sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Saga de Manuel Congo e Marianna Crioula: os Heróis da Resistência

E como eu não paro nunca, mais uma vez me meti numa dessas mijadas que, de tão sufocadas, saem com gosto e alívio incomensuráveis. O mijo da vez está dando muito prazer. Trata-se dos ensaios e da preparação para o espetáculo A Saga de Manuel Congo e Marianna Crioula: Os Heróis da Resistência. É com muita alegria que integro o elenco desta peça, que será apresentada neste final de semana no Rio de Janeiro em comemoração ao Dia da Consciência Negra. Quem gosta de Cultura, História, Africanidades e Léo Rossetti não pode ficar perder essa. Se quiser saber mais sobre este casal, não se limite às palavras que seguirão a introdução desta postagem; vá nos assistir! É de graça; custa menos que uma tarde sedentária em cima do sofá da sua casa!


COMEMORAÇÃO DO DIA 20 DE NOVEMBRO - DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA RJ

A SAGA DE MANUEL CONGO E MARIANNA CRIOULA
OS HERÓIS DA RESISTÊNCIA
(A GRANDE CORUJA BRANCA)

Uma homenagem mais do que justa!

Em face à Comemoração do dia 20 de Novembro, o dia da Consciência Negra no Estado do Rio de Janeiro, a Companhia Nossa Senhora do Teatro encenam o Espetáculo inédito “A saga de Manuel Congo e Marianna Crioula, os heróis da resistência”. A encenação conta com a presença de 20 atores profissionais e 50 alunos atores da Oficina Escola de Teatro que fica na Estação de trens Central do Brasil com apoio da SUPERVIA e CEDINE, além dos músicos percussionistas e dançarinos. A montagem com belíssimo figurino, narra a trajetória heróica dos grandes vultos da maior rebelião já promovida no Estado do Rio de Janeiro por Manuel Congo e Marianna Crioula, onde em 1839 formaram um Quilombo no Vale do Paraíba do Sul, exatamente em Paty do Alferes, Estado do Rio de Janeiro e lá abrigaram cerca de mais de 300 escravos fugitivos.

Manuel Congo determinava as ações e a Marianna Crioula, sua companheira, coube a difícil missão de conseguir as armas de fogo, armas brancas, alimento e água para a escapada e inevitável embate futuro, o que fez com a ajuda de outras escravas. No mesmo ano o embate entre senhores de engenho e os escravos aconteceu, sendo parte deles capturados, julgados e condenados, sendo que há ai algumas curiosidades: Mariana Crioula capturada gritava a frase histórica: MORRER SIM, ENTREGAR-SE JAMAIS! Porém foi inocentada por um pedido de alta clemência de sua dona, a Senhora de engenho Francisca Elisa Xavier. Já Manuel Congo foi condenado a pena de morte, enforcado, decapitado e ficou sem sepultamento. Conta ainda a história, que a partir desta data a sua companheira de luta, a escrava Marianna Crioula voltando aos afazeres da antiga fazenda da Freguesia, hoje Aldeia de Arcozelo, enlouqueceu, dizendo estar vendo Manuel Congo pela fazenda como rei coroado, e também diziam os outros escravos capturados vê-lo. O tempo passa e Marianna Crioula morre, diz a lenda que ela torna-se uma grande coruja branca que passa a agourar toda aquela região fazendo com que ali nada prospere e nem se crie, dando seus vôos rasantes e piando alto CONGO! CONGO! Ela assusta o vilarejo! Os moradores locais se curvam e respondem: “Marianna Crioula, Coruja branca, seu sangue não estanca! Esta coruja está na região até os dias de hoje!

Em 01 de junho de 2010, os deputados e vereadores do Estado do Rio de Janeiro, decretam por unanimidade que Manuel Congo e Marianna Crioula recebam o título de heróis do Estado do Rio de Janeiro. A companhia nossa Senhora do Teatro foi a mesma que montou em 2008 “O auto da Escrava Anastácia” para a comemoração dos 120 anos da abolição da escravatura.
“Usar o veículo do teatro para entreter e acima de tudo informar e formar novos cidadãos, não é questão apenas estratégica, é porque de fato o teatro brasileiro deve exercer esta função: a de também educar, socializar, humanizar, registrando sua história e ser um acalentador de almas”. (Ricardo Andrade Vassíllievitch)


Local de apresentações:
· Estação de trens Central do Brasil (gare da Central) sexta feira dia 19 de novembro às 12:00 h (meio dia).
· Praça Onze no busto de Zumbi dos Palmares – Sábado dia 20 às 08:30 h
· Espaço Cultural Sylvio Monteiro em Nova Iguaçu – Domingo dia 21 às 19:00 h

Pesquisa, Texto e direção teatral: Ricardo Andrade Vassíllievitch
Produção e Encenação: Companhia Nossa Senhora do Teatro
Duração do espetáculo: 40 minutos
Gênero: Drama
Entrada Franca.
Classificação livre.
Contatos: (21) 3773 – 8375 ou (21) 9714-4940 (Ricardo Andrade Vassíllievitch)

Site www.nossasenhoradoteatro.com

E-mail: nossasenhoradoteatro@gmail.com


Fernanda Torres e Léo Rossetti como:
Senhora Francisca Elisa Xavier e Capitão Mor Manuel Francisco Xavier


Urine conosco! Ajude a divulgar o nosso espetáculo!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Editora Metanoia esquenta o fim do ano com lançamentos imperdíveis!

O fim de ano será mais quente que o de costume! Pelo menos é o que a Metanoia Editora está prometendo com o lançamento de mais dois livros em novembro. São eles: "Pode a Bíblia Incluir?", de Márcio Retamero; e "O Dragão que Habita em Nós", de Derval Dasílio. Um terceiro livro é esperado para o mês de dezembro: "Jeito Calladinni de Voar", de Alexandre Calladini.

A Metanoia é uma editora nova no mercado e, às vésperas de completar seu primeiro aniversário já conta com publicações polêmicas, audaciosas e comprometidas com os Direitos Humanos. Um dos destaques de suas puiblicações é o foco na Inclusão, sobretudo no que se refere à literatura LGBT. Também tem destaque livros de caráter teológico que procuram romper com paradigmas conservadores, a exemplo do famoso "Banquete dos Excluídos", também de Márcio Retamero, e que foi lançado em dezembro passado.

O Sai na Urina é parceiro da Metanoia Editora e indica toda a sua literatura para os seguidores que acompanham este blog mijão.

Então é isso! Não percam os lançamentos de fim de ano da Metanoia Editora. Pegue uma caneta e anote o cronograma de lançamentos:

Dia 10/11 - "Pode a Bíblia Incluir? Por um Olhar Inclusivo sobre as Sagradas Escrituras", de Márcio Retamero. Local: Centro Cultural da Justiça Federal (RJ) - Av. Rio Branco, 241. Horário: 19 horas.

Dia 12/11 - "O Dragão que Habita em Nós: Conversas sobre Religião e Vida de Fé", de Derval Dasílio. Local: Museu da República (Livraria) - Rua do Catete, 153 - Catete (RJ). Horário: 18 às 21h.

Dia 04/12 - "Jeito Calladinni de Voar: Diário de um Comissário de Voo", de Alexandre Calladinni. Local e horário (a definir).

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Afinal, que diz a lei contra a homofobia?

Entre a extensa lista de citações do filósofo grego Aristóteles, uma é essencial para que todo este texto faça sentido: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Ser gay não é o único motivo que me faz acreditar que o projeto de lei substitutivo 122, de 2006, adiciona a discriminação aos homossexuais a lista de crimes da lei º 7.716 seja benéfico para toda a sociedade. O que me faz acreditar neste projeto é seu texto, claro, conciso e objetivo.

Ao contrário do que vociferam pastores evangélicos Brasil a fora, como Silas Malafaia e o senador Magno Malta (PR/ES), a PL122 não torna os gays uma ‘categoria intocável’. A discriminação por orientação sexual (homo/bi/trans e hetero) passa a incorporar o texto de uma lei já existente, que pune o preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero e sexo. Aprovada a modificação, a lei ganha o texto ‘orientação sexual e identidade de gênero’ como complemento.

A lei, que já cita uma extensa lista de crimes contra estas fatias da sociedade, adiciona ainda impedir ou proibir o acesso a qualquer estabelecimento, negar ou impedir o acesso ao sistema educacional, recusar ou impedir a compra ou aluguel de imóveis ou impedir participação em processos seletivos ou promoções profissionais para as pessoas negras, brancas, evangélicas, budistas, mulheres, nordestinos, gaúchos, índios, homens heterossexuais, mulheres homossexuais, travestis, transexuais… pra TODO MUNDO! Ou seja, a lei não cria artifícios para beneficiar apenas os gays, mas para dar mais garantias de defesa de seus direitos para toda a sociedade, da qual a comunidade gay está inserida.

O único artigo que cita diretamente novos direitos constituídos a homossexuais é o oitavo, que torna crime “proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãos”, deixando claro que os direitos são de TODOS, e não apenas de um grupo seleto de pessoas.

Mas e a liberdade de expressão?

O ponto mais criticado por evangélicos, especificamente, é a perda da liberdade de expressão. Ora, onde um deputado em sã consciência faria um projeto desta magnitude e não estudaria a fundo a constituição para evitar incompatibilidades? A PL122 apenas torna crime atos VIOLENTOS contra a moral e honra de homossexuais, o que não muda em nada o comportamento das igrejas neo-pentecostais em relação a crítica. Uma igreja pode dizer que ser gay é pecado? Pode. Assim como pode dizer que ser prostituta é pecado, ser promiscuo é pecado, ser qualquer coisa é pecado. A igreja pode dizer que gays podem deixar o comportamento homossexual de lado e entrar para a vida em comunhão com Jesus Cristo? Pode, claro! Tudo isso é permitido, se há homossexuais descontentes com sua orientação sexual, eles devem procurar um jeito de ser felizes, ou aceitando sua sexualidade ou tentando outro caminho, como a igreja, por exemplo.

Agora, uma igreja pode falar que negros são sujos, são uma sub-raça e que merecem voltar a condição de escravos? Pode dizer que mulheres são seres inferiores, que não podem trabalhar e estudar, e que devem ser propriedade dos maridos? Pode dizer que pessoas com deficiência física são incapazes e por isto devem ser afastadas do convívio social por não serem ‘normais’? Não, não podem. Da mesma forma, que igrejas não poderão dizer (mesmo porque é mentira) que ser gay é uma doença mental, que tem tratamento, que uma pessoa gay nunca poderá ser feliz e que tem de se ‘regenerar’. Isto é uma violência contra a moral e a honra dos homossexuais, e este tipo de conduta ofensiva será passiva de punição assim que a lei for aprovada.

O que a PL 122 faz é incluir. Ela não cria um ‘império Gay’, como quer inadvertidamente propagar um ou outro parlapatão no Senado. A PL 122 não deixa os homossexuais nem acima, nem abaixo da lei. Deixa dentro da lei. Quem prega contra a lei tem medo de perder o direito de ofender, de humilhar, de destruir seu objeto de ódio. Quem prega contra a PL 122 quer disseminar a intolerância. E tudo que nossa sociedade precisa hoje é aprender respeito e tolerância, e descobrir de uma vez por todas que é a pluralidade que torna nossas breves existências em algo tão extraordinário.

William De Lucca Martinez

Jornalista

@delucca / deluccamartinez@hotmail.com

Fonte: http://peganomeu.wordpress.com/2010/04/12/afinal-que-diz-a-lei-contra-a-homofobia/


sábado, 2 de outubro de 2010

Não voto em evangélico!

Daqui a algumas horas decidiremos o futuro político do nosso país. Neste domingo, 03 de outubro de 2010, cerca de 135 milhões de brasileiros e brasileiras se destinarão às suas respectivas zonas de meretrício eleitoral. E eu não farei diferente. Irei lá dar a minha apertadinha. Meter o dedo, por assim dizer. E meu critério que há tempos venho professando pelas minhas redes sociais é não votar em evangélico.

E vocês, leitores e leitoras, não fazem ideia do tamanho da polêmica que criei quando ousei postar isso no subtítulo do MSN e no status do orkut. Através do MSN, dois ex-alunos e um colega (ou ex-colega) de teatro vieram me criticar, posto que são evangélicos. Um amigo gay surpreendentemente me abordou por este mensageiro dizendo estar estupefato com minha simples frase. Apenas um único amigo, também do teatro, viu a frase de maneira positiva. Pelo orkut choveram críticas, e todas elas muito pouco originais pois caíam sobre a mesma assertiva: isto é preconceito.

Por isso decidi escrever esta postagem. Não em tom de satisfação, porque a essa altura da vida não preciso bater cabeça pra nenhum mentor político. O voto de cabresto já se passou há muito! Minhas convicções políticas não precisam se explicar; o mundo que se contente em aceitá-las ou não aceitá-las. Escrevo em tom de resposta, quiçá de provocação.

Não vou aqui fazer a linha "politicamente correto", não. Quer achar que a frase é preconceituosa!? Que ache! Que seja preconceituosa, então. Mas o galhardão do meu voto, esse grupinho evangelouco não vai ter mesmo. E tenho muitos motivos para não dar o meu voto para os "irmãos" em Cristo. Quais sejam, são criticáveis. Mas não pretendo mudá-los até a hora de votar, para a infelicidade dos crentes.

Primeiramente, antes que me perguntem por que diabos eu não voto em evangélico, eu reformularei a pergunta: Por que eu devo votar em evangélico? Por que são bonzinhos? Será isso? Por que possuem bons valores? Talvez os bons valores em reais que se amontoam nos cofres não confiados ao fisco, que a cada dia engordam mais com as somas de dízimos e ofertas de um povo que barganha o pão de cada dia, de um povo até inocente em sua fé, ingênuo na vida espiritual. Por que eu devo votar em evangélico? É preciso mesmo ser evangélico para ser leal, honesto, bom caráter, digno? Eu não vejo, a princípio, nenhum motivo que me leve à necessidade de votar exclusivamente em evangélico. Não vejo nada neste povo que mereça a exclusividade do meu voto. Então, antes de qualquer coisa, não desacredito nos bons valores evangelicais e sei que existem excelentes pessoas que são evangélicas. Mas acredito que existem também excelentes pessoas umbandistas, ateias, budistas, bahai's, agnósticas, católicas, hindus, xintoístas etc.

O meu problema não é o evangélico em si (na verdade, é também! rs rs rs... mas não para esta questão, em outro momento falo sobre isso! ), mas o evangélico candidato. O político evangélico. Aí, ao meu ver, está a desgraça. A desgraça política, esclareça-se. Porque acredito que a Graça do Senhor é pra todos e todas. Até para o evangélico. Certa vez me perguntaram: "e se você não souber que o candidato é evangélico!?". Bom, neste caso eu acho ótimo. E, na minha consciência, não estarei votando em evangélico. Portanto estou sendo coerente, assim como o(a) candidato(a), que usou da coerência e do bom senso e não declarou publicamente a sua fé.

E qual o problema em declarar a fé evangélica? Bom, em se tratando de política, um problema grande! Não tenho base teórica para provar isto, mas desafio aos que discordarem que me provem cientificamente se estou errado: evangélicos tem tesão em votar em outros evangélicos. Eu me pergunto: "Senhor, por que!? Tu deste o cérebro, o que estão fazendo com ele? Perdoai, Senhor, porque eles não sabem o que fazem". E a coisa é tão alarmante que se torna óbvio votar em outro evangélico. Dia desses eu vi numa igreja supermeganeopentecostal aqui perto de casa um banner de três metros de altura de um candidato ao lado daquele pastor da toalhinha... (aliás, que toalha imunda e fedorenta deve ser, não? higiene zero!). No banner, o pastor pedia votos para o dito cujo. Mas como assim? Se por muito menos o próprio Jesus desceu o barraco em Jerusalém, imagina se o Homem volta e encontra essa politicagem em Sua Casa!

O argumento dos fiéis é que precisam eleger pessoas de Deus pro Congresso. Bom, tudo bem. Mas assim... por que o Marcelo Crivella, por exemplo, que é acusado de crime contra o Sistema Financeiro e falsidade ideológica é considerado "de Deus" e o Zé das Couves, mandingueiro lá do interior do Ceará, não é? A gente nasce com uma etiqueta dizendo Made by God? E, se a princípio Ele é o Criador, por acaso não criou o Marcelo Crivella, o Zé das Couves, você, eu, e todos os que habitam este planeta!? Que história é essa que Fulano é de Deus!? Posso supor então que há quem não seja de Deus... e que, por acaso - apenas por acaso - é alguém que não faz parte da coligação partidária do pastor-candidato. Hummmm... muito suspeito!

Olha, pra ser bastante sincero eu acho que os evangélicos podem se candidatar. É direito! Mas os de boa índole, que não participam deste jogo sujo da política e agem mediante os interesses da coletividade (e não de uma classe restrita de cidadãos do Reino de Deus), sinceramente não deveriam sequer manifestar publicamente (em programas eleitorais, em santinhos, em folhetos) que pertencem a uma determinada religião. Se a religião é pessoal, e se o projeto é para todos, qual a razão para dizer que é cristão ou cristã, da igreja tal ou qual? Com certeza não é para ganhar pontinhos no Céu; há interesse político aí! Pra mim isto é muito claro...


Não vou mais titubear e serei breve. Quero finalizar esta postagem ainda hoje! Os dois últimos e maiores motivos que me levam a não votar em evangélicos são:


* tcham * tcham * tcham * tcham *


Evangélicos querem "converter" o Congresso inteiro! Evangélicos acham que a missão deles é converter o mundo! Evangélicos acham que pregar o Evangelho é "conseguir almas" para Deus, como se a tarefa de "converter" lhes coubesse, e não a Deus. Acaso não é Cristo quem escolhe os seus? Mas o medo do inferno é tão grande que é preciso registrar uma a uma as almas que foram "convertidas" ao Senhor. E, se assim é, convém colocar nas pautas políticas, nos assuntos do Povo, nas leis e nas cadeiras do Plenário pessoas que também comunguem deste ideal, pessoas que também busquem dominar o mundo... "em Cristo"! E nisto a laicidade do Estado vai por água abaixo... O Estado Brasileiro é laico. Ou pelo menos deveria ser. E eu me recuso a votar em pessoas entendem a laicidade do Estado como o estado diabólico do Estado. Estado laico não significa que o Estado é do diabo. Apenas não é de Deus. E não tem que ser mesmo. De nenhum deus. E tenho certeza Ele entende muito bem que religião não deve se assentar sobre a Casa de Leis. E quer saber? Acho que Ele prefere assim. Tanta desgraça já se fez quando a religião se assentou sobre a Lei!


Por fim, ainda há um motivo bem razoável para não votar em evangélico: as propostas políticas não me contemplam. Não se engane! Porque os evangélicos-candidatos não estão se enganando. Eles estão muito bem articulados e possuem claramente um projeto de poder que se articula diretamente com as propostas defendidas ou repudiadas por eles. Por exemplo, a questão do casamento homossexual é um tema que vem despertando a ira dos religiosos. nos debates políticos. Segundo eles, esta união abalaria a "família", como se homossexuais não tivessem e não formassem famílias. Como se existisse apenas um modelo de família, aquela do comercial de margarina que não existe há muito no Brasil. Ou você realmente acha que a família brasileira é assim, todos brancos, louros, reunidos em torno de uma mesa farta, pai e mãe, dois filhos limpos e sorridentes, em uma casa incrivelmente asseada e a felicidade estampada em cada olhar?


Ora, ora... a família margarina dos evangélicos é a minoria no Brasil. Nós, brasileiros, somos da família dos sem pais, onde os filhos são criados pelas avós, ou são deixados nas ruas para aprenderem a ser malabaristas nos sinais de trânsito e a ser palhaços na estrada da vida. A família brasileira é aquela chefiada por mulheres, porque o homem "cabeça" da casa abandonou a família, se é que um dia a conheceu. A família brasileira mal tem o que comer, mal tem o que vestir, e se arranja sem cerimônia de casamento. Nossa família é a família do jeitinho, que se equilibra entre as regras estabelecidas pra poder sobreviver. E ninguém usa a Bíblia pra poder dizer que a poligamia é bíblica ou que a liderança feminina da família não está na Lei de Moisés, sendo, portanto, uma abominação. Mas quando se trata da união de dois homens ou duas mulheres, imediatamente lembram do Livro Sagrado, quando, na verdade, não deveriam lembrar, já que a união não é religiosa, mas civil.



A crítica à descriminalização do aborto é outro prato cheio dos evangélicos-candidatos, e é também algo que também não me contempla. Não porque eu não seja mulher, mas porque não contempla meu modo de pensar a vida. Vejo malediscência quando este debate chega à mídia através destes programas religiosos de TV, atacando pessoas que são "a favor do aborto". Ora, a questão não é ser a favor ou contra o aborto, mas a favor ou contra descriminalizar a atitude de mulheres que recorrem a esta prática. Quem não faz aborto continuará não fazendo. Assim como quem não gosta de cigarro não passa a gostar simplesmente porque é lícito. Mas se a mulher precisar fazer este procedimento, que não recorra a clínicas clandestinas que lucram milhões com a ilegalidade. A ideia da descriminalização do aborto é simplesmente controlar uma prática que já existe. Não se trata de incentivar! Trata-se de impedir a morte de milhares de mulheres. Mas sabe por que isto não é relevante para os evangélicos? Porque mulher e lixo se confundem deste que o mundo é mundo. Para a grande maioria dos religiosos, lugar de mulher é abaixo do homem. E não se surpreendam: se homem pudesse engravidar, o aborto não apenas estaria descriminalizado, mas já seria obrigatório.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Um outro Rio mostra a voz nas urnas

Na reta final das Eleições 2010, tentei reler no SAI NA URINA o texto que publiquei sobre as Eleições 2008. Incrivelmente não achei aqui. Lembrei que eu o publiquei primeiramente no site da Comunidade Betel, mas também lá não achei. Por fim localizei-o no blog Igreja Inclusiva. Trata-se de um texto de minha autoria sobre as eleições municipais de dois anos atrás. Mas, desde então, percebia-se meu temor em relação a um candidato específico que, de eleição em eleição, vem mostrando seus cachos de ovelha que disfarçam, por baixo dela, a pele e o corpo de lobo voraz. Vale a pena reler!

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Um outro Rio mostra a voz nas urnas

http://www.blogdacomunicacao.com.br/wp-content/uploads/2010/08/eleicoes2008.jpg

Se tem um cronista para o qual eu tiraria o chapéu, não poderia citar outro nome senão Lima Barreto. Há quem o tome por cronista e interprete suas crônicas escritas no início do século XX como um amálgama entre História e Literatura, misturando, nos meandros do texto, situações de cunho ora jornalístico, ora ficcional. Eu penso um pouco diferente. Acho mesmo que a grande paixão de Lima Barreto era a História, e não pensem que digo isto com alguma parcialidade, porque para tanto não há qualquer motivo.

Um dos livros de Lima Barreto – obra póstuma publicada em 1923 – chamava-se “Os Bruzundangas”, uma coletânea de crônicas onde, dizem alguns, o escritor relataria, lançando mão de um belíssimo recurso literário, um país fictício, o que alguns intelectuais mais dados às Letras dizem hoje ser metáfora do nosso encantado e maravilhoso Brasil. Mas eis um segredo! O país dos bruzundangas existia, sim! Como existe ainda hoje, escondidinho em um canto qualquer do nosso planeta. Não é literatura, não. É relato histórico de cabo a rabo.

Infelizmente Lima Barreto não sobreviveu para presenciar a trajetória da Bruzundanga sobre a qual escrevera. Este era o nome da nação dos bruzundangas. O país ficou famoso porque, ao longo de sua história, seus cidadãos foram desatrelados da cultura do voto. É bem verdade que podemos atribuir isto ao fato de a Bruzundanga ter passado por duas grandes ditaduras. A primeira, sob a liderança do chamado “Pai dos Miseráveis”, o famoso Manda-Chuva G. Túlio Wargas. Dada uma trégua democrática, a Bruzundanga foi tomada por um surto ditatorial militar, cujos expoentes formavam um grupinho muito pouco coeso de milicos torturadores. De forma tal que a Bruzundanga formou gerações de quase-cidadãos, que desacreditaram em sua capacidade de influenciar os caminhos pelos quais o país caminharia. A confiança na classe dos Manda-Chuvas foi sendo perdida, na medida em que este grupo acostumou toda a gente bruzundanga a servir de muleta para a corja manca da política charlatã. Uma elite fétida, podre e capenga, que embutiu na classe média a esperança de estar um dia ostentando muletas de cedro, muito embora só possa, atualmente, cravar sobre os menos favorecidos um bastão de compensado barato, supervalorizado com altas taxas de juros nas Casas Bahia, e comprado em suaves e intermináveis prestações em crediário. Assim é a classe média bruzundanga: emergentes da pobreza e candidatos à elite.

Pois bem, a Bruzundanga atual é um país democrático, politicamente organizado, e ostenta o título de República Federativa da Bruzundanga. De quatro em quatro anos, os bruzundangas elegem seu presidente. Da mesma forma, mas com um hiato de dois anos, acontecem as eleições municipais, e qual não foi minha surpresa ao ver que as eleições bruzundangas aconteceram no início de outubro, assim como no Brasil! Oxalá não termos no nosso país a corrupção que encontramos lá, na sociedade dos bruzundangas. Uma corrupção de caráter, que vai desde o cidadão que fura a fila do banco até o presidente que fura... fura tanta coisa! O pior mesmo é quando tem um furo de reportagem, e aí a quadrilha política aparece, cínica como um bando de lobos que, disfarçados de cordeiros, fazem um banquete com alguns milhões de porquinhos. Aqui no Brasil não tem esse conto de fadas, não. A realidade nos conforta. Mas lá... tem até manda-chuvas pagando mensalões para os seus afilhados-colaboradores.

Um das cidades mais lindas da Bruzundanga – o Rio Dijaneiro – já foi capital do país, e vivenciou há algumas semanas as suas eleições municipais. E um grave perigo se instaurou no cenário dijaneirense. A ameaça surgiu de um grupo soberbo e enganador, detentor de status e prestígio, principalmente – no caso da Bruzundanga – por representar uma vertente religiosa deturpada e decaída, o IURD (Instituto Universal dos Reis-Deuses), que muito faz lembrar os personagens de Lima Barreto. Em suas crônicas, eles vivem na República dos Doutores – apelido dado ao país – cuja estrutura de poder bolina nossa dignidade e desvenda uma cultura política marcada pelo clientelismo e pelo favor. Nela, ser “doutor” significava não um título acadêmico, mas o passaporte para a promoção social, política e financeira. No IURD a diretriz caminha de maneira muito similar, com seus reis-deuses pregando aos quatro ventos uma teologia da prosperidade, o toma-lá-dá-cá divinal. Os fiéis-seguidores outorgam pra si o título de eleitos, e para os outros, o rótulo dos condenados.

Mas até então a concupiscência limitava-se ao âmbito religioso, resguardada pela liberdade de fé propagada na Constituição Bruzundanga. Porém, nesse ínterim, a classe média do IURD – os aspirantes a “doutores” – elegeu seu representante, para que este fizesse valer seus interesses mesquinhos e hipócritas no âmbito político da cidade do Rio Dijaneiro. Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir durante os meses de campanha política, onde toda a nação bruzundanga o identificava por um signo numérico. Aqui há sabedoria. Aquele que tiver entendimento calcule o número deste político, pois é número de um bispo. Ora, este número é dez.

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O homem não podia ser originário da Bruzundanga, devia ser estrangeiro. Estrangeiro, sim. Não posso afirmar de surgiu o dito bispo – embora o tenha visto emergir do mar com dez chifres, dez diademas e uma faixa onde se lia: Cree Wella é dez – muito menos quem pariu o torpe verme. Mas imagino que seja estrangeiro, não apenas por seu nome e sobrenome, mas porque nunca se havia visto na Bruzundanga tamanha alegoria político-religiosa concentrada nas mãos de um único homem.

Seja de onde for, o fato é que a besta apareceu na política nacional, vestido de cordeiro, fazendo programas de tevê, anunciando aos povos a Terra Prometida, a Fazenda Canaã. E de cordeiro, passou a pastor, e de pastor virou lobo, e de lobo ascendeu ao status de rei-deus, e de rei-deus ganhou passaporte fácil para o Senado. Não satisfeito, o bispo quis alçar vôos ainda mais altos, candidatando-se à prefeitura da cidade para representar os interesses de seus súditos-religiosos. A conspiração era audaz, a estratégia era ousada, e o projeto, ambicioso: transformar o Rio Dijaneiro na cidade de Cree Wella. A idéia diretriz incluía mudar o nome da cidade Bruzundanga, que passaria a se chamar “Creewellândia”, e nela reinariam todas as suas idéias, que foram pensadas há muito em secretas reuniões bispais com os demais reis-deuses. E nos concílios, feitos às custas dos impostos dizimais dos súditos-fiéis, os reis-deuses receberam o aval da candidatura do bispo, respaldados pela promessa da vitória, oriunda de algum ser que eles disseram ser Deus. Certos da vitória nas urnas, deram início à campanha política.

Eu posso imaginar que nem todos os candidatos à prefeitura do Rio Dijaneiro eram exemplos de competência, ética e respeito à diversidade, mas nunca se vira um discurso tão segregador quanto o do candidato Cree Wella. Eu não sei o que o bispo pensou quando imaginou a criação da Creewellândia. Sua cidade virtual não condizia com a realidade da Bruzundanga: um país formado por bruzungangas, mas também por bruzundecas, bruzundocas, bruzundivas, bruzundíssimas, bruzundelas... O Rio Dijaneiro também sempre foi cheio dessa gente diferente, plural, mista, e tão cidadã quanto os bruzundangas – muito embora marcada por lutas sangrentas e muitas, muitas injustiças sociais – motivo pelo qual a pretensão de uma Creewellândia livre de todas esses agentes era, além da institucionalização do preconceito, a utopia de concretizar as idéias de uma vertente religiosa que caminha na contramão dos avanços sociais! O cúmulo da esquizofrenia: como negar a existência de um povo que não nega a sua identidade? Como lidar com um mundo em transformação utilizando um discurso tão arcaico, preconceituoso e mentiroso?

Das duas uma: se o Criador prometeu a vitória ao bispo, ou Deus enganou o profeta candidato ou o candidato era falso profeta, porque na disputa eleitoral Cree Wella foi infeliz. Aliás, sempre foi e deve sê-lo até hoje. Porque nenhuma candidatura, ou postura política, ou convicção religiosa, ou consciência crítica, pode ficar às margens das mudanças do mundo. Creewellândia seria uma cidade irreal, pois segregaria as diferenças, a pluralidade, as diversidades, a bruzundangalidade que sempre fez deste país a segunda nação mais hospitaleira do mundo (só perdendo para o Brasil, logicamente); seria uma cidade pobre, porque as idéias provenientes da corja putrefeita do Instituto Universal dos Reis-Deuses não têm consistência, senão por utilizarem com uma certa coerência um discurso do “quem-dá-mais”, fundamentado numa base lógica – que existe na matemática financeira – mas não no Evangelho pregado pelo Cristo, o Deus encarnado, o humilde carpinteiro, dois mil anos atrás; seria, ainda, uma cidade triste, porque retrocederia décadas, quando ainda as minorias da Bruzundanga sofriam impunemente as dores da violência e as amarguras do silêncio, e não tinham a alegria dos direitos conquistados através de suas lutas históricas por justiça social. E foi na esperança de que a cidade do Rio Dijaneiro não fosse transformada numa cidade irreal, pobre e triste, que a população dijaneirense – cansada do vício do clientelismo bruzundanga e convicta de que preceitos religiosos não devem jamais alçar vôo a ponto de impedir direitos civis – mostrou sua voz nas urnas nas últimas eleições municipais, impedindo o bispo Cree Wella de proclamar suas inverdades falaciosas no segundo turno das eleições, que acontecerá nas próximas semanas, restando-lhe apenas a euforia de ser, durante os dias de campanha, alvo da histeria coletiva de seus súditos-fiéis. E à população do Rio Dijaneiro, resta a esperança de que o prefeito eleito no segundo turno represente com ética, competência e justiça, os interesses de toda a comunidade dijaneirense, que inclui bruzundangas, bruzundecas, bruzundocas, bruzundelas, bruzundíssimas...

Eu queria mesmo é que Lima Barreto escrevesse crônicas sobre as eleições no Brasil de hoje, mas aqui, crônica mesmo ficou minha dor de ouvido, de tanto ouvir fogos, “jingles”, refrões animados e numerosos aglomerados humanos gritando uma melodia contagiante entoada para algum candidato às vésperas das eleições. Fora isso, sem muita polêmica. Houve um disse-me-disse aqui, um candidato impugnado acolá, outra que foi eleita na cadeia, mas nada que ultrapassasse a ordem natural das coisas no Brasil, pois pra tudo aqui dá-se um jeitinho. Na Cidade Maravilhosa, o pleito correu, como se deve imaginar, às mil maravilhas. Houve quem dissesse que algum candidato desqualificado à prefeitura ousasse desafiar a população com algum discurso vazio, preconceituoso e fundamentalista. Porém, em se tratando dessa gente, é melhor nem citarmos o nome. Já diziam os sábios: a palavra tem poder. Se o povo lhes dá corda, mais aumenta a sua fama.
Perdoem-me o equívoco, mais apropriado é dizer: a sua infâmia.