sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sem Pecado entre o Leblon e o Vidigal

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Ele fica na expectativa da data esperada. À tarde, sai mais cedo do trabalho e planeja comprar o presente que possa agradar a quem lhe quer bem. Sai às ruas e às compras e em meio à indecisão que é só sua, escolhe o agrado para felicitar sua caríssima-metade.

Vai pra casa, e como sempre se distrai em meio à liberdade que sua casa lhe confere. Brinca com o cão, que é seu filho, descansa e dorme. Quando acorda, faz uma leve refeição e se prepara para sair. No banheiro, antes do banho, faz os preparativos do limite da barba e de todas as demais regiões que apenas os mais instruídos sabem identificar a respectiva necessidade. Se banha e perfuma. Extrai os pelos que sobrepujam em seu corpo, porque assim bem lhe agrada.

Apressado, atrasado, sai de casa e abastece o carro e esquece o vinho. Na estrada, sente o estresse do trânsito e do tempo que em cada minuto se torna mais curto. O celular toca e ele atende. Justifica. Depois de quinze minutos, o celular é tocado, mas no outro extremo da linha. Explica. Segue. Desorienta-se depois do Rebouças.

Na marca de outros quinze minutos de tolerância ele chega. Telefona e espera. Abre a porta do carro e recebe uma mochila e uma sacola laranja. Neste momento, percebe que deveria ter levado o presente que comprara à tarde, mas este teria ainda que esperar dois dias para receber seu devido destino.

Dali partem para um restaurante. Conversam, conversam, conversam. Erram o caminho. Vão e voltam, dão um giro pela cidade e se reencontram no caminho de volta e chegam. No carro, ele recebe de presente a sacola e descobre que o presente era o resultado de um desejo manifesto em um desses passeios a Petrópolis em algum feriado religioso. Ali se beijam.

No restaurante, numa famosa rua das Laranjeiras, gozam das delícias da culinária japonesa, com um certo medo de parecerem alheios ao lugar. Percebem que o cupom do desconto era quase desnecessário, e arcam com a despesa sem o abatimento de dois reais da promoção do estabelecimento.

Fartos e satisfeitos, rumam à Avenida Niemeyer, e descobrem que o Vidigal é parte do Leblon e vice-versa. E que, embora separados pela denominação de bairros diferentes que possuem, são dois lados extremamente opostos da mesma moeda. E assim, depois de racionalizarem as diferenças sociais de um lugar e de outro, entram onde não existe pecado.

Lá, banham-se, escaldados por jatos de água quente que apimentam aquilo que o perfume da sacola laranja já prenunciara. O chuveiro quente logo se conflita com a cerveja gelada com a qual decidem brindar a data que para ambos é tão significativa.

Ao chegarem ao altar do desejo, deliciam-se com os filmes que não cabem em seu universo, senão para se rirem das cenas que para eles são tão obtusas. A hora avança e eles percebem que não há mais nada o que perceber, e decidem não mais adiar o que ambos os corpos desejavam. E se amam compulsivamente.

A madrugada cai sobre seus olhos e eles não percebem o dia que invade aquele lugar sem pecado com cheiro de chuva. O frio pede o calor do vapor d'água e então ambos resolvem desfrutar e relaxar na quente saleta apropriada para tal. E então um maldito telefone toca pra dizer que o tempo acabou.

Dali partem para o mirante e fotografam a paisagem como registro do dia que marcou para ambos os dois anos de sua história.

E a vida seguiu ao longo do dia, como se a manhã do Vidigal ou do Leblon não tivesse acontecido, como se aquele dia - sendo o mais atípico dos dias - brincasse de ser fantasia e eternizasse a noite anterior nas lembranças dos arquivos secretos guardados na memória e no coração.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Deus e o diabo na terra dos candangos

Deus e o diabo na terra dos candangos:
O debate sobre o Estatuto das Famílias na CCJ da Câmara Federal
Por: Ricardo Pinheiro




Um debate bastante polarizado dominou o clima da audiência pública sobre o Estatuto das Famílias na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) na quarta-feira passada, 12/05/2010, em Brasília, reconhecida pela cultura local como a terra dos Candangos. O Estatuto engloba diversos projetos de lei (PL 674/07 e 2285/07, entre outros) e, em alguns deles, existe a regulamentação da união entre pessoas do mesmo sexo e da adoção feita por esses casais.


Críticos e defensores da união civil de homossexuais colocaram seus argumentos diante do plenário lotado, onde evangélicos contrários à união de pessoas do mesmo sexo estavam em maioria.


Para tentar chegar a um acordo, o presidente da CCJ e relator do Estatuto das Famílias, deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), disse que diante de tantas diferenças e dúvidas, vai tentar encontrar um meio termo. Hã? “Meio termo”? Não me peçam pra imaginar o que poderá sair desse estatuto franksteinizado...


Para o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Toni Reis, não se trata de casamento, mas sim de garantir direitos civis. "Envolve essa questão da herança, de planos de saúde, de adoção. Nós queremos nem menos nem mais, queremos direitos iguais. Nós não queremos é o casamento, nesse momento não é a nossa pretensão. O que nós queremos são os direitos civis".


Toni Reis citou declarações das organizações das Nações Unidas (ONU) e dos Estados Americanos (OEA) para defender o direito ao reconhecimento da união civil e da adoção entre pessoas do mesmo sexo. Ele destacou que o Governo Lula também apoia a reivindicação e mencionou o programa Brasil sem Homofobia, coordenado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. "O Brasil é um Estado laico e queremos o que a Constituição preconiza, direitos civis", argumentou.


O pastor da Assembleia de Deus, Silas Malafaia questionou se outros comportamentos poderiam, futuramente, virar lei. "Então vamos liberar relações com cachorro, vamos liberar com cadáveres, isso também não é um comportamento?" O pastor foi muito aplaudido durante sua exposição. Malafaia afirmou que conceder os diretos civis é a porta para depois aprovarem o casamento. Ele defendeu que a família é o homem, a mulher e a prole, sendo que a própria Constituição defende esse desenho familiar.


Na mesma linha crítica, o pastor da Igreja Assembleia de Deus, Abner Ferreira afirmou que o Estatuto das Famílias seria, na verdade, o Estatuto da Desconstrução da Família. Segundo ele, ao admitir a união de pessoas do mesmo sexo, a proposta pretende destruir o padrão da família natural, em vez de protegê-la. Ele disse que todas as outras formas de família são incompletas e que toda manobra contrária à família natural deve ser rejeitada.


A vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, Maria Berenice Dias, afirmou que o fato de a Constituição proteger a união entre homem e mulher não significa que uniões homoafetivas também não possam ter direitos na esfera civil.


Ela avaliou que o debate foi para a esfera ideológica. "Estou sentindo nesse espaço um clima de muito medo, de muito revanchismo, pouco técnico, pouco científico, pouco preparado”, observou. “As pessoas estão se deixando dominar por posições religiosas muito ferrenhas, e confesso que não sei porque têm medo que simplesmente se assegure direitos aos homossexuais, se assegure a crianças terem um lar", acrescentou.


Maria Berenice Dias citou decisão recente do Superior Tribunal de Justiça, que reconheceu a adoção feita por duas mulheres, e afirmou que a união homoafetiva não ameaça a família. "Argentina, Uruguai, México e Canadá são alguns dos países que reconhecem essas uniões. Quem conhece esses lugares sabe que, por lá, a família vai muito bem, obrigada", disse.


No sítio da Câmara Federal [Agência Câmara de Notícias] do dia 12 de maio de 2010 é possível ver como o assunto mexe com os ânimos da fé de muitos – isso mesmo, a coisa está sendo reduzida à esfera religiosa! -, pois os comentários postados pelos internautas reproduzem o quantitativo de opiniões sob a mesma vertente ideológica. Os mais recentes comentários diziam, entre outras coisas:


“Uma coisa é respeitar o homossexual e não ter preconceitos quanto à sua opção sexual, assim como fazemos com os fumantes no tocante à opção de fumar, ninguém deve discriminá-los. Outra coisa é dizer que o fumo faz bem à saúde. Respeitar as opções não quer dizer que todas as opções sejam iguais. A opção de não fumar é melhor que a de fumar e a opção heterossexual é melhor que a homossexual”, assina Bruno.


“Definitivamente essa proposta de regulamentar a união de homossexuais é uma desonra aos preceitos da palavra de Deus para o homem e a mulher pois contraria e se opõe à santidade do nosso Deus”, assina Robervanda.


Um tal de Vanderlei foi mais tirânico, pois disse: “Vivemos na democracia. Em outras palavras, a maioria do povo governa ou decide como deve ser o governo. As minorias devem acatar o que a maioria determinar. Este é o princípio básico da democracia. Existem países que não existe a democracia. Será que lá é melhor?”.


Daí, pergunto: vivemos num país ideal no qual as pessoas são respeitadas por aquilo que são ou vivemos num país do “ainda-não” em que se é necessário lutar com as armas da cidadania plena para o respeito à dignidade da pessoa humana? Sim, pois é preciso avisar aos desavisados que homossexualidade não é “opção”, ou seja, não é escolha de ninguém em sã consciência psíquica sofrer diante de um padrão heterossexista, o ter que passar por esse achincalhe ou, para os que se curvam ao letrismo dos dogmas de natureza moral e tirânica, o padecer pela escravidão ao medo da danação eterna!


Os debates, obviamente, ainda não levaram a muitos passos dado o abismo entre as posições suscitadas. De qualquer forma, ficam aqui as implicações sobre o cenário dos fatos que se discute em nosso Parlamento. Vale a pena ficar calado e permitir que a omissão seja a chave para abrir as portas do retrocesso no campo das relações sociais e jurídicas existentes? Ou será que alguém duvida das manobras articuladas pelos segmentos fundamentalistas religiosos junto aos seus pares eleitos graças aos seus “e$forço$” eleitoreiros?


Na semana passada assistimos chocados ao acinte da malta dos perversos transfigurados em defensores da família [a família na obsolescência do entendimento deles!], comparando comportamentos qualificados como doenças ou distúrbios psíquicos pela OMS e as orientações sexuais. Sim, a disseminação do mal foi tão acintosa e certa de impunidade que ousou verborragiar a estupidez sem máscara alguma: gays e pedófilos, gays e necrófilos, gays e zoófilos foram assemelhados na cara dura diante de uma Comissão de Constituição e Justiça! A arrogância de um deles, aplaudida pela maioria ortodoxa religiosa ali presente, foi tanta que deu seu recado às lideranças partidárias, trazendo o debate para o contexto político das eleições presidenciais:



"Eu ouvi os homossexuais fazerem aqui pronunciamentos dizendo que o presidente os indicou para a ONU, que o presidente os apoia totalmente, então nós evangélicos, que representamos 25% da população, temos que pensar muito bem em quem vamos votar para presidente da República", avisou do alto de sua insolência o suposto porta-voz de ¼ do eleitorado nacional.


Que ninguém me entenda mal, tenho lá minhas convicções de ordem religiosa, as quais me inspiram à coexistência pacífica com todos os meus confrades [de todos os credos ou não], mas justamente porque amo os princípios pacificadores que são a essência da Igreja [aqui entendida não como termo com referência a qualquer institucionalização, mas apenas como categoria dos que são "chamados para fora" [1] do arbítrio dos deuses “Poder” e “Glória”], é que não engulo os ideais ensimesmados e absolutistas da "igreja evangélica". Sim, não engulo porque não reconheço nela – nem de longe, nem como sombra ou sereno – as marcas amorosas e portanto revolucionárias daquele que se diz o seu “inspirador”, conforme leio nos Evangelhos. Creio que somente quando o que está aí passar por uma desconstrução é que a Igreja terá chance de renascer no Brasil.


Entretanto, à vista daquilo a que todos assistimos na CCJ da Câmara, cabe-me a retórica da pergunta inspirada numa das letras do saudoso profeta cantador Renato Russo: "Que país é este?". Que país é este que nega direitos aos seus cidadãos, que faz do mais nobre Palácio das Leis neste solo um palco para “panem et circenses”, conforme nos inspiram os versos das Sátiras de Juvenal? Que país é este que transforma um debate sério num solilóquio moral-religioso desses “diabólós” [2] que fazem da fé uma bandeira política?


É pra se pensar, prezados cidadãos de bem e consortes amantes da democracia. Porque parado nem mesmo os modelos tradicionais de família em sociedade não ficam mais! Não me lembro neste instante, mas acho que o nome que se dá a isso é evolução natural das coisas. É, deve ser isso. Evolução natural. Na próxima audiência pública, não poderemos esquecer de levar isso para os “diabos-acusadores” quando emergirem lá no centro da terra dos Candangos.



Por ora, à lei e ao amor! Xô, Satanases [3]!


___________________________

(*) Texto adaptado da reportagem de Daniele Lessa no sítio da Câmara Federal, “Religiosos, juristas e ongs divergem sobre união civil gay”, de 12/05/2010.

[1] Do original grego "ekklésia", ou seja, os "chamados para fora".

[2] Do original grego, “acusador” ou “acusadores”, "opositor", "o que lança através ou por intermédio de". Diabo.

[3] Do original grego, Satan, ou seja, "adversário".

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Viado virou vírgula!

Na última quinta-feira eu estava caminhando perto de casa, rumo ao trabalho. Perto de onde moro, costumam os rapazes jogar partidas de futebol nos campos improvisados que são as ruas caxienses. Neste dia eu precisei atravessar um desses campos e me chamou a atenção quando um dos guris exclamou: "Para a bola, viado! O moço tá passando". Que 'viado' fosse troféu usado nas partidas de futebol para se xingar o juiz, o zagueiro ou o goleiro, não é novidade. Mas esse novo 'viado' soou diferente. Ou, antes, se 'viado' viesse depois de 'moço', estaria no plano da lógica entender que a bola da vez seria o maldito do pedestre que atravessou a partida, seja porque eles querem xingar a esmo o chato que atrapalhou a pelada, seja porque eles de fato acreditam que o filho da puta que adentrou o jogo de futebol é, de fato, 'viado'; neste caso: eu.

Mas os rapazes utilizaram 'viado' como quem diz, 'parceiro', 'companheiro', 'rapaz'. Dizer 'Para a bola, viado!', naquele contexto, era o mesmo que: 'Para a bola, rapaz!', 'Para a bola, parceiro' ou uma série de desígnios que poderíamos ainda, se quiséssemos, enumerar: 'sangue', 'fera', 'brother' etc.

Isso é bastante significante se considerarmos a história da homofobia no nosso país. Trata-se de uma mudança de paradigma e uma evolução da semântica do termo 'viado'. Parece que o tempo se encarregou de transformar o que era negativo em positivo. O tom pejorativo, de segunda classe, de subcategoria, de gente inferior, foi ressignificado nas partidas de pelada no alvorecer do século XXI, nas ruas de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, região relativamente pobre do Brasil. E não me consta que algum daqueles moleques que se divertiam fosse homossexual, ou aparentasse sê-lo (também como haveria de me constar? Acaso a aparência ou a atividade esportiva de uma pessoa pode designar a sua orientação sexual?).

O fato é que hoje em dia 'viado' virou vírgula na boca dos heterossexuais. Amigos, colegas de bar, parceiros de chopp e de peladas, todos não poupam esforços ao se referirem uns aos outros como 'viado', atribuindo um sentido positivo à palavra. A tempo, saliento que, quando digo sentido 'positivo' não estou querendo dizer que ser homossexual é per se algo negativo mas, antes, que a intenção do comunicante ao proferir o termo não é jocosa, de escárnio ou de humilhação. Não é, portanto, negativa. E hoje esse sentido positivo de 'viado' merece ser levado em conta. Não, não estou me enganando quanto à atribuição de negatividade à palavra nos dias de hoje. Sei que ainda assistimos, em contextos variados, garotos sendo chamados de 'viado', sem que haja intenção de elogiar ou estabelecer relação de parceria: a ideia é ferir, mesmo. A escola, a igreja e a família ainda tem o estigma do animal chifrudo e saltitante, aquele bichinho que virou sinônimo de ser inferior.

Por outro lado, se hoje se vê e ouve 'viado' por todos os lados, positivamente, o mesmo não se pode dizer da palavra 'bicha', por exemplo. À exceção das relações que se estabelecem entre a população LGBT ou entre esta e uma raríssima casta de heterossexuais não-homofóbicos, a palavra 'bicha' ainda não alcançou, em nenhum tipo de relação informal, a merecida ressignificação. Se existe uma explicação para o tal feito? Logicamente há. Se porventura você não percebeu, o 'viado' é masculino; a 'bicha' é feminina. A questão de gênero perpassa os debates em torno da diversidade sexual. Não é mero acaso. Está para nascer o dia em que o feminino seja usado pelos heterossexuais em partida de futebol como elogio, como sinônimo de amizade, de coleguismo.

Fenômeno semelhante se observa ao se xingar um indivíduo quando a ira acomete aquele que profere o xingamento, inclusive, quando o alvo do xingamento é um juiz de futebol e o ofensor é um torcedor. Não são poucas as vezes em que já ouvi em jogos, torneios, copas do mundo, amigos irados xingando o árbitro de 'filha da puta'. Observem: 'filha', no feminino. Podem alguns gramáticos explicarem o fenômeno como simples erro de concordância nominal; ou linguistas dizerem que é mais fácil 'filha' concordar com 'puta', do que 'filho', no masculino. Eu, porém, que não sou nem gramático nem linguista, procuro pautar minha explicação na minha área de formação, que é a História. E ela me mostra, através das experiências ocorridas no passado, que o presente é resultado desse pretérito preconceituoso que construímos, que a homofobia tem raízes na formação desta sociedade patriarcal, que o sexismo vem sendo construído através dos paradigmas da heteronormatividade e do machismo, e que muitas barreiras foram colocadas abaixo justamente porque a 'sociedade do presente' questionou as bases da 'sociedade do passado'.

E é com esperança na História que espero, um dia, passar no meio de uma partida de futebol e ser chamado de 'bicha', sem que haja nesta palavra o sentido negativo e humilhador que possui hoje, um sentido perverso e homofóbico, um título vexatório imputado forçosamente a muitos LGBTs (e também a não-LGBTs), título este ostentado nas marcas roxas dos olhos constrangidos de muitos homossexuais, privados publicamente do direito de ser quem verdadeiramente são.

terça-feira, 30 de março de 2010

Nem tudo que é Dourado reluz: uma reflexão sobre a final do BBB10

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias

Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht

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Deixei para escrever este texto às vésperas da última eliminação do Big Brother Brasil 10, não por mero acaso. Daqui a algumas horas teremos o resultado do vencedor do reality show, e a vitória de Marcelo Dourado no jogo é, praticamente, inevitável. E não estou sendo pessimista. É com pesar que escrevo este texto, e não deixo para escrevê-lo amanhã para que a certeza do que falo seja evidenciada quando o resultado do programa, daqui a algumas horas, anunciar o vencedor.

Particularmente não sou acompanhante assíduo do Big Brother, cujos personagens tomei ciência há pouco. Mas é possível identificar no jogo algumas semelhanças e paralelos com outras edições anteriores. Entre as semelhanças, a que mais me chama atenção é uma característica específica: que o vencedor do programa, via de regra, seja uma vítima! Uma vítima forjada nas ilhas de edição, diga-se, mas ainda assim uma vítima. Alguém que merece ser, de alguma forma, recompensado, de maneira que a justiça seja feita, pelas próprias mãos (dos expectadores). Lembro-me de algumas poucas edições e em todas elas a vítima surge: no primeiro Big Brother, o participante Kléber-Bambam foi recompensado por sua ingenuidade, sua característica principal Um ar um tanto pueril que faria jus aos mais clássicos textos de Rousseau. Na segunda edição, o caubói mereceu o título porque era vítima dos demais, no sentido de ser roceiro, caipira, do interior. Justiça fosse feita, e o boiadeiro recebesse o troféu merecido. A edição que contou com Dhomini, outro dos vencedores, guarda semelhanças com o atual Big Brother, e veremos depois por quê. Seu estilo cafajeste cativou os milhares de brasileiros que lhe recompensaram por ser uma pessoa boa, apesar de seu instinto mulherengo. Ganhou o “apesar”. O mesmo se deu com a participante de Mangaratiba/RJ, a vítima da sociedade que teve a chance de ingressar no jogo devido a um sorteio, sem análise de perfil. Pobre, representava grande parte da população, principalmente da população feminina, já que a vencedora era mulher, e nenhuma outra mulher havia ganhado o prêmio milionário até então. Com Jean Willys a história se repete, e o professor homossexual assumido precisou ser recompensado pelos dias difíceis que passou em sua vida, em sua trajetória de sucesso e superação. Jean era professor, instruído, inteligente e articulado. Seu baluarte não era sua homossexualidade; antes, sua história de vida, de sucesso.

Vocês podem me perguntar por que estou dissecando as outras edições do Big Brother, por que abri o texto com o poema de Bertold Brecht, e o que toda essa história de vitimização tem a ver com a atual edição do Big Brother.O caso é que a vítima, nesta edição, e ao que tudo indica, é Marcelo Dourado. Mas vítima do quê?

Em primeiro lugar, vítima do próprio jogo. O participante saiu noutra edição do programa e agora teve mais uma chance de mostrar o seu valor, fosse ele qual fosse. Em segundo lugar, “vítima” de uma corrente de pensamento crescente a favor da diversidade e da aceitação do outro. Esta edição do programa trouxe propositadamente às telas alguns guetos sociais, em cujos perfis os participantes do jogo eram obrigados a se enquadrar. Cada identidade foi suprimida em função do rótulo de Sarado, Colorido, Belo, Ligado etc. O público que recebe este tipo de informação pré-formatada não vê outra coisa no grupo dos sarados senão pessoas saradas e as julga por isso; no grupo dos coloridos senão coloridas, e sobre suas cores tecem seu julgamento; e assim por diante. Não se enxerga para além do rótulo. E nesse país que ostenta 198 mortes de homossexuais ao ano – mortos simplesmente porque eram homossexuais - não é de se estranhar que um grupo de coloridos cause estranheza demasiada.

A princípio imaginei que a intenção da emissora fosse politicamente correta ao abordar a diversidade. Ingenuidade a minha acreditar em imparcialidade de uma emissora que censura o beijo entre dois rapazes, escrito para acontecer em uma de suas telenovelas. Uma emissora em cujas novelas os atores negros servem apenas para desempenhar o papel de bandido ou de palhaço. Se de palhaço, ou porque o é em sentido figurado, isto é, como sub-personagem, dominado, auxiliar, quase sem aparições, quase sempre o estereótipo do pobre, empregado(a), pedreiro, escravo; ou mesmo no sentido literal, isto é, personagem cuja atuação não passa de comédia digestiva, o faz-me-rir fácil, o ridículo, o raso. Não, a Rede Globo não é imparcial. A intenção da emissora, de fato, é duvidosa quanto à distribuição dos grupos no Big Brother. Mas isto é briga de cachorro grande! Voltemos ao raciocínio anterior e expliquemos o que afinal o Big Brother tem a ver com Bertold Brecht.

Pois bem, como Brecht evidencia no clássico poema reproduzido na introdução deste texto, as grandes vitórias da humanidade nunca foram, e nunca serão vitórias alcançadas na solidão do próprio ser. Ao contrário, o dramaturgo e poeta denuncia a presença dos comuns, dos menores, daqueles anônimos cujos nomes não ganham as páginas dos livros de História, e sobre eles repousa o louro das conquistas dos grandes e famosos líderes; muitos dos quais, fizeram mais destruir do que construir.

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A vitória de Marcelo Dourado do Big Brother será comparável à vitória desses grandes líderes lembrados por Bertold Brecht. E não pensem que estou elogiando o participante, elevando-o ao pódio dos maiores nomes da história ocidental, porque não estou. Minha comparação consiste em refletir menos sobre a atuação de Dourado - que ao meu ver é mais um número - que sobre a contribuição dos anônimos na vitória do seu representante. Dourado é mais um na multidão. Não posso creditar a ele os méritos de sua vitória. Se tivesse que congratular, as saudações seriam dadas aos milhões de brasileiros que resolveram fazer justiça com as próprias mãos, recompensando sua mais recente vítima do jogo de realidade. Porém, que justiça é essa, afinal? Será uma espécie de contrapartida ou resposta em relação à vitória não muito bem tragada do homossexual Jean Willys, há algumas edições passadas? Ou será que os brasileiros resolveram presentear o participante ora eliminado, dando a ele a oportunidade (e a garantia) de permanecer no jogo? Meu palpite é que ambas as alternativas fazem sentido, porém um outro dado vem reforçar ainda mais a minha hipótese: Marcelo Dourado é porta-voz dos milhões de brasileiros cúmplices dos 198 assassinatos de homossexuais registrados em 2009. São esses milhões de brasileiros os que realmente saem do jogo como vencedores, e projetam em seu anti-herói a oportunidade de trazer a sociedade brasileira à “retidão”, ao “caminho correto”, ao “prumo”. Nossa sociedade é patriarcal e sexista, homofóbica e machista, heteronormativa e racista. Estas características estão implícitas em nossa estrutura. E, porque estão em nossa estrutura, não desaparecem num piscar de olhos, sobretudo quando os olhos não se piscam diante da televisão. Nosso preconceito estava adormecido, quieto e manso, mas ao simples anúncio de ruído – que era a presença ameaçadora dos coloridos – ele acorda, e aí faz-se necessário provar que o leão adormecido ainda vive, que o cajado do pai-de-família ainda machuca, e que lugar de bicha é embaixo da terra. Esta, a terra, não pode ser ameaçada em sua eternidade pelo mal que vem em cores. Explica-se, a partir da lógica acima, o medo e a aversão pela diferença, pelo amor entre iguais, pelos coloridos, pela força das mulheres. É isto o que se chama HOMOFOBIA, que em sua raiz é alimentada pela misoginia (isto é, o horror ao que é feminino).

Ao contrário do que muitos pensam, a homofobia não aparece apenas nos casos de violência física e morte, como evidenciaram os 198 assassinados em 2009. Na grande maioria das vezes, ela se firma nas atitudes despretensiosas e cotidianas, porque ela passa a ser legítima, justificada, de direito. O problema é que a legitimidade, a justiça e o direito não são isonômicos, nem bilaterais, nem equânimes. E seria um enorme equívoco trazer Brecht ao texto apenas para retratar Marcelo Dourado, quando se pode fazer mais que isso. Brecht mostrava a relação entre líderes e liderados, criticando – nas entrelinhas – o líder de sua época, Adolf Hitler, bem como os milhares de alemães que o apoiaram. O poema de Brecht não é conformista. Em outras palavras, o que se espera com ele não é que entoemos cânticos porque o povo brasileiro conseguiu eleger seu totem ao posto de “Grande Irmão”, mas antes, inspirar outros muitos brasileiros que lutam contra o que este “Grande Irmão” representa, outros muitos que brigam por justiça de fato, por direitos iguais, por isonomia, pelo direito à vida e à liberdade, pela cidadania plena, geral e irrestrita.

Marcelo Dourado poderá ostentar o título de “Big Brother”. Que seja o big brother vencedor; todavia, não meu. Não posso chamar de “brothers” pessoas com as quais não possuo o mínimo de afinidade, empatia, sintonia. Dourado de fato não é meu irmão; Não compartilho de suas ideias, discordo de seu modo de ver o mundo e as pessoas, repudio os símbolos nazistas tatuados em seu braço, disfarçados pela origem oriental na Antiguidade. Acho que ninguém nascido depois da década de 1930 tenha legitimidade para ostentar a suástica, por mais que sua origem seja bem longe e bem anterior aos campos de concentração da Alemanha. Isto é, para mim, no mínimo, falta de ética. Não tenho motivos para acreditar que ele seja, de fato, um “Grande Irmão”. Aqueles a quem tenho por irmãos sabem que é feio e covarde bater em mulheres; que respeito é discordar sem apontar e julgar; que AIDS não dá em poste, mas em seres humanos: homossexuais, bissexuais e heterossexuais. Meus brothers não são agentes da ignorância, mas pivôs do respeito, do conhecimento e do amor ao próximo. Por fim, Marcelo Dourado, mesmo ganhando o reality show da Rede Globo, não pode ser meu irmão; não bebemos da mesma fonte, não temos os mesmos gostos, nem os mesmos hábitos e nem a mesma educação, não descansamos sobre a mesma consciência e não sentamos juntos na mesma mesa. Até mesmo porque, cá entre nós, não suporto arrotos durante as refeições; a minha alma respira elegância, e o meu espírito, definitivamente, não é o de porco.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ser-Mulher: o pão e o vinho de Deus

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjs8bbksFu2T5YSCZ1onU80P-Cx7YyU7CD6bVDQbWY6YWqvWoV5jaBsAMdSb91w53EJhTBcV-5mI9o5HeJov2nXOKLAlMuBxauIJQmD2jBWo_TgDGr3WTy18Ai3XALnCDO7RIz9OJ_vLVca/s320/Eucaristia11%5B1%5D.jpg
"E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado em favor de vós." (Lucas 22:19-20)
Um grão caído na terra começa a germinar e é observado em seu crescimento por algumas mulheres que estão coletando na área: aí temos, provavelmente, a base da transformação [...] O homem não é o principal produtor. [...] O homem mantinha sua importância pelo significado que a carne tinha, pela sua relativa raridade até. [Porém] nas sociedades agrícolas, a mulher era quem semeava, colhia e preparava os alimentos, ficando os homens fora da produção direta. (Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/revolucaoneolitica.htm)

Não poderia abrir o mês de março senão por meio do assunto que mais enaltece esta época do ano: as mulheres! Elas que, contempladas com um dia em sua homenagem, luzem para o restante do mês sua energia, força, garra e gana.

O 8 de março é um dia de homenagem, sim, momento de parabenizar, congratular e mandar aquelas mensagenzinhas e correntes de e-mail, orkut etc. Mas o que me proponho no SAI NA URINA é mais que isso; é refletir sobre o significado do ser-mulher hoje, a partir dos referenciais que transformaram um simples dia do ano num marco referencial da luta dos direitos delas, as nossas musas.

Em primeiro lugar, eu não sou a pessoa mais apropriada para falar do significado do ser-mulher, posto que não sou uma delas. Porém, apesar do meu lugar de não-conforto, o que pretendo é refletir sobre o gênero feminino, o significado de se sentir mulher na nossa sociedade; é, portanto, uma reflexão a partir de um viés coletivo, e não individual.

E por que refletir coletivamente sobre gênero? Esta tarefa faz sentido porque, especificamente hoje, penso que não cabe o limite das flores, do rosa, das mensagens de congratulação. Hoje, refletir sobre o gênero feminino é trazer à memória toda uma história esquecida, uma história de vitória, uma história perdida nos caminhos da História. O senso comum costuma relegar o passado remoto feminino ao subjugo das mulheres ao papel masculino. Contudo, as mulheres foram protagonistas de uma das maiores revoluções da história humana: a revolução neolítica. Nesta época, eram elas as responsáveis diretas pela alimentação, pela seleção de sementes, pela domesticação dos animais, tarefas nada "femininas" por assim dizer. O uso da força muitas vezes era necessário, da força bruta mesmo! Nesta época, ou pouco antes, não existia a noção de deus-homem, mas da grande Deusa, a Grande Mãe, aquela que vem da terra, a que provê o pão - esse alimento tão precioso que, se hoje representa o corpo do Deus Criador, dAquele que se fez homem, representou outrora o produto de criação da mulher, aquela que se fez deusa.
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Sim, se hoje se come o pão, o Corpo do Filho do Homem, foi a mulher que o pariu, que o pensou, que o idealizou. Não por menos foi este o alimento escolhido pelo Deus Pai, talvez, para retificar a ideia de "Deus-Pai", e aproximá-la de "Deusa-Mãe". Ou, de outra forma, por que não escolheu o trovão, a chuva, as estrelas ou qualquer outro elemento da natureza para ser a representação do divino? Afinal não eram essas as representações do masculino, desde a "pré-história"?

Nas civilizações antigas, a figura masculina sempre foi ligada aos céus, ao passo que a feminina esteve ligada à terra (à exceção do Egito Antigo, cuja severidade do deserto, da terra, remetia ao masculino; e os céus, as bênçãos da chuva, do sereno, do orvalho, que traziam frescor, refrigério e acalanto, remetiam ao feminino). Por isso, ouso dizer que, se o pão e o vinho representam Deus, é porque Ele reconhece nesses elementos o quanto de Mulher existe no trigo e na uva, o quanto de Mulher há em Deus, ou o quanto de Deus há na Mulher! Assim, o próprio Deus enaltece essa figura emblemática, quase divina, suprema, magestática.

Contudo, a Mulher - que o próprio Deus escolheu para Lhe representar (pão e vinho, trigo e uva, agricultura, revolução neolítica), foi subjugada em nome desse próprio Deus durante séculos e séculos! Recentemente, há cerca de um século, movimentos feministas iniciaram a luta pelos direitos das mulheres. Suas manifestações por melhorias nas condições de trabalho; suas lutas pelo direito de expressão; as reivindicações de direitos sexuais; a emancipação em relação ao patriarcalismo; enfim, todas essas batalhas vem fazendo jus ao dia 8 de março, motivo desta postagem.

Minha reflexão, portanto, e como foi dito no início, não é sobre ser-mulher individualmente, mas no coletivo. Apesar de tanto se ter lutado, brigado e reivindicado, a desgraça patriarcal ainda prevalece na nossa sociedade machista, homofóbica, sexista. Se a mulher conseguiu o seu espaço, o feminino ainda permanece subjugado. Ser mulher é nobre; ser feminino é fraco. Ser mulher é nobre, mas mulherzinha ainda é ofensa; ser mulher é nobre; mas não para as travestis, que são ridicularizadas, inclusive por outras mulheres; ser mulher é nobre; se ela couber no universo feminino de passividade; ser mulher é nobre, se ela gostar de homem; ser mulher é nobre, se ela for Eva, pecadora, culpada, auxiliar, costela; ser mulher é nobre, mas ainda falta muito para que o feminino alcance a nobreza. Porque não adianta a sociedade "aceitar" o espaço da mulher nas múltiplas esferas, se nos meandros das relações humanas desta mesma sociedade, o que diz respeito ao gênero feminino ainda é visto sob o olhar de uma sub-categoria.

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E é nesse sentido que eu quis atrever-me a falar sobre o significado de ser-mulher no coletivo. Coletivamente, homens e mulheres perecem diante do sexismo; homens e mulheres são vítimas do machismo; homens e mulheres são promotores e/ou alvo de preconceitos de gênero; homens e mulheres permanecem inertes ao verem a criadora do Pão e do Vinho se tornar mais um número sem concordância na boca de milhares de foliões no carnaval do Rio de Janeiro: uma mulé, duas mulé, três mulé. Ou, em outros casos, reduzidas a cachorras, éguas e afins.

Contudo, não tenho propriedade para dizer que são erradas essas manifestações legítimas (posto que algumas vem das próprias mulheres, que dançam e cantam e vibram e...). A banalidade é também expressão da liberdade, faz parte. Mas, ao invés de condená-la, tentemos ir além dela: neste dia tão especial, que é o 8 de março, resgatemos a Mulher-Deus, tanto aquela que é pão e vinho, a agricultora, a criadora, a protagonista, a revolucionária; quanto aquela que é o próprio Deus, macho e fêmea em sua essência, Deus Pai e Deusa Mãe.

Esforcemo-nos no sentido de dar o primeiro passo para firmar o feminino no seu merecido altar de nobreza; e assim, faremos um mundo muito mais igualitário, onde homens e mulheres poderão dele gozar sob as barbas (ou os seios) de Quem livremente os criou.