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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Cores no Facebook!


Galera, boas notícias!
Lancei esta semana a página oficial do livro Cores de um poeta inverso no Facebook. Vamos compartilhar esta novidade? O endereço está no banner abaixo, divulguem! Vamos curtir a página, participar das enquetes, enviar sugestões, participar, inverter, colorir... nos vemos por lá!




terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cores de um poeta inverso

Amigas e amigos, sei que tenho deixado meu blog de lado e há muito tempo (mais de um ano) não escrevo mais aqui. Acho que com a minha adesão ao facebook tempos atrás, deixei de registrar no blog as coisas importantes da minha vida.
Mas hoje o que me motiva a escrever aqui depois de tanto tempo, é, sim, algo muito importante na minha vida, algo que me deixou muito feliz desde o momento em que eu soube que era uma realidade concreta, e não mais algo restrito ao etéreo dos meus sonhos. Meu livro! Sim, um livro lindo, recheado com as poesias que, vez ou outra, eu pingava por aqui. Hoje elas estão reunidas em cores, em "Cores de um poeta inverso".
O lançamento da obra será na Livraria Saraiva do Leblon, no dia 22/12, sábado, a partir das 19 horas.
Segue o convite:




O local é de fácil acesso, mas caso você tenha dificuldade, aqui vai um pequeno mapa para te orientar:


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O Rio

Não lembro na verdade quando compus este poema, sequer me recordo do ano. Posso apostar que deve ter sido entre os anos de 2005 e 2006 que o redigi, motivado pelos grandes contrastes sociais que vivemos neste país e concentrados, em metáfora poética, no Rio de Janeiro. Espero que você se deleite nas águas deste rio de palavras urinadas ao vento e possa refletir, através de seus contrastes, sobre as populações ribeirinhas que dele - ou à margem dele - sobrevivem.


O Rio
2005-2006


Um rio nasce no caos
Brota do caos profundo
Em suas águas, suas naus
Em suas naus, o mundo
O rio navega e vive
O rio enxerga imagens
O rio, veloz, desce livre
Rasga fundo suas margens
As naus encalham nas rochas
Interrompida a viagem
E olha, e vê cedo demais
E pára o curso das águas
A contemplar o que crê
As belezas fluviais
De um lado, na margem, um cais
E nele, homens demais
O rio observa, vê
Palácios, indústrias, dinheiro
A sede dos empresários
Mais a fome dos banqueiros
O rio encalha e vê
À margem o bel-paraíso
Ele, o rio, sem demora
Admira os animais
E toda a fauna e toda a flora
E tudo o que for preciso
O rio se livra das pedras
Consegue seguir viagem
Apreciando as gaivotas
Lembrando da paisagem
Que vira em sua rota
O rio se engrandece
Do mundo que aparece
Desce abaixo a montanha
Contente como quem ganha
Um afago de menina
O rio com suas águas
Flui nas rochas e imagina
Sua viagem, suas margens
Como as gaivotas do cais
Livres tal como eram
Nos palácios, nas indústrias, no dinheiro
Banqueiros, empresários e animais
Mas rios por vezes erram
O erro os leva a mudar
Seu rumo, seu pensamento
Seu destino, tanto faz
O rio se desespera
Quando vê os animais
No seio de sua viagem
O outro lado, a outra margem,
Outros tipos de animais
Bichos em sofrimento
Lixos em desalento
Podres e pobres demais
A margem oposta ao palácio,
Muitas vilas de madeira
Do lado oposto aos banqueiros,
Gente rude sem salário
Bem longe dos empresários,
Explorados sem dinheiro
O rio, entre seus lados
Nasce desnorteado
Ou curva-se à beleza
Do império da riqueza
Ou vira-se com pena
Da pobreza e da miséria
O rio se desmerece
O rio se descontenta
De ter deixado a nascente
Sua casa, seu refúgio
Abrigo não mais presente
O rio se entristece
Do mundo que enlouquece
O rio só sente agora
As vidas e suas sombras
As almas que chocam o rio
Ele, o rio, se assombra
O rio pensa, seu peito chora
Seu leito chama
Seu curso implora
O rio entende
O quanto é gente
De repente perde-se a esmo
O rio ria, agora chora
O rio foge de si mesmo
Sem rumo, sem rota, sem nada
O rio sofre e se entrega
Navega o rio sem sorte
Sem forças, com medo, sem meta
O rio se lança sem norte
O rio avança, o rio corre
O rio se cansa...
E morre.



Léo Rossetti

sábado, 15 de agosto de 2009

Eu, ateu

Poesia publicada em primeira-mão no Sai na Urina, "Eu, ateu" é uma reflexão sobre a busca do homem pelo divino. Trata-se de um questionamento - logicamente muito baseado na minha experiência pessoal - acerca da relação de troca e de barganha forjada entre a humanidade e o seu deus. A letra minúscula é intensional e, ao mesmo tempo, traduz a crítica que todo o poema faz a essa projeção que o homem ousou chamar de Senhor. Sem grandes pretensões, é, enfim, um protesto em forma de verso e urina contra o que nós fizemos dEle.

Eu, ateu
2009

O que espero deste que oferece
Se buscando ajuda, desespero?
Se buscando um amigo, austero?
Se buscando por calma, o berro?
Desse que, asteuro, oferece desespero e berro
Diz pra mim, o que espero? Qual o meu erro
Se não é esse deus que quero?

O que pensar deste que forma
Se buscando completude, vazio?
Se buscando graça, castigo?
Se buscando a mim, inimigo?
Desse que forma vazio, castigo e inimigo
Diz pra mim, o que pensar? Qual meu erro
Se não é esse deus que sigo?

O que tenho neste que professa
Se buscando perdão, sentença?
Se buscando a cura, doença?
Se buscando justiça, vingança?
Desse que professa sentença, doença e vingança
Diz pra mim, o que eu tenho? Qual meu erro
Se esse deus não me alcança?

O que vejo neste que se mostra
Se buscando o Pai, o padrasto?
Se buscando o Filho, o carrasco?
Se buscando o Espírito, o mágico?
Desse que se mostra mágico, carrasco e padrasto
Diz pra mim, o que eu vejo? Qual o meu erro
Se nesse deus encontro asco?

O que recebo deste que barganha
Se buscando verdade, vergonha?
Se buscando palavra, peçonha?
Se buscando a paz, insônia?
Desse que barganha insônia, peçonha e vergonha
Diz pra mim, o que recebo? Qual meu erro
Se a esse deus me contraponho?

Em que acredito neste que ganha
Se buscando respeito, a fama?
Se buscando ética, trama?
Se buscando caráter, lama?
Desse que trama lama e ganha fama
Diz pra mim, em que acredito? Qual meu erro
Se não é esse deus quem ama?

O que adorar neste que dá
Se buscando o alvo, a ira
Se buscando a justiça, a mentira
Se buscando socorro, atira
Neste que atira a ira e a mentira
Diz pra mim, o que adorar? Qual o meu erro
Se esse deus não me inspira?

O que anseio deste que quer
Se buscando o pão, dinheiro?
Se buscando abrigo, o cheio?
Se buscando o interior, o meio?
Deste que quer, no meio, estar cheio de dinheiro,
Diz pra mim, o que anseio? Qual meu erro
Se não é nesse deus que creio?

Leo Rossetti
15/08/2009

domingo, 14 de junho de 2009

Despedida em cores

Homenagem ao amigo Eduardo Claudino, falecido na manhã do dia 13 de junho de 2009 e sepultado hoje, 14 de junho de 2009. "Despedida em cores" foi composto agora, em alusão às muitas flores, coloridas, que enfeitavam seu corpo na manhã da despedida. Em meio a uma nuvem lacrimosa, as palavras fluíram no poema abaixo. Ao querido Dudu, com muito carinho e muita saudade...

Eduardo Claudino
06/06/1986 - 13/06/2009



Despedida em cores
2009


Amigo, hoje finalmente consigo
Encontrar-te pessoalmente
Hoje, finalmente pude
Olhar para o seu rosto rude
E dizer quão bom é estar contigo
E ao te ver assim, dormindo
Como se estivesse dormente
Como se tivesse partido
Pensei como deveria ser
Difícil a vida de quem
Adoece querendo viver
Quem dorme querendo estar vivo
Amigo, vê que já faz um ano
Desde o último abraço
Que, confesso, nem sei se te dei
Mas hoje já sinto saudades
De todos os que foram dados
E das aventuras e das risadas
E das festas e das paradas
Compartilhadas ao teu lado
Hoje te vi enfeitado
Confesso que admirado
Por ver entre os teus tanto amor
No perfume de cada flor
Das que te coloriam deitado
Bem sabia que um dia, abusado,
Pregaria entre a gente uma peça
E riria com certo deboche
Do nosso medo ou pavor
Mas juro que não esperava
Que entre todos os desatinos teus
Ousasse desafiar o povo
Tão cedo, tão breve, tão novo
Brincasse de chegar aos céus
E hoje, na hora da despedida
Pensei: "Como pôde, meu Deus, desta vida
Ter a ousadia de dizer adeus?"

Léo Rossetti

domingo, 7 de junho de 2009

Imperfeição


Como sempre faço com os poemas publicados no blog, historicizo a sua construção. "Imperfeição", que vem romper com o jejum de um mês sem blogar, foi composto numa dessas tentativas que a gente tem na vida em reconstruir castelos, salvar histórias e recuperar o que está quase perdido... Não entendemos que na vida as coisas tem começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Fato é que tudo acontece ao seu tempo, mas nosso fôlego de vida nos faz querer interferir na dinâmica da História. As vezes temos êxito, às vezes, nem tanto. Acho que chega de tagarelices, vamos ao que interessa! Abaixo, o retrato da minha humanidade, o ser imperfeito que sou eu:




IMPERFEIÇÃO
2006

Amor, não tema
Que esse poema
É só o meu surto emocional

E já faz tempo
Que tanto eu tento
Te escrever um souvenir

Talvez agora
Seja a hora
Deixar o coração fluir

Olha, eu te quero
Mas não espero
Ser exemplo de perfeição

Tenho defeitos
Não sou perfeito
Mas quero ser teu bibelot

Não sou anjinho
Talvez tolinho
Não sou exatamente o tal

Eu tenho crises
E os meus deslizes
Sei que te causam irritação

Mas me perdoa
Ferir à toa
Me diz alguém que nunca errou

Eu sei que erro
É só o meu berro
Querendo ter tua atenção

Se te incomoda
Que se exploda!
Eu quero tanto ser só teu...

Que meu desejo
De ter teu beijo
Às vezes tem forma de dor

Eu sou um traste
Um cafajeste
Que quer a tua opinião

Amor, não brigue
Só me castigue
Punindo-me com beijos mil

Que entretanto
Serei, não santo,
Mas, dos homens, o mais feliz

Tenha na mente
Que consciente
Prometo ser alguém melhor

E bem no peito
Que meus defeitos
Não diminuem o meu amor!

Léo Rossetti

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Disfarce

Composto à melodia de um samba de Martinho da Vila, "Disfarce" é um poema irônico. Não porque quis compô-lo desta forma, não! O conteúdo dele não possui ironia, mas o contexto em que ele foi criado, sim, possui. Explico o porquê, mas peço que a poesia que está contida nestes versos não seja lida através do filtro desta explicação.
Por que "disfarce"? Esse poema foi composto durante a minha adolescência, período que para mim era muito triste. Eu conciliava extremos: a expectativa do vestibular e a frustração pelo ascetismo sexual, a convivência com vários amigos e a apatia sentimental, as milhares de informações e a solidão de uma vida sem graça. Por isso eu não era feliz. Hoje em dia seria muito fácil olhar para trás e identificar o motivo. Mas naquela época, não. E digo isto como historiador que sou. Olho para o meu passado e não posso embutir nele valores advindos das experiências do meu presente. Portanto, no contexto do poema, eu não sabia o que eu disfarçava, nem por quê. Algo dentro de mim tinha medo de tocar nessa massa existencial.
Entretanto, quando eu leio o poema hoje, notadamente posso dizer: "Leandro, está vendo? Desde cedo você sabia! Então era isso que você disfarçava!". Não, não era. Incrivelmente não era. Mas poderia muito bem ser algo do inconsciente, sei lá, vai saber... Prato cheio para a psicologia! É muito irônico o fato de os versos do passado possuírem um significado totalmente diferente e, mesmo assim, fazerem sentido em um futuro não muito distante, fazerem sentido dentro do contexto deste futuro, que é o presente. Apesar do conteúdo naquele contexto ser algo desconhecido, posso ressignificá-lo, hoje, a partir do que entendo sobre mim mesmo.

Por fim, sugiro que atentem para a data do poema. Juro que não
foi de propósito! Permitam-me as gargalhadas que dou toda vez que vejo essa data... Enfim, coincidência?! Leiam o poema e me digam o que vocês acham?

Disfarce
1999

Eu tenho um disfarce, um caso de praxe
Não há quem o ache, quem encontre sua classe
Eu tenho um disfarce e por ele me vêem
E crêem que sou pelo que me lêem.

Eu vivo por ele e não há quem descubra
A máscara doce, alegre, salobra!
Com ele me visto de vista valente
Vistoso, apresento meu gênio contente.

Eu vivo rápido, prático, sádico...
Eu vivo pulando com pulos fantásticos!
Com riso no ouvido eu ouço tão claro
O raro lirismo dizendo o que faço

E vivo feliz como quem é feliz.
Eu vivo comum, e os comuns são sutis!
Os vis me comparam e até param o que fiz
Apenas disfarces, prazeres hostis.

O mundo me enxerga, às vezes, mui bem
Além do que quem não entende, imagina.
Minha vida é viver amigo e aquém
De tudo que tem tristeza e sina.

Disfarço perdendo a concentração
E até exalto meu lado narciso!
Por ora preciso – e eu sei que é preciso –
Calar-me aceitando de todos o não!

Vivo satisfeito com ares no peito
E peito, e desvio do que têm me feito
Meu disfarce é tudo, ele é perfeito
Não há quem descubra! Não, não tem jeito...

Disfarço, confesso meu riso cortês.
E vou disfarçando, não posso evitar
E por disfarçar eu começo a chorar
E esconder tudo aquilo que a vida me fez.

Léo Rosetti
Em 28 de junho de 1999

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Veneno

A história deste poema me traz bastante contetamento, pois foi através dele que conquistei, em 2002, o 1º Lugar no Concurso Municipal de Poesias, na categoria "Ser Humano, Ser Universal". O concurso era promovido pela Secretaria de Cultura da Prefeitura de Duque de Caxias que, nos dias de hoje, sabe lá Deus como anda. Não, não estou sendo ambíguo. A duplicidade que a sentença anterior sugere é proposital: jogo para Deus tomar ciência tanto a Secretaria de Cultura da cidade quanto a própria Prefeitura, como órgão superior daquele município. Mas isto não vem ao caso agora, nesta postagem, senão em uma outra, que renderia linhas e linhas, não obstante as que por ora gasto neste poemenso! Por falar nele, ei-lo: "Veneno", uma das coisas mais significantes que eu já escrevi, daquelas que a gente pode se orgulhar quando chegar às muitas idades que o tempo nos há de dar, oxalá. Mas, vocês irão perceber, o orgulho vem da obra, da mesma forma que a vergonha dela vem. Um texto que faz jus ao título do blog, longo mas ao mesmo tempo breve, um poema que denuncia e metaforiza o veneno da nossa sociedade, a penúria, a fome:

Veneno


Moço, aí tem comida?
Que boa a sua vida!
Que bom! Aqui não tem
Nem queijo, nem pão
Nem um pouco de vida...
...e há tempos que não como!
Tampouco sei como morrer
Tem veneno, moço? Quero comer
Algo que faça mal,
Um mofado de bolo,
Um pão integral...
Algo radical, letal,
Algo fatal, mortal,
Algum labirinto
Que me dê alucinação
Que faça alvoroço, moço
Algo que me leve consigo
A um jazigo, a um caixão,
Que não me deixe faminto,
Nem sedento, nem ao vento,
Algo que me dê abrigo.



Dê-me ao menos um almoço
Que costuma estragar.
Dê-me o estragado!
Faça um esforço
Uma salada, um ovo
Podre, um jantar...
No Ano Novo, moço,
O que puder me dar:


Um morticida qualquer
O que quiser, um formicida,
Um inseticida, uma mulher...
Uma vaca completamente louca!
Um garfo, uma colher
Uma faca, um talher...
Uma ponta bem afiada na boca!
O que vier é um presente;
Um dente pra mastigar comida,
Um remédio que me deixe doente
Um tédio, uma mordida,
Má-sorte, figa, chocolate...
Algo pra morte
Algo que mate
Que tire a vida!




Dê-me um veneno, um doce,
Um pirulito, um meteorito,
Uma paulada na cabeça...
Algo que resolve;
Um chiclé, uma bala
De revólver, uma granada,
Um tiro de escopeta!
Uma bola, uma pistola...
Um nada, o que quiser.


Pinga uma pinga, uma gota de veneno
Algo na minha boca
Um leite do peito,
Um pouco de leito...
Nada a menos
Que litros de ácido úrico,
Ácido sulfúrico, benzeno...
Nada demais.
Chazinhos naturais,
Plantas mortais...
Ervas abortivas
Que me abortem da rua.
Uma pata-de-vaca,
Uma comigo-ninguém-pode,
Uma cabeça-de-bode,
Um pé-de-cabra que abra
Os braços e dê um abraço
No âmago de meu estômago,
Algum toque que me traga.
Uma arruda na boca,
Uma ajuda, uma praga...


Prepare o meu prato
Com veneno de rato,
E uma taça de vinho
Com muito veneno
Ferro, chumbo,
Chumbinho!
Algo que me seja leve,
Amendoim, racumim, eutanásia
Em festival, rico e farto
(Cardápio fatal!):
Um infarto, um surto
De vírus contagioso!
Algo que me seja bem bom,
Bem nocivo, bem gostoso!
Um drinque, um aperitivo,
Um bombom venenoso...
Uma carne contaminada,
Cisticercose solitária...
Um ossinho bem curto,
Uma bebida estragada,
Comida com a validade
Ultrapassada! Vencida!


Sirva-me, moço, por favor,
Em taça de cristal rachado
Uma água poluída,
Algo que mate a sede,
Algo que mate a vida,
Um sorvete envenenado,
Um banquete grato,
Um bolor, um mofo,
Uma lingüiça, um chuchu,
Envenenados, crus,
Coisas mal-feitas,
Mal distribuídas,
Carne putrefeita,
Carniças, urubus,
Um germe, um verme,
Uma derme apodrecida,
Tudo me serve, tudo se come,
Tudo é comida!



Tudo é vida, tudo experiência,
Deixe-me o experimento
Do sabor de um elemento
Químico, repulsivo.
Não, não me deixe, moço,
Isento de algo bem nutritivo,
O capricho de um alimento,
Um lixo radioativo!
Um césio emitente,
Um milho explosivo...
Quem sabe um urânio
Ou lantânio ou mercúrio,
Líquido, consistente,
Claro, escuro.
Um experimento consciente!
Algo incandescente!
Algo inseguro!


Dê-me algo pra comer,
Veneno pra morrer,
Um arroz, um facão
Que corte, que rasgue, que fure
Um baço, um estômago, um coração...
Um prato de vento,
De poeira, de sujeira,
De fogo, de enxofre,
Um prato de comer
Qualquerzinha besteira,
Qualquer coisinha.



Se puder ainda, moço,
Dê-me essa comida, esse almoço,
Teu resto, tua sesta,
Esse pescoço que sobra
Dessa galinha...
Essa água morna que fica
Dessa sopinha...
O osso roído da costelinha,
A brasa dessa picanha,
Essa gordurinha...!


Ou o veneno da cobra,
Do escorpião que pica,
Suco de peçonha,
Garras de aranha, carne de sapo,
Um trapo, uma formiga,
Um retrato da vergonha,
Da miséria e da desgraça,
Uma sobra, a espinha
De uma piranha,
De uma sardinha...
O espinho de uma rosa,
A água de um parto,
Uma nicotina, um cigarro,
Uma fumaça, uma tragada
Num cano de descarga
Monóxido de carbono.
Dê-me algo que me faça dormir,
Algo tóxico, mortífero,
Uma espécie de elixir,
Algum tipo de sonífero,
Um fel, um sono
Terno, fraterno,
Um inferno, um céu,
Um sonho eterno...



Moço, dê-me o que comer.
Dê-me veneno, eu quero morrer!!
Não quero a goiaba do senhor,
Quero o bicho!
Não quero o teu escargot...
Quero o lixo.
O lixo da mesa
Do chão, do corpo,
Farelo de pão, mijo e cocô.
Quero atônito o teu vômito,
Tua migalha e o teu suor
Quero é a tralha e a urina
Que desprezas, lançando-a menina
Pro lado de fora.
Quero minha sina na sorte
De um alimento, morte, carnificina.


Dê-me algo pra ficar forte,
Algo que sustente, algo atômico,
Uma bomba de Hiroshima!
Biotônico, vitamina,
Cálcio, ferro, aço,
Cloreto de sódio,
Cloreto de potássio
No sangue, na veia,
Banana, aveia, ódio,
Teias de tarântola,
Ostras, moscas,
Um fortificante!
Um fogo, uma tocha,
Uma chama...
Anabolisante, moda,
Algo que come, que brocha
Na hora da transa,
Na hora da folia,
Da masmorra
Da vergonha, da fome...
Algo que brote
Pra ficar forte!
Maconha...coca...morte!




Dê-me, moço, algum esboço
Algo que me sacie da rua
Uma esmola tua
Que me satisfaça,
Alguma coisa, algum troço,
Algo que não posso,
Que me tire a vida;
Um morticida,
Uma saída, algo nocivo,
Um castigo, um incentivo, uma força...
Um lápis, um caderno, uma forca...
Um éter, um lenço
Algo em que não penso
Algo mortal, ameno,
Algo que se ingere,
Algo que se consome
Algo que se bebe,
Algo que se come...
Pois a continuar morrendo
E morto continuar vivendo
Prefiro comer veneno
A ter que morrer de fome!

Léo Rosetti

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Não Quero Mais


Poema escrito em uma época extremamente feliz da minha vida, uma época de muitas descobertas e muitas realizações. Não sei ao certo o que motivou escrever "Não Quero Mais", a Poesia Urinada desta semana. Lembro que ela já foi declamada em um espetáculo de teatro que apresentei chamado "Coletânea", quando eu participava do grupo Arteatro. Era a cortina entre uma esquete e outra. Lembro também do que sentia ao escrevê-la, que era a vontade de urinar em cima deste falso sentimento de paz, de segurança, de harmonia do mundo moderno. Ah, sim! Lembro-me... nesta época eu estava na faculdade, muito envolvido nas aulas de História da Idéia de Cidadania, do Prof. Marcos Alvito, grande mestre e referencial de professor. Acho que eu estava nesta época refletindo sobre a contemporaneidade, e sobre todo esse sistema capitalista, que diz querer a paz, mas alimentando a guerra. Exatamente, é esse paradoxo social, que semeia a riqueza com as sementes da miséria, que me motivou a escrever este texto, como vocês podem conferir a seguir.

NÃO QUERO MAIS
2004



Dizem que querem a paz
A paz, essa coisa estranha,
De estranheza tamanha
Que o homem não viu jamais!
Por essa paz se barganha
Com ela tanto se sonha
Perdendo, inclusive, a vergonha
De agirem feito animais!
Se isso é o que chamam de paz,
Essa eu não quero mais!
















Dizem que querem a paz
Ai de quem discorde dela!
Arma-se e logo se faz
Guerra em nome da paz,
Paz em nome da guerra!
Paz enquanto pastiche
Em nome dela, a querela,
Como se fosse fetiche!
Se isso é o que chamam de paz,
Essa eu não quero mais!













Dizem que querem a paz
Acho que querem bem mais
Querem bem mais que o mundo
Querem mais do que se pode
Lutam com fogo a fundo
Tanto que o mundo explode
Com toda a sua gente junto!
Se isso é o que chamam de paz,
Essa eu não quero mais!















Dizem que querem a paz
Mas uma paz que impera
Só quando a vida morre
E o sangue dos corpos berra!
Quando o cadáver se enterra
Dorme, finalmente, jaz
É que encontra a paz!
Se isso é o que chamam de paz,
Essa eu não quero mais!

















Dizem que querem a paz
Mas uma que vem da guerra
Quem ousa dizer aos pais
Que aquele filho querido
Sob sete palmos de terra
Consegue descansar em paz?
A paz já não faz sentido
Num jazigo quando o filho jaz!
Se isso é o que chamam de paz,
Essa eu não quero mais!















Dizem que querem a paz
Acho que querem demais
E o querer não se pratica
Nem a paz nunca se faz!
A paz – tolos – implica
Em reconhecer que Guernica
Não deve acontecer jamais!
Se isso é o que chamam de paz,
Essa eu não quero mais!


















Se isso é um mundo de paz
O que seria de nós,
Pobres seres mortais,
Se de guerra ele fosse?
Se isso é um mundo de iguais
Imagina o que seria
Das gentes, se por um dia
Fosse de diferentes!
















Torres que destroem naves
Naves que destroem torres
Como se o mundo não fosse
Uma aquarela de gente
Sem hierarquia de cores
Iguais de tão diferentes!
Se isso é o que chamam de paz,
Essa eu não quero mais!















Dizem que querem a paz
Eu digo que quero um mundo
Humanamente profundo
Utópico, quiçá, demais!
Possível, todavia, afirmo!
O mundo que eu invento
Não é um mundo de vento
Mas um que nos é capaz
Ah, muito menos cretino!
Ah, bem menos violento!
O ser humano é quem faz
Seu mundo, sua paz, seu destino
Cabe a nós decidirmos
Andar pra frente ou pra trás
Querer os céus ou a terra
Viver no caos ou no cais
Em nome da paz ou da guerra!
O mundo em que nós vivemos
É esse com essa paz
Esse com esse vento!
Se isso é o que chamam de mundo
Prefiro o que eu invento
O mundo de nosso tempo
Esse eu não quero mais!

Léo Rosetti

sábado, 17 de janeiro de 2009

Tributo ao Pecado


Aos que aguardavam a primeira postagem do ano novo, gostaria de dizer que decidi inaugurar 2009 no Sai na Urina com uma novidade. A bem da verdade, não se trata de uma novidade propriamente dita. O que resolvi postar no blog é parte de minha antologia poética, acumulada ao longo de alguns anos de muitas reflexões, crises, êxtases, solidão, felicidade, prazer... Minhas poesias! Portanto, periodicamente novas (ou melhor, antigas) poesias serão postadas no blog e, porque este blog é um anti-espelho da minha vida, em todas as suas facetas, não posso deixar meu lado historiador de fora. Os textos urinados serão acompanhados de um breve histórico e uma análise pessoal do contexto em que foram produzidos. Será que um dia isso dá um livro? Vale a pena ensaiar!

O texto de hoje, a poesia inaugural, não tem motivo específico para sê-lo. Simplesmente porque é um dos poemas dos quais mais gosto é a razão básica de iniciar com ele a Seção Poesias Urinadas. Trata-se de "Tributo ao Pecado", um poema escrito com bastante fúria e indignação, motivado por um episódio que aconteceu durante um relacionamento que tive em 2005. Imaginem que após uma manifestação singela de afeto dentro de um ônibus, uma senhora - dessas crentecas fundo-de-quintal - decidiu entregar SOMENTE PARA NÓS DOIS um panfleto acompanhado de um discurso barato de que Jesus nos amava. Ora, não duvido do amor de Deus, e nem é isso o que estava em questão naquele momento. O que a velha quis dizer era que, a despeito daquela manifestação de carinho, existia uma salvação para nossa alma, mergulhada no pecado que ela, e somente ela, percebia e com o qual estava incomodada. Eu poderia descrever por linhas e linhas o ocorrido, mas prefiro encerrar por aqui e deixar com vocês o sabor único e úrico de "Tributo ao Pecado":



Tributo ao Pecado

2005


Com permissão do Criador
Seja Ele quem Ele for
Pois por Amor antes criou
O Paraíso!
Venho declarar
Minha vontade de gozar
Da liberdade de provar
Deste teu fruto...
Juro que eu te uso
Traga o teu abuso
Vire a serpente
Vem que eu te lambuzo...
Nosso Paraíso é quente
Ferve com o calor!











Quero comer da tua cor
E embriagado no sabor
Te seduzir com o suor
Do meu desejo!
Quero te aquecer
Com beijos no anoitecer
Sentir teu corpo amanhecer
No meu divã...
Ser o teu café
E te beber pela manhã
Ter a minha boca
Na tua maçã...
Ser teu trono, o teu dono
Teu ídolo, o teu fã...










Os meus desejos vão falar
Deixa a minha língua te contar
Nas ondas que formam o mar
Do teu ouvido...
Deixa o teu corpo
Se abrir de encontro ao meu
E a minha pele te rasgar
Pelo avesso...
Sou o teu devasso
Sou o teu travesso
Dentro dos teus braços
Teu a qualquer preço
Fruto dos teus passos
Eu me desconheço...













E ao sentir as tuas mãos
Pelos meus pêlos tão pagãos
E os teus dedos darem nós
Nos meus cabelos
Quase vou aos Céus
Me agarrando aos olhos teus
Como se eles, com certeza,
Fossem meus...
Deixa que o mundo
Se flagele de inveja
Deixa que ele veja
Enquanto você me beija...
E que a nossa história seja
Daquelas mais bonitas!













E se acaso nos vier
Na condução uma mulher
Postulando com sua fé
A nossa vida
Transformando as cores
Do prazer a dois em dores
E fazendo dos amantes
Pecadores...
Diga que é doença
Sua fé ensandecida!
E que a igualdade
É não mais que a diferença...
E que a nossa sentença
É a felicidade!...

Léo Rosetti