas (ou os seios) de Quem livremente os criou.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

ABGLT envia nota de repúdio contra Marcelo Dourado


A ABGLT (Associa
ção Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) enviou nesta segunda-feira (22/02) uma nota de repúdio sobre o comportamento de Marcelo Dourado no Big Brother Brasil 10.

Em nota, assinada pelo presidente da Associação Toni Reis, é citada as atitudes homofobicas de Dourado em relação aos participantes homossexuais do reality, e suas declarações equivocadas de que "homem hetero não pega Aids".

O comunicado descreve ainda a atitude de Dourado, que depois do desentendimento com Angélica, chamou a participante de "abusada" e que se ela fosse homem ele a "encheria ela de porrada".

Para Toni Reis, "as atitudes e declarações de Marcelo Dourado, em um programa de televisão com grande audiência nacional, apenas servem para reforçar toda esta carga de preconceito, discriminação e estigmatização contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT)", demonstrando assim "a impunidade com que esta forma de discriminação se aplica na sociedade brasileira, ao contrário do racismo e outras formas notórias de discriminação passíveis de punição prevista em lei.




Abaixo confira a carta na íntegra.



A ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) é uma entidade de abrangência nacional que congrega 237 organizações congêneres e tem como objetivo a defesa e promoção da cidadania desses segmentos da população. A ABGLT também é atuante internacionalmente e tem status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas.

Neste sentido a ABGLT vem a público manifestar o seu repúdio às declarações e ações homofóbicas e machistas de Marcelo Dourado, participante do programa Big Brother Brasil 10, veiculado pela Rede Globo.

Entre outras manifestações, como o uso do símbolo nazista no braço, podemos citar suas atitudes homofóbicas em relação aos participantes homossexuais do programa, incluindo a disseminação da noção equivocada de que ?homem hétero não pega aids?, e a ameaça de espancar uma mulher lésbica participante do programa, conforme pode-se verificar nos vídeos disponíveis.

Os dados epidemiológicos do Ministério da Saúde demonstram claramente que uma das tendências atuais da epidemia da aids é justamente a feminização, ou seja, há um aumento nos casos de aids na categoria de transmissão heterossexual (homem/mulher) enquanto o número de casos de aids na categoria homo e bissexual está estável há vários anos. Tal aumento na população heterossexual se deve em grande parte a crença estigmatizante de que a aids é uma doença apenas de gays, e que tristemente foi reproduzido pelo Sr. Dourado em cadeia nacional de televisão.

Estudos publicados nos últimos cinco anos vêm demonstrando e confirmando cada vez mais o quão a homo-lesbo-transfobia (medo ou ódio irracionalmente às pessoas LGBT) permeia a sociedade brasileira e assimilada pela juventude.

A pesquisa intitulada ?Juventudes e Sexualidade?, realizada pela Unesco no ano 2000 e publicada em 2004, foi aplicada em 241 escolas públicas e privadas em 14 capitais brasileiras. Na pesquisa, 39,6% dos estudantes masculinos não gostariam de ter um colega de classe homossexual, 35,2% dos pais não gostariam que seus filhos tivessem um colega de classe homossexual, e 60% dos professores afirmaram não ter conhecimento o suficiente para lidar com a questão da homossexualidade na sala de aula.

O estudo "Revelando Tramas, Descobrindo Segredos: Violência e Convivência nas Escolas", publicado em 2009 pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana, traz uma amostra de 10 mil estudantes e 1.500 professores do Distrito Federal, e aponta que 63,1% dos entrevistados em uma escola alegam já ter visto pessoas que são (ou são tidas como) homossexuais sofrerem preconceito; mais da metade dos professores também afirmam já ter presenciado cenas discriminatórias contra homossexuais nas escolas; e 44,4% dos meninos e 15% das meninas afirmam que não gostariam de ter colega homossexual na sala de aula.

A pesquisa ?Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar? realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, e também publicada em 2009, é uma amostra nacional de 18,5 mil alunos, pais e mães, diretores, professores e funcionários, e revela que 87,3% dos entrevistados têm preconceito com relação à orientação sexual.

A Fundação Perseu Abramo publicou em 2009 a pesquisa ?Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil: intolerância e respeito às diferenças sexuais?, que demonstra que 92% da população reconhece que existe preconceito contra LGBT e que 28% reconhece e declara o próprio preconceito contra LGBT, percentual este cinco vezes maior que o preconceito contra negros e idosos, também identificado pela Fundação.

As atitudes e declarações de Marcelo Dourado, em um programa de televisão com grande audiência nacional, apenas servem para reforçar toda esta carga de preconceito, discriminação e estigmatização contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), e demonstram a impunidade com que esta forma de discriminação se aplica na sociedade brasileira, ao contrário do racismo e outras formas notórias de discriminação passíveis de punição prevista em lei.

É preciso envidar esforços, a exemplo da iniciativa do governo federal, através do Plano Nacional de Promoção dos Direitos Humanos e Cidadania LGBT, para que se diminuem o preconceito e a discriminação contra pessoas LGBT, e que se promova o respeito às diferenças, quaisquer que sejam, existentes entre as pessoas que compõem nossa sociedade. Os meios de comunicação têm um papel chave nesta empreitada.

Toni Reis - Presidente da ABGLT - Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais

Fonte: http://acapa.virgula.uol.com.br/site/noticia.asp?codigo=10317&BBB+10%3A+ABGLT+envia+nota+de+rep%FAdio+contra+Marcelo+Dourado

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Da descoberta do TOC

Feliz Ano Novo!!! Sem mais explicações: a primeira postagem deste ano é de fevereiro mesmo! Sim, decidi deixar o mês de janeiro por conta das férias, em todos os âmbitos, inclusive neste blog. Estou inaugurando o 2010 do Sai na Urina não com uma poesia, como fiz em 2009. Mas o tema é curioso, e faz parte de mim.

Vocês já devem conhecer algo denominado “Transtorno Obsessivo Compulsivo”, o chamado TOC. Eu não conhecia até que alguém me informou que eu parecia ser portador deste transtorno. O TOC consiste em uma mania de simetria, de exatidão. É a obsessão compulsiva pela certificação. Depois disso comecei a perceber o quanto o TOC faz parte de mim. É tanto, que seria impossível finalizar a explanação desta importante parte de mim apenas nesta postagem. Daí me veio a ideia de uma série de publicações com o mesmo tema. Esta é, portanto, a primeira delas. Mas vamos ao que interessa. Querem saber como descobri o TOC?

Foi trabalhando! Talvez seja porque sou virginiano, vai saber. O fato é que minha mania de perfeição por vezes fazia prolongar demasiadamente o tempo para concluir minhas atividades no trabalho. Horas pra montar um cartaz simples, simplesmente por causa de uma letrinha que não estava centralizada. Ao desenhar, não poderia restar uma sombra de grafite no papel. E se restasse uma nuvenzinha negra no canto esquerdo, outra similar deveria fazer a contraposição no lado direito. Nos murais que confeccionava, tinha discussões homéricas com a Maria Luiza. Sim, porque ela é avessa ao enquadramento. Tudo pra ela tem que estar como folhas que caem desordenadamente do céu após uma ventania. Pra mim, até na desordem há de haver ordem: se um cartaz está virado 30º à esquerda, necessariamente um outro cartaz com o mesmo ângulo, à direita, faria a composição do mural.

É uma questão de simetria. Talvez seja difícil para vocês entenderem essa mania. Mas eu explico. Lembram da infância quando nos falavam que se deixássemos o chinelo virado de cabeça pra baixo nossa mãe morreria? Pois bem, imaginem a sensação de ver o chinelo virado, mas não poder desvirá-lo! Assim é o TOC. Às vezes, ao me levantar e virar pra esquerda, por exemplo, tenho a sensação de ter virado demais, sendo necessário desfazer o giro em direção ao sentido oposto. É como se minha memória tivesse registrado, ao sentar, a necessidade de percorrer o mesmo caminho, com o meu corpo, ao me levantar. Tal como um pedaço de pano que, preso ao teto em um das pontas, e se retorcido para a direita, automaticamente tem sua posição normalizada pelas propriedades da natureza. É simples.

Quer me ver passar mal? Experimente me dar um tapinha no ombro! Eu na certa precisarei ser tocado no outro ombro, com a mesma intensidade do primeiro toque. Se for necessário, eu mesmo me toco. E se, porventura, meu próprio toque extrapolar a intensidade do primeiro, meu corpo reage dizendo: Léo, dê mais um pequeno toque no outro ombro pra compensar sua mão de cavalo! Eu mesmo vejo nada de absurdo nisto! Pensem e vejam se não é lógico: estou andando numa calçada e dou uma topada numa pedra. A dor não é insuportável? A diferença é que pra mim ela é insuportável por latejar num pé só, e não pela intensidade de pancada. Por isso faço questão de pressionar o outro pé até obter sensação similar, se não de dor, ao menos de latejo.

Certa vez tive um grande problema com uma mochila. Quando eu a colocava, um de seus lados tocava de maneira mais pontiaguda as minhas costas. Mas apenas um dos lados das minhas costas. Isto era muito irritante. Não à toa eu andava a partir daí feito um robô manco, tentando consertar a alça da mochila pelas ruas, enquanto ela me sacaneava pelas costas. Troquei a maldita. Passei a usar uma bolsa. Pelo menos esta eu ponho do lado que eu quiser e alterno de acordo com a intensidade que repousar sobre cada um dos lados que a sustentar. Já me disseram que eu preciso de ajuda. Eu acho que não é pra tanto. Ou é? Será!?