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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cores de um poeta inverso

Amigas e amigos, sei que tenho deixado meu blog de lado e há muito tempo (mais de um ano) não escrevo mais aqui. Acho que com a minha adesão ao facebook tempos atrás, deixei de registrar no blog as coisas importantes da minha vida.
Mas hoje o que me motiva a escrever aqui depois de tanto tempo, é, sim, algo muito importante na minha vida, algo que me deixou muito feliz desde o momento em que eu soube que era uma realidade concreta, e não mais algo restrito ao etéreo dos meus sonhos. Meu livro! Sim, um livro lindo, recheado com as poesias que, vez ou outra, eu pingava por aqui. Hoje elas estão reunidas em cores, em "Cores de um poeta inverso".
O lançamento da obra será na Livraria Saraiva do Leblon, no dia 22/12, sábado, a partir das 19 horas.
Segue o convite:




O local é de fácil acesso, mas caso você tenha dificuldade, aqui vai um pequeno mapa para te orientar:


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pra onde foi o infinitivo?

Por mais que os lingüistas mais modernos queiram me explicar que o brasileiro é um povo de sotaque vocalizado, nada consegue me fazer entender o motivo de a letra “r” simplesmente desaparecer dos verbos que deveriam estar no infinitivo. Sei que nosso português brasileiro tem muita influência das línguas banto e ioruba, de origem africana, além das línguas ameríndias, faladas até hoje por muitos povos de origem indígena no nosso país. Essas línguas são línguas vocálicas, diferentes do inglês, por exemplo, onde predominam as consoantes. “Comê”, “rezá” e “amá” fazem sentido na minha cabeça se o falante está comprometido apenas com um pedido de pizza, de perdão de pecados ou, sei lá, de casamento. Eu consigo me conformar em ver o “r” desaparecer da língua falada. Mas eis que surge mais um desafio: entender por que cargas d’água resolveram abolir o infinitivo também da língua escrita! “Escrever” agora é “escreve”; “falar” agora é “fala”; “sentir” agora é “senti”. Ano após ano vejo que se tornam mais comuns frases do tipo “Quero fala com você, pode se? Que tal marca um dia pra gente se encontra?”. Será que nesse bendito encontro alguém, pelo amor de Deus, encontra também o infinitivo?

Já virei noites a fio desesperado, temeroso de ver minha Língua Portuguesa se transformar numa réplica da anglo-saxã. Lá, sim – nessa língua de gringo – o verbo pode ser “to be”. Mas aqui não tem a porcaria do “to”, pombas! Aqui, ou você me love ou não me love. Sem “to”. No Brasil, a graça não é “to kiss”, mas “beijar”, com um “r” bem rasgadinho no final. Ou alguém beija com “to” na frente? Não teria o menor suspense: todo mundo já saberia que viria um infinitivo no caminho. Aqui a gente sabe que beijo que é beijo acontece devagarzinho, devagarzinho, letra por letra, com direito a sentir lá na garganta o vibrar do “r” no final... b-e-i-j-a-a-a-a-a-a-a-a-r-r-r-r-r-r-r! Assim mesmo, gostoso e sem perder o ar! Particularmente eu achava o infinitivo um produto quase sexual. Era um mistério guardado a sete chaves e aberto no momento mais oportuno. O namorado, rapaz esperto, chega empolgado e propõe: “Amor, que tal a gente pegarrrr um cinema e depois esticarrrrr a noite em um lugar onde possamos esticarrrrr também as nossas... conversas?”. E então, de esticada em esticada, o infinitivo passaria de geração a geração, não fosse o fato de terem decidido abolir o meu recurso sexual favorito! As fugidinhas nunca mais tiveram tanta graça depois do sumiço do infinitivo...

Eu tenho esperança de que alguém um dia encontre novamente o infinitivo ou, pelo menos, descubra uma maneira mais interessante de comemorar um aniversário de namoro. As cantadas estão cada vez mais pobres, os xavecos andam para as cucuias, e as pessoas inventam maneiras cada vez mais esdrúxulas de expressarem desejos, sentidos, vontades. Enquanto uns apostam em um estilo tão inovador que chega a ser esquisito, violento ou absurdo, outros se apegam a um discurso mais que ultrapassado, piegas, clichê.

Na escola, como professor, vivo esse dilema. Está cada vez mais difícil ver alguém ser original para elaborar um discurso falado e, dez vezes mais, um discurso escrito. As tentativas vão dos tradicionais “a gente fomos” às construções mais, digamos, “autênticas”. E quando eu penso que se esgotaram as surpresas vindas dos meus alunos, eles dão a volta por cima e inventam uma maneira muito mais complicada de se expressar! Esses dias resolvi fazer uma sugestão a um ex-aluno que insistia em escrever “kue” em vez de, simplesmente, “que”. Ora, que mal faria trocar o diabo do “k” pela letra “q” que, ortograficamente, é a letra correta e mais apropriada à conjunção “que”? Expliquei que foneticamente o “k” não fazia sentido, porque a pronúncia do “u”, em “que”, não existe. Sugeri que, se o amor pelo “k” fosse tão grande que não pudesse abandoná-lo, que ele escrevesse “ke”. Pelo menos nas conversas virtuais ele seria inteligível. O rapaz, por acaso, se dispôs a rever seus caminhos e passou a escrever “que” com “q”. Mas outros continuam a me surpreender com suas peripécias escritas.

Comecei a observar essa resistência à escrita há alguns anos quando os primeiros sinais desse distúrbio apareceram: os pupilos vibravam com provas de múltipla escolha e repudiavam as dissertativas. E, por mais que eu insistisse, bimestre após bimestre, que as questões dissertativas eram mais fáceis, eles preferiam se deliciar com a ideia de que conseguiam responder uma questão inteira marcando um “x”, mesmo que fosse na alternativa errada. Se a prova tem um texto, e se o texto tem perguntas sobre ele, as respostas obrigatoriamente – segundo a concepção da maioria dos alunos – devem começar em um ponto ou em uma vírgula, e se estender linhas e linhas até o final do período, ainda que o texto reproduzido não tenha absolutamente nada a ver com a pergunta, à exceção de uma palavra qualquer que se assemelha com o enunciado da questão.

Por muito tempo eu pensei: não sei ensinar! Meus alunos não entendem minha matéria, ela é um lixo, não serve pra nada. Sou uma droga de professor porque não consigo fazer com que a droga do conteúdo saia da droga da Academia! Até que eu descobri que o problema não estava na minha disciplina, mas nas habilidades da Língua Portuguesa desses alunos. Ou haveria um consenso de que todos os colegas professores de português nada ensinavam, ou haveria uma outra explicação para que meus alunos não soubessem que – por exemplo – as questões dissertativas “a”, “b” e “c” deveriam ser respondidas nas linhas subseqüentes, e não com um “x” mágico sobre a letra que identifica a pergunta. E a explicação existe! Meus alunos não sabem ler! Isso mesmo, eles simplesmente não sabem.

Quando eu era pequeno, meu pai me presenteou com uma maleta de livros infantis. Durante anos eu me apeguei àqueles livros coloridos. Cheguei a decorar uma das histórias, a dos Três Porquinhos, que eu contava para meus primos e amigos. Em um momento da história eu dizia assim: “E o lobo morreu morto”, porque não havia reparado no ponto que existia entre a palavra “morreu” e a palavra “morto”. Sim, “e o lobo morreu. Morto, não poderia mais ameaçar os porquinhos”. No meio do caminho tinha um ponto; tinha um ponto no meio do caminho. Mas eu passava batido por ele. Todos riam da maneira como a história era contada, e sempre era muito divertido aprender com os livros. Um dia acabei entendendo que o lobo não morreu morto. Os livros... eles me traziam magia, criatividade, emoção. Traziam mais cores à vida. Os meus livros tinham infinitivo e traziam sentido à minha existência.

Se alguém souber onde foi parar o infinitivo, me avise. Eu tenho um palpite. Acho que ele se escondeu no mesmo lugar onde se esconderam os sonhos das crianças. A imaginação, a ludicidade e a alegria delas resumem-se a um aparelho de celular ou ao orkut. Experimentei perguntar a uma aluna completamente alheia às atividades da sala, o que ela queria ser daqui a cinco, seis anos, quando já estivesse trabalhando. E ela, sem perspectiva alguma, respondeu: “médica”. Respondeu a primeira profissão que lhe veio à cabeça. Não condeno o desejo da aluna em ser médica, mas, sinceramente, minha impressão foi que ela simplesmente desconhece qualquer outra profissão que esteja entre a medicina e o desemprego. Meus alunos não sabem ler! E isso me deixa triste. E o que me corrói não é o analfabetismo funcional em si, mas a razão dele. Não existe razão para ler! Não existe mais razão para aprender! E, ao que tudo indica, não existe razão em viver. Cada aula que passa é uma ofensa a mais. Cada dia que corre é mais um que morre. E vidas são perdidas. E sonhos são sepultados. E até que eles despertem novamente os sonhos; até que acreditem que esses sonhos podem se tornar realidade através da leitura; e enquanto a imaginação tiver de asas atadas pela inércia, pela não-ação, pelo conformismo, não haverá caminhos nem para aprenderem o conteúdo de qualquer disciplina, nem para devolverem o infinitivo à Língua Portuguesa.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Maria, Maria... da Penha!

Hoje vi no Facebook uma mensagem divulgada pelo Grupo Arco-Íris, lembrando-nos sobre o quinto aniversário da Lei Maria da Penha. Eu mesmo, por minha conta, talvez não fosse lembrar da data. E existe uma razão pra isso! Não sou mulher. Não vivo na pele a dor e a delícia de ser o que é, a saber, mulher. Mas sofro em outras instâncias e sou atingido de outra maneiras que não vêm ao caso neste artigo. Porém, o mais importante a respeito da Lei Maria da Penha não é o fato de ela proteger mulheres, mas sim, o fato de ela proteger pessoas! O que quero dizer, é que, se por um lado a lei confere às mulheres o status de "pessoa", status este que, por força da cultura, era atribuído apenas aos homens, a mesma lei permite, por outro lado, a homens e mulheres desfrutarem da proteção da lei. Porque são pessoas, a despeito do gênero ao qual pertencem. Na minha leitura, é uma lei que prima pela igualdade. Alguns casos já foram noticiados na internet sobre homens que fizeram uso da lei. Homossexuais, inclusive! E há louvor na ação. Mas sem dúvida, as maiores beneficiárias da lei são as mulheres, sim! Na violência doméstica, são elas as que estão em situação de prejuízo. É lamentável, entretanto, que muitas não ousem usufruir do direito que possuem, apesar das imperfeições que a lei em si traz em seu texto.

Mas a questão que me intrigou quando eu vi o cartaz não foi propriamente a Lei Maria da Penha, antes o próprio cartaz me chamou atenção. E por quê? Tente você descobrir. Vá até a barra de rolagem e suba um pouco o seu olhar. Observe o cartaz... se possível, ligue as caixinhas de som do seu computador para que Milton Nascimento inspire a sua reflexão...



Pedi pra que você ouvisse porque o som às vezes inspira mais que a imagem, mas se você é daqueles ou daquelas que preferem o texto, ok. Preste atenção no excerto escolhido para a reflexão.

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rí
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria


Por mais que reine no Grupo Arco-Íris a boa e generosa intenção de celebrar a data de aniversário de criação da Lei Maria da Penha, uma coisa é inegável! O cartaz não condiz com a proposta. As Marias que misturam a dor e a alegria não me parecem ser as Marias louras de olhos azuis com corpo de modelo. As Marias que trazem no corpo a marca, ao meu ver, trazem a marca da discriminação, da cor, do suor, as marcas de uma gente que ri quando deve chorar, porque motivos não faltam. No início do artigo eu fiz uma provocação. Dizia que a lei beneficia homens e mulheres - porque são ambos humanos - mas reforcei que as grandes beneficiárias são as mulheres, dadas as condições de desigualdade histórica em relação ao poder do falo na nossa cultura. Da mesma forma, é preciso se pensar questões internas, dentro do próprio gênero feminino. Se todas as mulheres são contempladas pela lei, certamente as pretas e pobres são aquelas que mais merecem atenção! As estatísticas mostram pra quem quiser ver: a pirâmide social do Brasil é sustentada pelas mulheres pretas e pobres. São elas quem estão na base! Recebem os menores salários, têm as piores condições de trabalho e, muito provavelmente, sofrem no ambiente privado aquilo que lhes é oferecido no público. Mesmo que a informação não procedesse, seria de bom tom que o Grupo Arco-Íris, por sua história e natureza, homenageasse as mulheres pretas e pobres! Não tenho nada contra as loirinhas de olhos azuis, assim como não tenho nada contra heterossexuais. Mas, cá pra nós, faz sentido aquele projeto ridículo de São Paulo celebrar o Dia do Orgulho Hétero? Não, não faz! Heterossexuais não estão lutando há décadas pelo direito de (sobre)viver. Da mesma forma, não faz sentido, na minha visão, comemorar o quinto aniversário da Lei Maria da Penha estampando em cartazes mulheres que não representam as Marias de Milton Nascimento. Vamos pro chão da vida? A Maria é da Penha, não do Leblon.

É só uma provocação. Fica a dica para a sua reflexão! E, pra não dizer que não falei de flores, que as marcas em vermelho sejam apenas de batom.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Eu, robô


Hoje lembrei que tinha um blog e que este servia para espiar o estresse, conforme proposta assentada em sua criação. Esqueci mesmo que possuía um veículo para espiar minhas angústias, anseios, indignações. Fazia tempo que não passava por aqui. Então resolvi escrever.

Os dias têm passado como se eu os estivesse assistindo e sem deles participasse. Não estou bem. Às vezes até me envergonho ao dizer que não estou bem, posto que existe um mundo imenso lá fora de repleto de pessoas famintas, miseráveis, sem teto, mendicantes, doentes, mortas. Mas não posso negar o vazio, não dá. Eu vejo os dias passarem e a sensação que eu tenho é a da imobilidade. Há mais de um mês estou em greve e, de alguma forma, os agitos da sala de aula estão me fazendo falta. Meus alunos são o demo! Gritam, são rebeldes, abusam da boa vontade do professor... mas são meus! E eu confesso que estou morrendo de saudades deles. Meu outro trabalho é administrativo e quase não vejo gente, à exceção das pessoas com quem trabalho todos os dias, as mesmas pessoas, sempre. Meu trabalho aqui é a ilustração do que significa rotina. Não é que seja chato ou difícil, a questão é que está fácil demais. Não possui os desafios da sala de aula, dos quais tenho sentido falta. Tenho sentido falta de ter o controle da situação, de escolher caminhos, de ser provocado e ter meios para driblar ou reagir à provocação. Aqui estou me sentindo amarrado pela facilidade, pela via fácil, pelo ofício simples. Cadê o Léo crítico, audacioso, sagaz? Estou cercado por gente bacana. Por muitos colegas legais. Bacanas e racistas. Legais e machistas. Isto tem me feito mal. Não, não se diferem da grande maioria da população. Tal como na sociedade lá fora, o racismo aqui é naturalizado. O machismo é quase um baluarte. Estou ficando sem forças para discutir, tenho andado desanimado, desacreditado da mudança. Hoje um colega criticou o SUS por oferecer cirurgia de mudança de sexo às transexuais, e sua crítica soou tão natural para todos os presentes... e eu não me perdoo até agora por não ter falado nada, absolutamente nada.

Elaboro documentos, digito atas, conserto erros, altero sites, leio e-mails, faço o que tenho que fazer, e sei que faço bem. Mas não estou bem! Estou cansado de cumprir ordens sem questionar! Não sou pau-mandado. Não quero me tornar um escravo do sistema perito em ser eficaz. Não! Onde está a poesia? Alguém viu o meu humor? Estou ficando sem combustível. Ontem fiquei pensando em quando poderia me dedicar ao teatro integralmente; sonhei com isso, e me entristeci ao acordar para a minha realidade mecânica. Estou com medo de me robotizar, de me tornar um servo do sistema, um produto automático que faz coisas automáticas para um mundo automático. Não suporto mais dar respostas mecânicas a processos burocráticos! As dúvidas simples demais de pessoas simples demais estão me irritando profundamente! Eu preciso de um mundo mais colorido, mais diverso e mais criativo! Definitivamente eu não combino com burocracia! As tintas para pintar meus quadros estão compradas há mais de um ano. Não me faltam ideias para as telas! Hoje vi fotografias de ondas com um colorido inimaginável, pensei que estampariam belíssimos quadros, mas apenas pensei. As ideias não se concretizam! Meu mestrado até agora não sai, e nem mesmo sei se teria tempo, nas atuais circunstâncias, de me dedicar aos estudos acadêmicos.

Estou às vésperas de ingressar em outro trabalho, um outro posto que exigirá de mim aquilo que me anima, que me traz vida: o ato de educar. Mas a dúvida me sobrecarrega. Olho para todos os lados e tudo que vejo em relação ao magistério são sombras. Sombras de descaso, de falta de investimento, de depredação, de deboche do poder público. Por outro lado, até hoje é no magistério onde encontro a maior possibilidade de lutar por aquilo que acredito, sem constrangimentos. Na sala de aula, eu sou o cara! Não estou me gabando, nem me achando o melhor professor do mundo, não. Mas lá, sim, eu posso. É como se lá eu realmente acreditasse que meu discurso vale à pena. Lá o desafio é mais excitante. Não existe comodismo, nem tarefa fácil. Cada dia é um novo dia, e se tem uma coisa que não consigo fazer lecionando é me automatizar.

Não sei se é essa a explicação pro vazio que estou sentindo essa semana. Mas sei que a explicação reside na automatização da vida. Enquanto isso, tentarei acalentar o coração. Chegar em casa e achar graça no café, no sofá, na cama. Ou quem sabe, trazer novas flores pro meu jardim. O verde há de trazer esperança e alegria! Meu jardim hoje está cinza e tudo o que eu mais quero é florescer.


terça-feira, 10 de maio de 2011

A verdadeira causa da morte de Lacraia


Foi hoje mesmo que soube que a dançarina Lacraia veio a falecer. Ouvi a notícia por volta das 13 horas, enquanto pegava carona com meu pai para trabalhar. Como é de praxe, ele ouve há anos um programa de péssimo gosto chamado "Patrulha da Cidade", da Super Rádio Tupi, que é transmitido nessa faixa de horário.

Até então os radialistas faziam suas explanações fictícias e já consagradas por explorar em demasia o sensacionalismo. E assim fizeram quando noticiaram que Jair Bolsonaro, o deputado homofóbico, estava distribuindo panfletos contra gays. Ora, é verdade que o tal deputado, indignado com a decisão do Supremo Tribunal Federal na semana passada, resolveu manifestar-se contra a diversidade. O problema foi a abordagem! O radialista debochava: "Cada um dá o que é seu...", como se ser LGBT implicasse necessariamente no ato de ser penetrado. Mas enfim, que se limitassem à ignorância. Pois não se limitaram, e ousaram ser inescrupulosos. Após noticiarem que um "traveco" matou uma mulher por ciúmes do namorado, e outras notícias tão fantasiosas quanto essa, resolveram colocar na pauta a morte da dançarina Lacraia, e foi daí que eu soube que ela havia falecido.

O erro começou por enfatizar o nome de batismo da dançarina. Ora, se ela quisesse ser chamada pelo nome de batismo, usaria o nome de batismo. Custa entender que ela é Lacraia e ponto!? Ou alguém fica por aí publicando os shows de José e Durval de Lima, ao invés de Chitãozinho e Xororó, ou Mirosmar e Welson David, ao invés de Zezé de Camargo e Luciano? Ou ainda, tecendo notícias de fofoca com o nome de Maria da Graça, ao invés de Xuxa, ou exibindo filmes com Arlette Torres, ao invés de Fernanda Montenegro? No caso da Lacraia, a intenção é realmente vilipendiar a honra, humilhar, ferir a história da dançarina.

Mas o que me deixou mais indignado, até mesmo assustado, foi quando um dos radialistas perguntou:

- Morreu de quê, de Aids?

E, ao receber uma suposta resposta afirmativa, completou:

- Viu só? Fica dando o que é seu por aí que você vai ver!, em referência à máxima proferida sobre a notícia da panfletagem do deputado Bolsonaro.

É sabido que o programa "Patrulha da Cidade" nunca teve muito escrúpulos nem muita ética ao abordar temas caros à sociedade e, por isso mesmo, polêmicos (ou melhor, polemizados) por ela, como o são os direitos humanos e a diversidade sexual. Liberdade de imprensa tem limite, minha gente. E é um limite ético! Liberdade de imprensa requer o mínimo de responsabilidade. Vincular a AIDS à prática sexual entre gays, especificamente atribuindo ao penetrado a culpa pela doença, é de um preconceito sem precedentes! Trata-se de uma irresponsabilidade inimaginável, além de refletir ignorância, retrocesso, má-fé. A atitude se assemelha àquela proferida por Marcelo Dourado, quando, ainda no reality show Big Brother Brasil 10, disse que heterossexuais não pegavam AIDS. Que história é essa de que "dar o que é seu" é condição per se de transmissão e recepção do vírus HIV? Como se não existisse prevenção entre LGBT's, como se ser LGBT fosse o bastante para ser soropositivo, como se heterossexuais usassem camisinha em todas as suas relações. E ainda, como se Lacraia fosse soropositiva.

Não é da conta de nenhum jornalista a sorologia da dançarina. A causa da morte não foi divulgada, e se não foi divulgada é porque não interessa. Há que se respeitar! Tantos e tantos artistas homossexuais e heterossexuais morrem em função das complicações do HIV e não há imprensa que tenha culhão de peitar o luto dos familiares desses artistas e de explorar sua dor em nome de um furo de reportagem que desvende que a causa da morte foi o vírus da AIDS. Por que com a Lacraia tem que ser diferente? Por dois motivos: 1) LGBT quando morre, sobretudo se, sendo biologicamente homem, trouxer consigo elementos do feminino, morre em função da AIDS. Não se pode ficar doente, emagrecer, mudar de vida, morrer, porque se é gay, tem AIDS!; e 2) Lacraia é uma aberração para nossa sociedade! Ela não se enquadra no masculino, no feminino, porque ela ousou ser mais que isso. Ela não se encaixou, não coube nas normas sociais. O que matou Lacraia não foi AIDS ou qualquer doença crônica que conste na Organização Mundial da Saúde. O que matou Lacraia, e continuará matando, infelizmente, todos os dias, é outra doença crônica que, por ser produto da sociedade, é considerada uma doença social: o preconceito.

Lacraia não morreu em função da falência de seus órgãos ou em decorrência da desfunção de coração. Lacraia foi assassinada! Sim, assassinada cruel e brutamente por programas como o "Patrulha da Cidade". E ela mesma, defunta, continuará a ser assassinada, morte sobre a morte, dia após dia, enquanto programas dessa estirpe continuarem a desrespeitá-la, destituindo-a de um direito tão fundamental, que é o direito de morrer, privando-a da dignidade na hora da partida.

Por outro lado, é de suma importância lembrar que a morte da Lacraia não é destino manifesto. A esperança de fazê-la viver está nas nossas mãos. Sim, nós já fomos capazes de eternizar tanta gente bacana, representativa, gente que iluminou nossas vidas com tanta alegria e emoção. Ou alguém duvida que Cazuza ainda viva? Eu creio que Renato Russo também está entre nós, assim como Tom Jobim, Jorge Lafond, Noel Rosa, Cássia Eller, e tantos outros, tantas outras artistas.

Vai, Lacraia! Vai em paz, Libélula do Bem! Seja feliz e transmita a alegria de viver aí, do outro lado deste palco da vida, estando certa de que você, enquanto estrela, continuará a brilhar, seja aí, seja cá, nos nossos corações!

***

Se você também se sente indignado ou indignada com a abordagem sensacionalista do programa "Patrulha da Cidade", manifeste-se. Escreva para eles! Mostre sua rejeição a esta prática. Eu fiz isto e você pode fazer também. Hoje, Lacraia é cada um de nós. Clique AQUI para acessar o site deste programa e deixar a sua manifestação de repúdio.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

O pastor e o diabo na Terra de Santa Cruz


Hoje eu estive com uma pessoa de minha família que me é muito amada. Infelizmente ela possui um defeito quase congênito: é crente! Digo "crente" no sentido mais piegas do termo. Eu sei que por baixo da estrutura assembleiana repousa um coração amoroso, e muitas de suas palavras condizem com tal sentimento. Mas é tão incoerente quando esse amor encontra uma doutrina fundamentalista meio louca... É em nome do amor que sinto, e pelo amor que eu sei que existe naquele coraçãozinho, que dá pra relevar. Mas como é difícil a tarefa do "fazer-que-não-ouve"! Eis o motivo da minha inquietude.

Esta pessoinha a quem eu tanto amo tem um parente que é da curimba. Sim, bate um tambor desde que me entendo por gente. O camarada já foi alvo de inúmeros ataques verbais de fundamentalistas religiosos evangeloucos, muitos dos quais parentes seus, mas ainda sobrevive com seu terreiro. Não vou dizer que o camarada é o mais confiável dos humanos, porque não é. Talvez não seja o mais honesto, mas em tempos (e templos) iurdianos ser desonesto é quase um elogio. Mas, que raios! Está lá o pobre homem sobrevivendo até hoje com seus trabalhinhos, sua macumbinha, seus batuques que quase não tocam mais. Bons tempos aqueles da minha infância, quando nós tínhamos medo de dormir por causa da festa do terreiro. Dormíamos apavorados porque diziam: "Hoje a macumba tá que tá". E, apesar de eu não ser nenhum douto em religiosidade afro-brasileira até os 10 anos de idade, e não ter a menor ideia do que significava "macumba", sabia que aquilo ali era algo digno de temor. Todo mundo tinha medo. Por que eu não teria?

O fato é que o dito pai-de-santo resolveu pedir a um parente seu, que é pastor, para celebrar um Culto em Ação de Graças pelos seus 60 anos! Ora, o convite até que foi bem aceito, até que... pasmem! - a condição para que o pastor celebrasse o culto - pasmem de novo! - era que o babalorixá aceitasse Jesus! A pessoinha que tanto amo me contou a história indignada, certa de que a celebração dos 60 anos do pai-de-santo realmente deveria vir acompanhada de sua renúncia à religião. Eu não quis contrariar, mas achei a atitude do pastor de uma petulância, de uma superioridade tão medíocre, que o vômito me veio à boca imediatamente.

- Se ele queria agradecer a Deus, tudo bem, mas agradecer a Deus e ao diabo, não dá. E ele ficou com raiva! - dizia minha pessoa amada - Como se fosse uma obrigação celebrar o culto! Se ele não quer aceitar Jesus, é um direito dele, não é obrigado a fazer isto. Da mesma forma, o outro também não é obrigado a fazer culto algum.

Eu não quis criar polêmica, mas como minha língua aguça, não me contive:

- Eu não sei se ele quer agradecer ao diabo. Ele nunca me disse isso...

Ao que a pessoa rebateu:

- Lucifer! Significa "Anjo de Luz", era um anjo que vivia com Jesus no céu e que queria ser maior que Ele. Então ele foi expulso e Jesus lhe deu um outro nome, "Satanás", o diabo.

Eu estava completamente atônito. E, pior, não podia discutir. Era o lance que eu disse, do amor, e bla-bla-bla... Descobri hoje que o pai-de-santo queria agradecer a Lucifer que, a meu ver, só faz sentido na mitologia cristã. Ou nem nela, mas que seja! Pior que isso foi o fato de um pastor se recusar a celebrar um serviço de Ação de Graças devido a origem religiosa de uma pessoa. Achei aquilo tão deselegante. O engraçado da história, é que a máxima de que "venha como estás" foi pra escanteio há muito tempo! De cristão, o pastor, por esta atitude, nada possui. Se acaso o pai-de-santo resolvesse entrar numa igreja, durante o serviço, seria ele expulso do templo? O pastor deixaria de celebrar o culto ou de entoar louvores de adoração e agradecimento a Deus porque há um pagão entre os membros? Se não convém interromper o serviço pela chegada de um não-cristão, das duas uma: ou o pastor nunca leu Mateus 13, e nada conhece sobre a Parábola da Semeador, ou realmente não são bem-vindos nas igrejas cristãs aqueles que não compartilham de sua fé. Prefiro apostar na segunda hipótese. É ela que me faz desmascarar o discurso hipócrita que é sustentado de cima dos púlpitos, de onde se fazem apelos e convites para que as pessoas "aceitem" Jesus, com o único objetivo de algariar almas em cifras. Pois se a verdadeira liturgia se faz fora do templo, a atitude do pastor deveria ser celebrar o dito culto, sim. Claro, afinal não seria isto que ele faria caso o pai-de-santo fosse até a igreja? Então, se ele se recusa a celebrar na casa do pai-de-santo é porque, ao meu ver, ele não não está preocupado em celebrar um culto de agradecimento a Deus, mas em fazer uma guerra santa contra o diabo, esse ser tão supremo, tão onipotente e tão... tão... chifrudo!? Sério mesmo? Enfim, fato é que pouco importa pra ele o sentimento do fiel, do crente, do pagão, do ímpio, do gentio, do raio-que-o-parta! Não interessa que tenha partido do coração do homem a vontade de agradecer a Deus. Mas porque este homem possui uma outra religião, está excluído da oportunidade de agradecer a Deus! Tal como aqueles que não podiam adentrar o templo em Israel, porque eram impuros! Definitivamente, a igreja evangélica exclui! E se não exclui, está sendo hipócrita. Diz que aceita, acalanta, acolhe e, quando tem a oportunidade de mostrar a aceitação, o acalanto e o acolhimento, recusa-se por se considerar mais digna de Deus. Ao resto da humanidade, que se contente com o diabo.

Eu não estou aqui querendo fazer apologia ao proselitismo religioso. Não estou aqui enveredando pela corrente de pensamento que afirma que os cristãos devem pregar a Bíblia para as pessoas a fim de disseminar a salvação, como se esta fosse um fertilizante pulverizado sobre um jardim humano. Minhas convicções religiosas passam longe dessa pregaçãozinha de botequim! Tampouco quero aqui sustentar que o cristianismo deva ser acolhido por pagãos de uma forma ou de outra. Não! Particularmente eu acho que é até bem-feito pro pai-de-santo pedir esmolas a alguém que sempre o alfinetou. Parece-me que ele está agora decidido a procurar um padre. Melhor assim. Quem sabe este não seja mais solidário em realizar um desejo humano e verdadeiro do pobre pai-de-santo. O que eu quero realmente é trazer a reflexão sobre duas coisas: a primeira, o afastamento visível da igreja evangélica de sua verdadeira missão enquanto Igreja de Cristo, isto é, semear o Amor. E ponto. A segunda coisa, é a petulância, a arrogância, a superioridade ignorante que faz com que umas pessoas, as cristãs, sejam as pessoas que escolheram Deus, enquanto as outras, as não-cristãs, são entregues à sorte do diabo, do inferno, de Satanás ou Lucifer. Aliás, é curioso essa história de Lucifer, porque o terreiro do pai-de-santo é um terreiro de candomblé. Perguntei à minha pessoa amada, almejando a confirmação de que era, de fato, um terreiro de candomblé. E era! Não me contive e perguntei o que fazia ali o tal Lucifer. Claro que a resposta não podia ser melhor: o Capiroto estava fazendo companhia ao Boiadeiro, à Pombagira, ao Caboclo, ao Tranca-Rua... a pobre da Oxum, coitada, deve estar agora, chorosa, voltando para África, com medo de inexistir!

Por fim, antes que esqueça, e também pra fazer jus ao título, uma curiosidade latente à minha cabeça. Talvez o tal pastor, ou outro qualquer, tendo a oportunidade de me ler um dia, possa me responder: por que com tanta injustiça no mundo, com tanta fome, tanta miséria, com guerras explodindo em cada canto deste planeta, com assassinos seriais transitando livremente, terroristas se inflamando, com o Silas Malafaia e o Jair Bolsonaro à solta, e o Oriente Médio beirando o caos... enfim, com tanta coisa de ruim nessa bola gigante e azul, que é a Terra, o diabo realmente tinha que baixar aqui, logo aqui, no terreiro de um bairrozinho chinfrin de Duque de Caxias!?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

É isso o que a gente quer dizer com HOMOFOBIA

Amigas e Amigos,

Tá difícil compreender!

O debate se polariza, grupos libertários e direitistas entram em choque de opinião. O deputado vocifera barbaridades em rede nacional, milhares de pessoas aplaudem o parlamentar, outras protestam nas ruas.

E você, em meio à crise ética que se instalou na Câmara dos Deputados, admite que o preconceito de fato existe no país, mas não/jamais/nunca é proveniente de você ou da sua família.

Sua opinião tende a ser sempre a do "mas também". Sim, eles sofrem preconceito, mas também... a) procuram; b) dão pinta; c) são preconceituosos entre eles mesmos; d) não querem se arrepender de serem o que são.

Seu coração se sensibiliza com a dor, mas reluta em se libertar dos dogmas religiosos que insistem em condená-los ao inferno.

Os tempos de Moisés são ultrapassados demais para que aceitemos a poligamia (Deuteronômio 17:17; 21:15; Levítico 18:18) ou para que condenemos o camarão na nossa ceia (Levítico 11:10 a 12), mas incrível e paradoxalmente é super atual para os versículos que os tornam "fora da Lei", marginais, excluídos. Neste caso, Lei com L maiúsculo mesmo, porque trata-se da eterna e inquestionável Verdade Bíblica, a Palavra de Deus. E você evita debater o tema, confortando-se na sua roupa da moda de algodão e poliéster (Levítico 19:19).

Tudo bem, dá pra entender. Einstein dizia que é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito. Por outro lado, o mesmo Einstein disse também, certa vez, não saber como seria a Terceira Guerra Mundial, mas que certamente a quarta seria com paus e pedras. Será o início da Quarta Guerra Mundial? Se for, certamente o início dela é aqui, no Brasil.

Tudo bem, dá pra entender. Com muito esforço, dá pra entender. A gente entende a ignorância. A gente entende que é a ignorância não entende a gente. É seu direito, dá pra entender.


Mas olha aqui! Só um minuto. Já que não custa nada, absolutamente nada, aprender mais um pouquinho, que tal você abrir mão da ignorância e se libertar das amarras do preconceito neste momento? Por uma causa nobre, muito nobre, tente entender.

É claro que o assunto é bastante complexo, polêmico, "complicado". Tá certo! 1 x 0 pra você! Existem detalhes, uma discussão enorme acerca da sopa de letrinhas, uma série de subdiscussões internas sobre o assunto, talvez complicadas demais para pessoas leigas como você. Mas para começo de conversa, acho que o que segue abaixo vale como introdução para este tema. Então, pra te ajudar a entender, entre outras coisas...






...é isso o que a gente quer dizer com HOMOFOBIA:










Jocivaldo Alves, travesti, 26 anos, Ubatã (BA)

Reinaldo Davino, travesti, Maceió (AL)

Walberty, travesti, 16 anos, Simões Filho (BA)

Alexandre Ivo, 14 anos, São Gonçalo (RJ)


Veja aqui mais imagens da epidemia do ódio no Brasil - Fonte: Grupo Gay da Bahia

Veja aqui a tabela dos assassinatos de LGBT's em 2010 - Fonte: Grupo Gay da Bahia



Se você é solidário(a) a esta causa, encaminhe o conteúdo desta postagem para seus amigos da sua lista de e-mail. Certamente alguém nela precisará ver o conteúdo desta mensagem.

PELO CASAMENTO CIVIL ESTENDIDO TAMBÉM AOS LGBT'S
PELA CASSAÇÃO DO DEPUTADO JAIR BOLSONARO
PELA CRIMINALIZAÇÃO DA HOMOFOBIA
PELO DIREITO DE AMAR QUEM QUISER
PELA APROVAÇÃO DO PLC 122/06

PELA LIBERDADE DE SER


PELA VIDA


sábado, 2 de outubro de 2010

Não voto em evangélico!

Daqui a algumas horas decidiremos o futuro político do nosso país. Neste domingo, 03 de outubro de 2010, cerca de 135 milhões de brasileiros e brasileiras se destinarão às suas respectivas zonas de meretrício eleitoral. E eu não farei diferente. Irei lá dar a minha apertadinha. Meter o dedo, por assim dizer. E meu critério que há tempos venho professando pelas minhas redes sociais é não votar em evangélico.

E vocês, leitores e leitoras, não fazem ideia do tamanho da polêmica que criei quando ousei postar isso no subtítulo do MSN e no status do orkut. Através do MSN, dois ex-alunos e um colega (ou ex-colega) de teatro vieram me criticar, posto que são evangélicos. Um amigo gay surpreendentemente me abordou por este mensageiro dizendo estar estupefato com minha simples frase. Apenas um único amigo, também do teatro, viu a frase de maneira positiva. Pelo orkut choveram críticas, e todas elas muito pouco originais pois caíam sobre a mesma assertiva: isto é preconceito.

Por isso decidi escrever esta postagem. Não em tom de satisfação, porque a essa altura da vida não preciso bater cabeça pra nenhum mentor político. O voto de cabresto já se passou há muito! Minhas convicções políticas não precisam se explicar; o mundo que se contente em aceitá-las ou não aceitá-las. Escrevo em tom de resposta, quiçá de provocação.

Não vou aqui fazer a linha "politicamente correto", não. Quer achar que a frase é preconceituosa!? Que ache! Que seja preconceituosa, então. Mas o galhardão do meu voto, esse grupinho evangelouco não vai ter mesmo. E tenho muitos motivos para não dar o meu voto para os "irmãos" em Cristo. Quais sejam, são criticáveis. Mas não pretendo mudá-los até a hora de votar, para a infelicidade dos crentes.

Primeiramente, antes que me perguntem por que diabos eu não voto em evangélico, eu reformularei a pergunta: Por que eu devo votar em evangélico? Por que são bonzinhos? Será isso? Por que possuem bons valores? Talvez os bons valores em reais que se amontoam nos cofres não confiados ao fisco, que a cada dia engordam mais com as somas de dízimos e ofertas de um povo que barganha o pão de cada dia, de um povo até inocente em sua fé, ingênuo na vida espiritual. Por que eu devo votar em evangélico? É preciso mesmo ser evangélico para ser leal, honesto, bom caráter, digno? Eu não vejo, a princípio, nenhum motivo que me leve à necessidade de votar exclusivamente em evangélico. Não vejo nada neste povo que mereça a exclusividade do meu voto. Então, antes de qualquer coisa, não desacredito nos bons valores evangelicais e sei que existem excelentes pessoas que são evangélicas. Mas acredito que existem também excelentes pessoas umbandistas, ateias, budistas, bahai's, agnósticas, católicas, hindus, xintoístas etc.

O meu problema não é o evangélico em si (na verdade, é também! rs rs rs... mas não para esta questão, em outro momento falo sobre isso! ), mas o evangélico candidato. O político evangélico. Aí, ao meu ver, está a desgraça. A desgraça política, esclareça-se. Porque acredito que a Graça do Senhor é pra todos e todas. Até para o evangélico. Certa vez me perguntaram: "e se você não souber que o candidato é evangélico!?". Bom, neste caso eu acho ótimo. E, na minha consciência, não estarei votando em evangélico. Portanto estou sendo coerente, assim como o(a) candidato(a), que usou da coerência e do bom senso e não declarou publicamente a sua fé.

E qual o problema em declarar a fé evangélica? Bom, em se tratando de política, um problema grande! Não tenho base teórica para provar isto, mas desafio aos que discordarem que me provem cientificamente se estou errado: evangélicos tem tesão em votar em outros evangélicos. Eu me pergunto: "Senhor, por que!? Tu deste o cérebro, o que estão fazendo com ele? Perdoai, Senhor, porque eles não sabem o que fazem". E a coisa é tão alarmante que se torna óbvio votar em outro evangélico. Dia desses eu vi numa igreja supermeganeopentecostal aqui perto de casa um banner de três metros de altura de um candidato ao lado daquele pastor da toalhinha... (aliás, que toalha imunda e fedorenta deve ser, não? higiene zero!). No banner, o pastor pedia votos para o dito cujo. Mas como assim? Se por muito menos o próprio Jesus desceu o barraco em Jerusalém, imagina se o Homem volta e encontra essa politicagem em Sua Casa!

O argumento dos fiéis é que precisam eleger pessoas de Deus pro Congresso. Bom, tudo bem. Mas assim... por que o Marcelo Crivella, por exemplo, que é acusado de crime contra o Sistema Financeiro e falsidade ideológica é considerado "de Deus" e o Zé das Couves, mandingueiro lá do interior do Ceará, não é? A gente nasce com uma etiqueta dizendo Made by God? E, se a princípio Ele é o Criador, por acaso não criou o Marcelo Crivella, o Zé das Couves, você, eu, e todos os que habitam este planeta!? Que história é essa que Fulano é de Deus!? Posso supor então que há quem não seja de Deus... e que, por acaso - apenas por acaso - é alguém que não faz parte da coligação partidária do pastor-candidato. Hummmm... muito suspeito!

Olha, pra ser bastante sincero eu acho que os evangélicos podem se candidatar. É direito! Mas os de boa índole, que não participam deste jogo sujo da política e agem mediante os interesses da coletividade (e não de uma classe restrita de cidadãos do Reino de Deus), sinceramente não deveriam sequer manifestar publicamente (em programas eleitorais, em santinhos, em folhetos) que pertencem a uma determinada religião. Se a religião é pessoal, e se o projeto é para todos, qual a razão para dizer que é cristão ou cristã, da igreja tal ou qual? Com certeza não é para ganhar pontinhos no Céu; há interesse político aí! Pra mim isto é muito claro...


Não vou mais titubear e serei breve. Quero finalizar esta postagem ainda hoje! Os dois últimos e maiores motivos que me levam a não votar em evangélicos são:


* tcham * tcham * tcham * tcham *


Evangélicos querem "converter" o Congresso inteiro! Evangélicos acham que a missão deles é converter o mundo! Evangélicos acham que pregar o Evangelho é "conseguir almas" para Deus, como se a tarefa de "converter" lhes coubesse, e não a Deus. Acaso não é Cristo quem escolhe os seus? Mas o medo do inferno é tão grande que é preciso registrar uma a uma as almas que foram "convertidas" ao Senhor. E, se assim é, convém colocar nas pautas políticas, nos assuntos do Povo, nas leis e nas cadeiras do Plenário pessoas que também comunguem deste ideal, pessoas que também busquem dominar o mundo... "em Cristo"! E nisto a laicidade do Estado vai por água abaixo... O Estado Brasileiro é laico. Ou pelo menos deveria ser. E eu me recuso a votar em pessoas entendem a laicidade do Estado como o estado diabólico do Estado. Estado laico não significa que o Estado é do diabo. Apenas não é de Deus. E não tem que ser mesmo. De nenhum deus. E tenho certeza Ele entende muito bem que religião não deve se assentar sobre a Casa de Leis. E quer saber? Acho que Ele prefere assim. Tanta desgraça já se fez quando a religião se assentou sobre a Lei!


Por fim, ainda há um motivo bem razoável para não votar em evangélico: as propostas políticas não me contemplam. Não se engane! Porque os evangélicos-candidatos não estão se enganando. Eles estão muito bem articulados e possuem claramente um projeto de poder que se articula diretamente com as propostas defendidas ou repudiadas por eles. Por exemplo, a questão do casamento homossexual é um tema que vem despertando a ira dos religiosos. nos debates políticos. Segundo eles, esta união abalaria a "família", como se homossexuais não tivessem e não formassem famílias. Como se existisse apenas um modelo de família, aquela do comercial de margarina que não existe há muito no Brasil. Ou você realmente acha que a família brasileira é assim, todos brancos, louros, reunidos em torno de uma mesa farta, pai e mãe, dois filhos limpos e sorridentes, em uma casa incrivelmente asseada e a felicidade estampada em cada olhar?


Ora, ora... a família margarina dos evangélicos é a minoria no Brasil. Nós, brasileiros, somos da família dos sem pais, onde os filhos são criados pelas avós, ou são deixados nas ruas para aprenderem a ser malabaristas nos sinais de trânsito e a ser palhaços na estrada da vida. A família brasileira é aquela chefiada por mulheres, porque o homem "cabeça" da casa abandonou a família, se é que um dia a conheceu. A família brasileira mal tem o que comer, mal tem o que vestir, e se arranja sem cerimônia de casamento. Nossa família é a família do jeitinho, que se equilibra entre as regras estabelecidas pra poder sobreviver. E ninguém usa a Bíblia pra poder dizer que a poligamia é bíblica ou que a liderança feminina da família não está na Lei de Moisés, sendo, portanto, uma abominação. Mas quando se trata da união de dois homens ou duas mulheres, imediatamente lembram do Livro Sagrado, quando, na verdade, não deveriam lembrar, já que a união não é religiosa, mas civil.



A crítica à descriminalização do aborto é outro prato cheio dos evangélicos-candidatos, e é também algo que também não me contempla. Não porque eu não seja mulher, mas porque não contempla meu modo de pensar a vida. Vejo malediscência quando este debate chega à mídia através destes programas religiosos de TV, atacando pessoas que são "a favor do aborto". Ora, a questão não é ser a favor ou contra o aborto, mas a favor ou contra descriminalizar a atitude de mulheres que recorrem a esta prática. Quem não faz aborto continuará não fazendo. Assim como quem não gosta de cigarro não passa a gostar simplesmente porque é lícito. Mas se a mulher precisar fazer este procedimento, que não recorra a clínicas clandestinas que lucram milhões com a ilegalidade. A ideia da descriminalização do aborto é simplesmente controlar uma prática que já existe. Não se trata de incentivar! Trata-se de impedir a morte de milhares de mulheres. Mas sabe por que isto não é relevante para os evangélicos? Porque mulher e lixo se confundem deste que o mundo é mundo. Para a grande maioria dos religiosos, lugar de mulher é abaixo do homem. E não se surpreendam: se homem pudesse engravidar, o aborto não apenas estaria descriminalizado, mas já seria obrigatório.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sem Pecado entre o Leblon e o Vidigal

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Ele fica na expectativa da data esperada. À tarde, sai mais cedo do trabalho e planeja comprar o presente que possa agradar a quem lhe quer bem. Sai às ruas e às compras e em meio à indecisão que é só sua, escolhe o agrado para felicitar sua caríssima-metade.

Vai pra casa, e como sempre se distrai em meio à liberdade que sua casa lhe confere. Brinca com o cão, que é seu filho, descansa e dorme. Quando acorda, faz uma leve refeição e se prepara para sair. No banheiro, antes do banho, faz os preparativos do limite da barba e de todas as demais regiões que apenas os mais instruídos sabem identificar a respectiva necessidade. Se banha e perfuma. Extrai os pelos que sobrepujam em seu corpo, porque assim bem lhe agrada.

Apressado, atrasado, sai de casa e abastece o carro e esquece o vinho. Na estrada, sente o estresse do trânsito e do tempo que em cada minuto se torna mais curto. O celular toca e ele atende. Justifica. Depois de quinze minutos, o celular é tocado, mas no outro extremo da linha. Explica. Segue. Desorienta-se depois do Rebouças.

Na marca de outros quinze minutos de tolerância ele chega. Telefona e espera. Abre a porta do carro e recebe uma mochila e uma sacola laranja. Neste momento, percebe que deveria ter levado o presente que comprara à tarde, mas este teria ainda que esperar dois dias para receber seu devido destino.

Dali partem para um restaurante. Conversam, conversam, conversam. Erram o caminho. Vão e voltam, dão um giro pela cidade e se reencontram no caminho de volta e chegam. No carro, ele recebe de presente a sacola e descobre que o presente era o resultado de um desejo manifesto em um desses passeios a Petrópolis em algum feriado religioso. Ali se beijam.

No restaurante, numa famosa rua das Laranjeiras, gozam das delícias da culinária japonesa, com um certo medo de parecerem alheios ao lugar. Percebem que o cupom do desconto era quase desnecessário, e arcam com a despesa sem o abatimento de dois reais da promoção do estabelecimento.

Fartos e satisfeitos, rumam à Avenida Niemeyer, e descobrem que o Vidigal é parte do Leblon e vice-versa. E que, embora separados pela denominação de bairros diferentes que possuem, são dois lados extremamente opostos da mesma moeda. E assim, depois de racionalizarem as diferenças sociais de um lugar e de outro, entram onde não existe pecado.

Lá, banham-se, escaldados por jatos de água quente que apimentam aquilo que o perfume da sacola laranja já prenunciara. O chuveiro quente logo se conflita com a cerveja gelada com a qual decidem brindar a data que para ambos é tão significativa.

Ao chegarem ao altar do desejo, deliciam-se com os filmes que não cabem em seu universo, senão para se rirem das cenas que para eles são tão obtusas. A hora avança e eles percebem que não há mais nada o que perceber, e decidem não mais adiar o que ambos os corpos desejavam. E se amam compulsivamente.

A madrugada cai sobre seus olhos e eles não percebem o dia que invade aquele lugar sem pecado com cheiro de chuva. O frio pede o calor do vapor d'água e então ambos resolvem desfrutar e relaxar na quente saleta apropriada para tal. E então um maldito telefone toca pra dizer que o tempo acabou.

Dali partem para o mirante e fotografam a paisagem como registro do dia que marcou para ambos os dois anos de sua história.

E a vida seguiu ao longo do dia, como se a manhã do Vidigal ou do Leblon não tivesse acontecido, como se aquele dia - sendo o mais atípico dos dias - brincasse de ser fantasia e eternizasse a noite anterior nas lembranças dos arquivos secretos guardados na memória e no coração.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Viado virou vírgula!

Na última quinta-feira eu estava caminhando perto de casa, rumo ao trabalho. Perto de onde moro, costumam os rapazes jogar partidas de futebol nos campos improvisados que são as ruas caxienses. Neste dia eu precisei atravessar um desses campos e me chamou a atenção quando um dos guris exclamou: "Para a bola, viado! O moço tá passando". Que 'viado' fosse troféu usado nas partidas de futebol para se xingar o juiz, o zagueiro ou o goleiro, não é novidade. Mas esse novo 'viado' soou diferente. Ou, antes, se 'viado' viesse depois de 'moço', estaria no plano da lógica entender que a bola da vez seria o maldito do pedestre que atravessou a partida, seja porque eles querem xingar a esmo o chato que atrapalhou a pelada, seja porque eles de fato acreditam que o filho da puta que adentrou o jogo de futebol é, de fato, 'viado'; neste caso: eu.

Mas os rapazes utilizaram 'viado' como quem diz, 'parceiro', 'companheiro', 'rapaz'. Dizer 'Para a bola, viado!', naquele contexto, era o mesmo que: 'Para a bola, rapaz!', 'Para a bola, parceiro' ou uma série de desígnios que poderíamos ainda, se quiséssemos, enumerar: 'sangue', 'fera', 'brother' etc.

Isso é bastante significante se considerarmos a história da homofobia no nosso país. Trata-se de uma mudança de paradigma e uma evolução da semântica do termo 'viado'. Parece que o tempo se encarregou de transformar o que era negativo em positivo. O tom pejorativo, de segunda classe, de subcategoria, de gente inferior, foi ressignificado nas partidas de pelada no alvorecer do século XXI, nas ruas de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, região relativamente pobre do Brasil. E não me consta que algum daqueles moleques que se divertiam fosse homossexual, ou aparentasse sê-lo (também como haveria de me constar? Acaso a aparência ou a atividade esportiva de uma pessoa pode designar a sua orientação sexual?).

O fato é que hoje em dia 'viado' virou vírgula na boca dos heterossexuais. Amigos, colegas de bar, parceiros de chopp e de peladas, todos não poupam esforços ao se referirem uns aos outros como 'viado', atribuindo um sentido positivo à palavra. A tempo, saliento que, quando digo sentido 'positivo' não estou querendo dizer que ser homossexual é per se algo negativo mas, antes, que a intenção do comunicante ao proferir o termo não é jocosa, de escárnio ou de humilhação. Não é, portanto, negativa. E hoje esse sentido positivo de 'viado' merece ser levado em conta. Não, não estou me enganando quanto à atribuição de negatividade à palavra nos dias de hoje. Sei que ainda assistimos, em contextos variados, garotos sendo chamados de 'viado', sem que haja intenção de elogiar ou estabelecer relação de parceria: a ideia é ferir, mesmo. A escola, a igreja e a família ainda tem o estigma do animal chifrudo e saltitante, aquele bichinho que virou sinônimo de ser inferior.

Por outro lado, se hoje se vê e ouve 'viado' por todos os lados, positivamente, o mesmo não se pode dizer da palavra 'bicha', por exemplo. À exceção das relações que se estabelecem entre a população LGBT ou entre esta e uma raríssima casta de heterossexuais não-homofóbicos, a palavra 'bicha' ainda não alcançou, em nenhum tipo de relação informal, a merecida ressignificação. Se existe uma explicação para o tal feito? Logicamente há. Se porventura você não percebeu, o 'viado' é masculino; a 'bicha' é feminina. A questão de gênero perpassa os debates em torno da diversidade sexual. Não é mero acaso. Está para nascer o dia em que o feminino seja usado pelos heterossexuais em partida de futebol como elogio, como sinônimo de amizade, de coleguismo.

Fenômeno semelhante se observa ao se xingar um indivíduo quando a ira acomete aquele que profere o xingamento, inclusive, quando o alvo do xingamento é um juiz de futebol e o ofensor é um torcedor. Não são poucas as vezes em que já ouvi em jogos, torneios, copas do mundo, amigos irados xingando o árbitro de 'filha da puta'. Observem: 'filha', no feminino. Podem alguns gramáticos explicarem o fenômeno como simples erro de concordância nominal; ou linguistas dizerem que é mais fácil 'filha' concordar com 'puta', do que 'filho', no masculino. Eu, porém, que não sou nem gramático nem linguista, procuro pautar minha explicação na minha área de formação, que é a História. E ela me mostra, através das experiências ocorridas no passado, que o presente é resultado desse pretérito preconceituoso que construímos, que a homofobia tem raízes na formação desta sociedade patriarcal, que o sexismo vem sendo construído através dos paradigmas da heteronormatividade e do machismo, e que muitas barreiras foram colocadas abaixo justamente porque a 'sociedade do presente' questionou as bases da 'sociedade do passado'.

E é com esperança na História que espero, um dia, passar no meio de uma partida de futebol e ser chamado de 'bicha', sem que haja nesta palavra o sentido negativo e humilhador que possui hoje, um sentido perverso e homofóbico, um título vexatório imputado forçosamente a muitos LGBTs (e também a não-LGBTs), título este ostentado nas marcas roxas dos olhos constrangidos de muitos homossexuais, privados publicamente do direito de ser quem verdadeiramente são.

terça-feira, 30 de março de 2010

Nem tudo que é Dourado reluz: uma reflexão sobre a final do BBB10

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias

Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht

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Deixei para escrever este texto às vésperas da última eliminação do Big Brother Brasil 10, não por mero acaso. Daqui a algumas horas teremos o resultado do vencedor do reality show, e a vitória de Marcelo Dourado no jogo é, praticamente, inevitável. E não estou sendo pessimista. É com pesar que escrevo este texto, e não deixo para escrevê-lo amanhã para que a certeza do que falo seja evidenciada quando o resultado do programa, daqui a algumas horas, anunciar o vencedor.

Particularmente não sou acompanhante assíduo do Big Brother, cujos personagens tomei ciência há pouco. Mas é possível identificar no jogo algumas semelhanças e paralelos com outras edições anteriores. Entre as semelhanças, a que mais me chama atenção é uma característica específica: que o vencedor do programa, via de regra, seja uma vítima! Uma vítima forjada nas ilhas de edição, diga-se, mas ainda assim uma vítima. Alguém que merece ser, de alguma forma, recompensado, de maneira que a justiça seja feita, pelas próprias mãos (dos expectadores). Lembro-me de algumas poucas edições e em todas elas a vítima surge: no primeiro Big Brother, o participante Kléber-Bambam foi recompensado por sua ingenuidade, sua característica principal Um ar um tanto pueril que faria jus aos mais clássicos textos de Rousseau. Na segunda edição, o caubói mereceu o título porque era vítima dos demais, no sentido de ser roceiro, caipira, do interior. Justiça fosse feita, e o boiadeiro recebesse o troféu merecido. A edição que contou com Dhomini, outro dos vencedores, guarda semelhanças com o atual Big Brother, e veremos depois por quê. Seu estilo cafajeste cativou os milhares de brasileiros que lhe recompensaram por ser uma pessoa boa, apesar de seu instinto mulherengo. Ganhou o “apesar”. O mesmo se deu com a participante de Mangaratiba/RJ, a vítima da sociedade que teve a chance de ingressar no jogo devido a um sorteio, sem análise de perfil. Pobre, representava grande parte da população, principalmente da população feminina, já que a vencedora era mulher, e nenhuma outra mulher havia ganhado o prêmio milionário até então. Com Jean Willys a história se repete, e o professor homossexual assumido precisou ser recompensado pelos dias difíceis que passou em sua vida, em sua trajetória de sucesso e superação. Jean era professor, instruído, inteligente e articulado. Seu baluarte não era sua homossexualidade; antes, sua história de vida, de sucesso.

Vocês podem me perguntar por que estou dissecando as outras edições do Big Brother, por que abri o texto com o poema de Bertold Brecht, e o que toda essa história de vitimização tem a ver com a atual edição do Big Brother.O caso é que a vítima, nesta edição, e ao que tudo indica, é Marcelo Dourado. Mas vítima do quê?

Em primeiro lugar, vítima do próprio jogo. O participante saiu noutra edição do programa e agora teve mais uma chance de mostrar o seu valor, fosse ele qual fosse. Em segundo lugar, “vítima” de uma corrente de pensamento crescente a favor da diversidade e da aceitação do outro. Esta edição do programa trouxe propositadamente às telas alguns guetos sociais, em cujos perfis os participantes do jogo eram obrigados a se enquadrar. Cada identidade foi suprimida em função do rótulo de Sarado, Colorido, Belo, Ligado etc. O público que recebe este tipo de informação pré-formatada não vê outra coisa no grupo dos sarados senão pessoas saradas e as julga por isso; no grupo dos coloridos senão coloridas, e sobre suas cores tecem seu julgamento; e assim por diante. Não se enxerga para além do rótulo. E nesse país que ostenta 198 mortes de homossexuais ao ano – mortos simplesmente porque eram homossexuais - não é de se estranhar que um grupo de coloridos cause estranheza demasiada.

A princípio imaginei que a intenção da emissora fosse politicamente correta ao abordar a diversidade. Ingenuidade a minha acreditar em imparcialidade de uma emissora que censura o beijo entre dois rapazes, escrito para acontecer em uma de suas telenovelas. Uma emissora em cujas novelas os atores negros servem apenas para desempenhar o papel de bandido ou de palhaço. Se de palhaço, ou porque o é em sentido figurado, isto é, como sub-personagem, dominado, auxiliar, quase sem aparições, quase sempre o estereótipo do pobre, empregado(a), pedreiro, escravo; ou mesmo no sentido literal, isto é, personagem cuja atuação não passa de comédia digestiva, o faz-me-rir fácil, o ridículo, o raso. Não, a Rede Globo não é imparcial. A intenção da emissora, de fato, é duvidosa quanto à distribuição dos grupos no Big Brother. Mas isto é briga de cachorro grande! Voltemos ao raciocínio anterior e expliquemos o que afinal o Big Brother tem a ver com Bertold Brecht.

Pois bem, como Brecht evidencia no clássico poema reproduzido na introdução deste texto, as grandes vitórias da humanidade nunca foram, e nunca serão vitórias alcançadas na solidão do próprio ser. Ao contrário, o dramaturgo e poeta denuncia a presença dos comuns, dos menores, daqueles anônimos cujos nomes não ganham as páginas dos livros de História, e sobre eles repousa o louro das conquistas dos grandes e famosos líderes; muitos dos quais, fizeram mais destruir do que construir.

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A vitória de Marcelo Dourado do Big Brother será comparável à vitória desses grandes líderes lembrados por Bertold Brecht. E não pensem que estou elogiando o participante, elevando-o ao pódio dos maiores nomes da história ocidental, porque não estou. Minha comparação consiste em refletir menos sobre a atuação de Dourado - que ao meu ver é mais um número - que sobre a contribuição dos anônimos na vitória do seu representante. Dourado é mais um na multidão. Não posso creditar a ele os méritos de sua vitória. Se tivesse que congratular, as saudações seriam dadas aos milhões de brasileiros que resolveram fazer justiça com as próprias mãos, recompensando sua mais recente vítima do jogo de realidade. Porém, que justiça é essa, afinal? Será uma espécie de contrapartida ou resposta em relação à vitória não muito bem tragada do homossexual Jean Willys, há algumas edições passadas? Ou será que os brasileiros resolveram presentear o participante ora eliminado, dando a ele a oportunidade (e a garantia) de permanecer no jogo? Meu palpite é que ambas as alternativas fazem sentido, porém um outro dado vem reforçar ainda mais a minha hipótese: Marcelo Dourado é porta-voz dos milhões de brasileiros cúmplices dos 198 assassinatos de homossexuais registrados em 2009. São esses milhões de brasileiros os que realmente saem do jogo como vencedores, e projetam em seu anti-herói a oportunidade de trazer a sociedade brasileira à “retidão”, ao “caminho correto”, ao “prumo”. Nossa sociedade é patriarcal e sexista, homofóbica e machista, heteronormativa e racista. Estas características estão implícitas em nossa estrutura. E, porque estão em nossa estrutura, não desaparecem num piscar de olhos, sobretudo quando os olhos não se piscam diante da televisão. Nosso preconceito estava adormecido, quieto e manso, mas ao simples anúncio de ruído – que era a presença ameaçadora dos coloridos – ele acorda, e aí faz-se necessário provar que o leão adormecido ainda vive, que o cajado do pai-de-família ainda machuca, e que lugar de bicha é embaixo da terra. Esta, a terra, não pode ser ameaçada em sua eternidade pelo mal que vem em cores. Explica-se, a partir da lógica acima, o medo e a aversão pela diferença, pelo amor entre iguais, pelos coloridos, pela força das mulheres. É isto o que se chama HOMOFOBIA, que em sua raiz é alimentada pela misoginia (isto é, o horror ao que é feminino).

Ao contrário do que muitos pensam, a homofobia não aparece apenas nos casos de violência física e morte, como evidenciaram os 198 assassinados em 2009. Na grande maioria das vezes, ela se firma nas atitudes despretensiosas e cotidianas, porque ela passa a ser legítima, justificada, de direito. O problema é que a legitimidade, a justiça e o direito não são isonômicos, nem bilaterais, nem equânimes. E seria um enorme equívoco trazer Brecht ao texto apenas para retratar Marcelo Dourado, quando se pode fazer mais que isso. Brecht mostrava a relação entre líderes e liderados, criticando – nas entrelinhas – o líder de sua época, Adolf Hitler, bem como os milhares de alemães que o apoiaram. O poema de Brecht não é conformista. Em outras palavras, o que se espera com ele não é que entoemos cânticos porque o povo brasileiro conseguiu eleger seu totem ao posto de “Grande Irmão”, mas antes, inspirar outros muitos brasileiros que lutam contra o que este “Grande Irmão” representa, outros muitos que brigam por justiça de fato, por direitos iguais, por isonomia, pelo direito à vida e à liberdade, pela cidadania plena, geral e irrestrita.

Marcelo Dourado poderá ostentar o título de “Big Brother”. Que seja o big brother vencedor; todavia, não meu. Não posso chamar de “brothers” pessoas com as quais não possuo o mínimo de afinidade, empatia, sintonia. Dourado de fato não é meu irmão; Não compartilho de suas ideias, discordo de seu modo de ver o mundo e as pessoas, repudio os símbolos nazistas tatuados em seu braço, disfarçados pela origem oriental na Antiguidade. Acho que ninguém nascido depois da década de 1930 tenha legitimidade para ostentar a suástica, por mais que sua origem seja bem longe e bem anterior aos campos de concentração da Alemanha. Isto é, para mim, no mínimo, falta de ética. Não tenho motivos para acreditar que ele seja, de fato, um “Grande Irmão”. Aqueles a quem tenho por irmãos sabem que é feio e covarde bater em mulheres; que respeito é discordar sem apontar e julgar; que AIDS não dá em poste, mas em seres humanos: homossexuais, bissexuais e heterossexuais. Meus brothers não são agentes da ignorância, mas pivôs do respeito, do conhecimento e do amor ao próximo. Por fim, Marcelo Dourado, mesmo ganhando o reality show da Rede Globo, não pode ser meu irmão; não bebemos da mesma fonte, não temos os mesmos gostos, nem os mesmos hábitos e nem a mesma educação, não descansamos sobre a mesma consciência e não sentamos juntos na mesma mesa. Até mesmo porque, cá entre nós, não suporto arrotos durante as refeições; a minha alma respira elegância, e o meu espírito, definitivamente, não é o de porco.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ser-Mulher: o pão e o vinho de Deus

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjs8bbksFu2T5YSCZ1onU80P-Cx7YyU7CD6bVDQbWY6YWqvWoV5jaBsAMdSb91w53EJhTBcV-5mI9o5HeJov2nXOKLAlMuBxauIJQmD2jBWo_TgDGr3WTy18Ai3XALnCDO7RIz9OJ_vLVca/s320/Eucaristia11%5B1%5D.jpg
"E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado em favor de vós." (Lucas 22:19-20)
Um grão caído na terra começa a germinar e é observado em seu crescimento por algumas mulheres que estão coletando na área: aí temos, provavelmente, a base da transformação [...] O homem não é o principal produtor. [...] O homem mantinha sua importância pelo significado que a carne tinha, pela sua relativa raridade até. [Porém] nas sociedades agrícolas, a mulher era quem semeava, colhia e preparava os alimentos, ficando os homens fora da produção direta. (Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/revolucaoneolitica.htm)

Não poderia abrir o mês de março senão por meio do assunto que mais enaltece esta época do ano: as mulheres! Elas que, contempladas com um dia em sua homenagem, luzem para o restante do mês sua energia, força, garra e gana.

O 8 de março é um dia de homenagem, sim, momento de parabenizar, congratular e mandar aquelas mensagenzinhas e correntes de e-mail, orkut etc. Mas o que me proponho no SAI NA URINA é mais que isso; é refletir sobre o significado do ser-mulher hoje, a partir dos referenciais que transformaram um simples dia do ano num marco referencial da luta dos direitos delas, as nossas musas.

Em primeiro lugar, eu não sou a pessoa mais apropriada para falar do significado do ser-mulher, posto que não sou uma delas. Porém, apesar do meu lugar de não-conforto, o que pretendo é refletir sobre o gênero feminino, o significado de se sentir mulher na nossa sociedade; é, portanto, uma reflexão a partir de um viés coletivo, e não individual.

E por que refletir coletivamente sobre gênero? Esta tarefa faz sentido porque, especificamente hoje, penso que não cabe o limite das flores, do rosa, das mensagens de congratulação. Hoje, refletir sobre o gênero feminino é trazer à memória toda uma história esquecida, uma história de vitória, uma história perdida nos caminhos da História. O senso comum costuma relegar o passado remoto feminino ao subjugo das mulheres ao papel masculino. Contudo, as mulheres foram protagonistas de uma das maiores revoluções da história humana: a revolução neolítica. Nesta época, eram elas as responsáveis diretas pela alimentação, pela seleção de sementes, pela domesticação dos animais, tarefas nada "femininas" por assim dizer. O uso da força muitas vezes era necessário, da força bruta mesmo! Nesta época, ou pouco antes, não existia a noção de deus-homem, mas da grande Deusa, a Grande Mãe, aquela que vem da terra, a que provê o pão - esse alimento tão precioso que, se hoje representa o corpo do Deus Criador, dAquele que se fez homem, representou outrora o produto de criação da mulher, aquela que se fez deusa.
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Sim, se hoje se come o pão, o Corpo do Filho do Homem, foi a mulher que o pariu, que o pensou, que o idealizou. Não por menos foi este o alimento escolhido pelo Deus Pai, talvez, para retificar a ideia de "Deus-Pai", e aproximá-la de "Deusa-Mãe". Ou, de outra forma, por que não escolheu o trovão, a chuva, as estrelas ou qualquer outro elemento da natureza para ser a representação do divino? Afinal não eram essas as representações do masculino, desde a "pré-história"?

Nas civilizações antigas, a figura masculina sempre foi ligada aos céus, ao passo que a feminina esteve ligada à terra (à exceção do Egito Antigo, cuja severidade do deserto, da terra, remetia ao masculino; e os céus, as bênçãos da chuva, do sereno, do orvalho, que traziam frescor, refrigério e acalanto, remetiam ao feminino). Por isso, ouso dizer que, se o pão e o vinho representam Deus, é porque Ele reconhece nesses elementos o quanto de Mulher existe no trigo e na uva, o quanto de Mulher há em Deus, ou o quanto de Deus há na Mulher! Assim, o próprio Deus enaltece essa figura emblemática, quase divina, suprema, magestática.

Contudo, a Mulher - que o próprio Deus escolheu para Lhe representar (pão e vinho, trigo e uva, agricultura, revolução neolítica), foi subjugada em nome desse próprio Deus durante séculos e séculos! Recentemente, há cerca de um século, movimentos feministas iniciaram a luta pelos direitos das mulheres. Suas manifestações por melhorias nas condições de trabalho; suas lutas pelo direito de expressão; as reivindicações de direitos sexuais; a emancipação em relação ao patriarcalismo; enfim, todas essas batalhas vem fazendo jus ao dia 8 de março, motivo desta postagem.

Minha reflexão, portanto, e como foi dito no início, não é sobre ser-mulher individualmente, mas no coletivo. Apesar de tanto se ter lutado, brigado e reivindicado, a desgraça patriarcal ainda prevalece na nossa sociedade machista, homofóbica, sexista. Se a mulher conseguiu o seu espaço, o feminino ainda permanece subjugado. Ser mulher é nobre; ser feminino é fraco. Ser mulher é nobre, mas mulherzinha ainda é ofensa; ser mulher é nobre; mas não para as travestis, que são ridicularizadas, inclusive por outras mulheres; ser mulher é nobre; se ela couber no universo feminino de passividade; ser mulher é nobre, se ela gostar de homem; ser mulher é nobre, se ela for Eva, pecadora, culpada, auxiliar, costela; ser mulher é nobre, mas ainda falta muito para que o feminino alcance a nobreza. Porque não adianta a sociedade "aceitar" o espaço da mulher nas múltiplas esferas, se nos meandros das relações humanas desta mesma sociedade, o que diz respeito ao gênero feminino ainda é visto sob o olhar de uma sub-categoria.

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E é nesse sentido que eu quis atrever-me a falar sobre o significado de ser-mulher no coletivo. Coletivamente, homens e mulheres perecem diante do sexismo; homens e mulheres são vítimas do machismo; homens e mulheres são promotores e/ou alvo de preconceitos de gênero; homens e mulheres permanecem inertes ao verem a criadora do Pão e do Vinho se tornar mais um número sem concordância na boca de milhares de foliões no carnaval do Rio de Janeiro: uma mulé, duas mulé, três mulé. Ou, em outros casos, reduzidas a cachorras, éguas e afins.

Contudo, não tenho propriedade para dizer que são erradas essas manifestações legítimas (posto que algumas vem das próprias mulheres, que dançam e cantam e vibram e...). A banalidade é também expressão da liberdade, faz parte. Mas, ao invés de condená-la, tentemos ir além dela: neste dia tão especial, que é o 8 de março, resgatemos a Mulher-Deus, tanto aquela que é pão e vinho, a agricultora, a criadora, a protagonista, a revolucionária; quanto aquela que é o próprio Deus, macho e fêmea em sua essência, Deus Pai e Deusa Mãe.

Esforcemo-nos no sentido de dar o primeiro passo para firmar o feminino no seu merecido altar de nobreza; e assim, faremos um mundo muito mais igualitário, onde homens e mulheres poderão dele gozar sob as barbas (ou os seios) de Quem livremente os criou.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Da descoberta do TOC

Feliz Ano Novo!!! Sem mais explicações: a primeira postagem deste ano é de fevereiro mesmo! Sim, decidi deixar o mês de janeiro por conta das férias, em todos os âmbitos, inclusive neste blog. Estou inaugurando o 2010 do Sai na Urina não com uma poesia, como fiz em 2009. Mas o tema é curioso, e faz parte de mim.

Vocês já devem conhecer algo denominado “Transtorno Obsessivo Compulsivo”, o chamado TOC. Eu não conhecia até que alguém me informou que eu parecia ser portador deste transtorno. O TOC consiste em uma mania de simetria, de exatidão. É a obsessão compulsiva pela certificação. Depois disso comecei a perceber o quanto o TOC faz parte de mim. É tanto, que seria impossível finalizar a explanação desta importante parte de mim apenas nesta postagem. Daí me veio a ideia de uma série de publicações com o mesmo tema. Esta é, portanto, a primeira delas. Mas vamos ao que interessa. Querem saber como descobri o TOC?

Foi trabalhando! Talvez seja porque sou virginiano, vai saber. O fato é que minha mania de perfeição por vezes fazia prolongar demasiadamente o tempo para concluir minhas atividades no trabalho. Horas pra montar um cartaz simples, simplesmente por causa de uma letrinha que não estava centralizada. Ao desenhar, não poderia restar uma sombra de grafite no papel. E se restasse uma nuvenzinha negra no canto esquerdo, outra similar deveria fazer a contraposição no lado direito. Nos murais que confeccionava, tinha discussões homéricas com a Maria Luiza. Sim, porque ela é avessa ao enquadramento. Tudo pra ela tem que estar como folhas que caem desordenadamente do céu após uma ventania. Pra mim, até na desordem há de haver ordem: se um cartaz está virado 30º à esquerda, necessariamente um outro cartaz com o mesmo ângulo, à direita, faria a composição do mural.

É uma questão de simetria. Talvez seja difícil para vocês entenderem essa mania. Mas eu explico. Lembram da infância quando nos falavam que se deixássemos o chinelo virado de cabeça pra baixo nossa mãe morreria? Pois bem, imaginem a sensação de ver o chinelo virado, mas não poder desvirá-lo! Assim é o TOC. Às vezes, ao me levantar e virar pra esquerda, por exemplo, tenho a sensação de ter virado demais, sendo necessário desfazer o giro em direção ao sentido oposto. É como se minha memória tivesse registrado, ao sentar, a necessidade de percorrer o mesmo caminho, com o meu corpo, ao me levantar. Tal como um pedaço de pano que, preso ao teto em um das pontas, e se retorcido para a direita, automaticamente tem sua posição normalizada pelas propriedades da natureza. É simples.

Quer me ver passar mal? Experimente me dar um tapinha no ombro! Eu na certa precisarei ser tocado no outro ombro, com a mesma intensidade do primeiro toque. Se for necessário, eu mesmo me toco. E se, porventura, meu próprio toque extrapolar a intensidade do primeiro, meu corpo reage dizendo: Léo, dê mais um pequeno toque no outro ombro pra compensar sua mão de cavalo! Eu mesmo vejo nada de absurdo nisto! Pensem e vejam se não é lógico: estou andando numa calçada e dou uma topada numa pedra. A dor não é insuportável? A diferença é que pra mim ela é insuportável por latejar num pé só, e não pela intensidade de pancada. Por isso faço questão de pressionar o outro pé até obter sensação similar, se não de dor, ao menos de latejo.

Certa vez tive um grande problema com uma mochila. Quando eu a colocava, um de seus lados tocava de maneira mais pontiaguda as minhas costas. Mas apenas um dos lados das minhas costas. Isto era muito irritante. Não à toa eu andava a partir daí feito um robô manco, tentando consertar a alça da mochila pelas ruas, enquanto ela me sacaneava pelas costas. Troquei a maldita. Passei a usar uma bolsa. Pelo menos esta eu ponho do lado que eu quiser e alterno de acordo com a intensidade que repousar sobre cada um dos lados que a sustentar. Já me disseram que eu preciso de ajuda. Eu acho que não é pra tanto. Ou é? Será!?